Quando um paciente que foi vítima de abusos retorna ao lar onde seu agressor ainda reside e se envolve em relações "amorosas" que perpetuam os mesmos abusos sofridos na infância.
Esse caso foi um dos mais difíceis que já atendi. Questionei-me, inclusive, se o que eu estava fazendo no consultório era realmente “certo” — uma dúvida que ainda me acompanha, pois me pergunto constantemente sobre a eficácia da minha técnica psicoterapêutica. Além disso, houve (e ainda há) dias em que me pergunto: como não desistir de clinicar em meio a tanta dor que parece não ter fim?
O paciente tinha 12 anos e já vivia em lares (alguns conhecem como abrigos) mantidos pela prefeitura há mais de cinco anos. Fugira inúmeras vezes e retornara outras tantas — ora para viver o que chamava de “liberdade”, ora para “voltar para minha casa”. Nessa casa, onde fora abusado, ainda morava o agressor: um pedófilo de quase 50 anos. Evito usar a palavra "estupro", mas foi exatamente isso que aquele homem (em minha mente, surge a palavra *desgraçado!*) fez com o paciente. E não apenas uma vez…
— Eu vou fugir para a casa da minha tia, aham, vou sim.
— Mas nessa casa não está o seu tio que abusou de você?
— Se ele tentar de novo eu dou um soco nele, eu mato ele!
— E aquela mulher de 20 anos que você me falou?
— Você não falou nada sobre eu matar meu tio…
— Eu entendo esse desejo… Mas também quero saber sobre essa mulher de 30 que está se aproximando de você…
Claramente essa mulher que estava se aproximando dele também era uma abusadora. E a fuga que ele mencionou em nossa conversa aconteceu. Os meses alternados em que o paciente viveu na rua, após fugir de casa aos 7 anos de idade, conferiam a ele uma experiência de mundo que eu jamais viria a ter. Sobreviver em meio a falta total de segurança, mais uma vez, visto que dentro de casa ele também não tinha nenhuma, e das privações de todos os tipos, adiantaram a “maturidade” dele.
Acabaram com a sua inocência, criaram um vinco profundo na sua psique e destruíram com a sua capacidade de acreditar que a vida pode melhorar.
Filho de uma mãe usuária de drogas, que foi morta pelo pai em uma discussão, ele havia crescido cuidado pela tia, irmã de sua mãe, e pelo tio (abusador) esposo dela. A tia não acreditou quando ele contou sobre os estupros frequentes. Aí ele fugiu. Morou na rua durante meses até que o Conselho Tutelar o identificou em uma abordagem, quando foi pego junto com outros garotos acusados de furto. Na rua, sofreu abusos de vários tipos, mais um dentre tantos que já havia sofrido.
E agora ele havia se envolvido com uma mulher que dizia “querer" ajudar. Mas que estava claramente aliciando ele, trocando toques de “carinho” e beijos por uma promessa de que se ele fugisse do lar-abrigo da prefeitura, ela daria “todo o amor do mundo” para ele.
Amor, para ele, resumia-se a duas coisas: abandono e abuso. Em sua mente — e esse era o nó que eu tentava desfazer — ser amado significava ser abusado.
Continua…
Amores, dores e pipocas literárias
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Esta pesquisa tem por objetivo analisar a intervenção psicanalítica com jovens em cumprimento de medida socioeducativa de internação. Nesse contexto especial, essa clínica adquire novos formatos, sobretudo no manejo da transferência, e em alguns elementos da técnica. Por esta razão, este estudo traz a articulação teórica da psicanálise com a experiência vivenciada em uma unidade de internação para adolescentes infratores. Por conceber que a intervenção psicanalítica circunscreve-se na díade paciente–analista, a “comum-idade” – o sujeito adolescente – é o foco da discussão, que também aborda o conceito de sujeito, especialmente o freudiano. Em seguida, reflexões psicanalíticas pertinentes à adolescência foram consideradas, bem como as temáticas relacionadas à formação de grupos, às famílias dos jovens, à sociedade e ao universo infracional – nesse ponto, surge o segundo sentido da terminologia “comum-idade”: a comunidade em si, que não exclui a tensão dialética entre o sujeito e o social, a família, o grupo, ou mesmo entre o sujeito e a unidade socioeducativa.
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