A Copa do Ranço
Um conto escrito por seis autores diferentes.
Este texto é um experimento escrito por 6 autores diferentes. Esperem muitas surpresas.
Aproveitem! :D
( Henrique Morrone )
Eu e meu pai, Eleutério, caminhávamos rumo à arquibancada ladeados pela esposa e pelo filho, preparando o estômago para mais um jogo da seleção brasileira. Nesta linha do tempo, o Brasil havia conseguido a proeza de empatar com Marrocos e Haiti, precisando agora de uma vitória suada contra a Escócia para alcançar o mata-mata.
— Mamãe, papai, estão animados pro jogo? — falou meu irmãozinho.
— Eu estou, filho! — respondeu minha mãe, balançando a bandeira com um sorriso tão genuíno quanto o de uma comissária de bordo em fim de turno.
Eleutério, por outro lado, mantinha a mandíbula travada.
— Quer que eu seja sincero? — rosnou, sem disfarçar a carranca. — Não estou nem um pouco animado.
— Mas pai, por quê? — falei.
— Você assistiu aos últimos jogos? — rebateu, revivendo o show de horrores na mente.
Antes que o menino pudesse responder, um segurança do estádio, com uma expressão ainda mais pesada que a de Eleutério, bloqueou o caminho da família.
— Por favor, sigam-me — ordenou, em um tom que encerrava qualquer negociação.
( Robert Pontes )
Enquanto caminhávamos sob a escolta forçada, percebi o segurança nos observando, levemente confuso. Subitamente, ele parou e estendeu seu braço à nossa frente, criando uma cancela humana. Seu olhar ia do nome no ingresso para o rosto do meu pai, num pingue-pongue silencioso.
— Eleutério… — murmurou, enquanto seus lábios se contraíam, repetindo a palavra em câmera lenta, como se esfarelasse sílabas em busca de algo perdido. De repente, seus olhos se arregalaram, como se tivesse tido uma epifania.
— Deutério! — exclamou, estalando os dedos.
— O senhor tem parentesco com o Deutério?
Meu pai, cujo conhecimento químico se limitava a saber que bebidas alcoólicas eram líquidas (se sólidas fossem, comê-las-ia), revirou os olhos. Mas eu, ainda na escola, lembrei-me do nobre Professor Hélio ensinando que o Deutério é um tipo de hidrogênio mais pesado e raro. Todavia, ele habita nos oceanos e nos reatores e, agora, no concreto do estádio, aquele segurança decidira que meu pai era aparentado de um isótopo e eu era, por conseguinte, um decaimento de prótons.
— Deutério não é sobrenome… — tentei argumentar, mas o segurança, que chamei carinhosamente de Geiger, era mais forte em suas convicções que minha racionalidade de estudante do ensino médio.
— Ah, mas poderia ser — devolveu-me, erguendo o dedo em riste. — E, se for, o protocolo me obriga a verificar. E nomes incomuns disparam… como se diz mesmo… gatilhos mentais! — Sua lógica era tão torta que não estava nem ao menos errada, do jeito que só as burocracias conseguem.
Minha mãe, com a bandeira em meio-mastro, sussurrou que vivemos no país do futebol, não da tabela periódica. Geiger ouviu nossa comunicação e pareceu não se abalar, mas parou de repente, de frente para uma saleta ao lado dos banheiros.
— Para a salinha de verificação, por gentileza. O jogo, se o seu pai não for radioativo, dá para assistir de lá.
Enquanto a porta se abria, lembrei que o Deutério é estável e não decai nunca. Minha paciência, entretanto, tinha meia-vida curta.
( filipe fernandes )
Assim que a porta da saleta se fechou atrás de nós, minha paciência evaporou de vez.
— Escuta aqui, moço. A gente veio assistir o jogo, o jogo mais importante do ano! — eu falava enquanto íamos sendo conduzidos para dentro como ratinhos. — Eu não quero perder esse momento só porque você acha que meu pai é um isótopo!
— Iso o quê? — meu pai parecia mais confuso do que quando assistia à seleção jogar.
— Isótopo! Rá! — um homem de jaleco acabado e cabelos arrepiados corrigiu com a voz finíssima no canto da sala. Estava cercado por papéis e encarava uma televisão de tubo em cima da mesa. Olhei para minha mãe, que olhou para meu pai, que olhou para o homem: — Doutor Barros, especialista em anomalias nucleares e futebolísticas!
— Hein, futebolísticas? — meu pai cerrava os olhos, coçava a cabeça.
O homem olhou para ele e apontou para a televisão, onde o Brasil errava passes durante o aquecimento:
— Acha normal isso?
— Bem que eu sabia! Isso não é coisa de Deus, não.
— Pois é, senhor... tivemos que verificar algumas coisinhas desde o empate contra o Haiti.
O silêncio que se seguiu, tão pesado quanto o tal Deutério, foi interrompido pela minha mãe:
— E o que diabos tem isso?
— Ah, senhora! Isso que queremos saber... — começou a remexer os papéis ao seu redor com tanta empolgação que parecia ter descoberto uma nova partícula subatômica. Achou o que procurava e levantou-se para mostrar. Era uma foto dos jogadores da seleção. Todos pareciam normais, exceto um, e o tal doutor apontava igual louco para ele, batendo o dedo na imagem.
( Felipe Raphael )
— Esse sujeito aqui — disparou o Doutor Barros, cutucando a foto com tanta força que o papel quase rasgou. — Vocês repararam na cara dele?
A gente se aproximou para ver melhor. Era o lateral-direito. O cara tinha aquela cara de “quem, eu?”, parecendo que ia pedir licença para o adversário antes de tentar um desarme. Era um sujeito tão comum que chegava a ser suspeito, especialmente vestindo a amarelinha. Meu pai semicerrou os olhos, deu um suspiro pesado daqueles de quem já aguentou muita eliminação vexatória e soltou:
— Esse aí? Esse aí não acertou um cruzamento nem contra o Haiti! Foi um Deus nos acuda.
O doutor deu um sorrisinho de canto, meio sinistro, como se estivesse esperando a vida inteira para alguém finalmente notar o óbvio.
— Pois é. Começa exatamente por aí.
Ele puxou uma pasta amarela toda amassada debaixo da mesa, onde se lia “OPERAÇÃO CANARINHO PESADO” em letras de forma meio tortas. Tinha de tudo ali: gráfico de desempenho, recorte de jornal velho, foto ampliada do tornozelo do lateral e até um mapa da Escócia cheio de setas vermelhas ligando o cabelo do preparador físico a um laboratório em Glasgow. Parecia loucura total, mas se você parasse para pensar no Brasil recuando bola aos quarenta e cinco do segundo tempo precisando de gol, a loucura fazia sentido.
— O pessoal aí fora acha que é só ruindade — cochichou o doutor, fazendo mistério. — Mas a real é que estão batizando o futebol brasileiro com Deutério emocional.
Minha mãe apertou o cabo da bandeira, como se aquilo fosse a única coisa real que sobrasse no mundo.
— Deutério emocional? O que raios é isso? — perguntei, já me arrependendo de ter dado corda.
— É uma substância brava, invisível, que reage mal com pressão de torcida — explicou ele, com a autoridade de quem já foi expulso de muito churrasco por causa dessa conversa. — O negócio transforma drible em recuo pro goleiro e chute a gol em pedido de desculpas. A bola chega redondinha e o cara devolve quadrada, como se tivessem instalado um Windows 95 no pé dele.
Meu pai levantou a cabeça. Pela primeira vez no dia, os olhos dele brilharam. Não era aquele brilho de alegria, mas aquele alívio de quem descobre que a tragédia é uma conspiração e pensa: “Ah, bom, então não é só porque o time é perna de pau mesmo”.
— Então o problema não é que eles são ruins?
O doutor respirou fundo, olhou para a TV onde o lateral acabava de tropeçar na própria sombra durante o aquecimento, e mandou a real:
— Um pouco de cada, né? A ciência também não faz milagre.
( Paulo Amoreira )
Diante daquela constatação científica bizarra, minha mãe, provavelmente a pessoa mais sensata ali, agarrou meu pai pelo braço, sussurrando em seu ouvido.
— Eleutério, essas pessoas são muito estranhas, vamos sair daqui!
Mas meu pai parecia hipnotizado pelas palavras do suposto doutor e, em um episódio típico da mais franca teimosia, fez que não ouviu.
— Conte mais, Doutor, conte mais!
Doutor Barros se animou como uma criança com um brinquedo novo. Começou a falar sem parar, traçando muitas linhas de argumentos contraditórios ao mesmo tempo, como se estivesse em um transe. O segurança balançava a cabeça em concordância com tudo, embora estivesse claro que nada entendia de toda aquela verborragia. Meu pai estava encantado, feito um estrangeiro que finalmente encontra alguém que fala seu idioma após anos de solidão em um país estranho.
Minha mãe olhou para mim, clamando por ajuda. Contrariado em precisar interromper tão extraordinário exemplo de delírio, fiz um aparte.
— Tudo isso é muito interessante, mas sabe, precisamos voltar para nossos lugares para assistir o jogo.
O segurança, do alto dos quase dois metros de altura, forte como um touro, em um movimento firme, se colocou entre nós e a porta, deixando claro que não sairíamos.
O Doutor Barros retirou os óculos do rosto e começou a limpar as lentes com um lencinho. Mudou o tom antes amistoso para um tom entre ameaça e sentença.
— Infelizmente, isso não será mais possível. Agora, vocês são parte essencial do meu experimento. Deixá-los ir colocaria tudo a perder.
Uma nuvem escura cobriu o rosto do meu pai. De alegria juvenil ele passou a expressar um temor crescente (é certo que ‘coragem’ não era um de seus atributos pessoais), gaguejou um pouco, mas não conseguiu dizer nada inteligível.
Minha mãe, ao contrário, me puxou para trás de si e declarou:
— Se o senhor não deixar a gente sair agora eu vou gritar!
O segurança levantou a camisa e mostrou uma arma na cintura. O Doutor Barros, com um aceno, ordenou que ele escondesse a arma novamente e fez um gesto em direção às paredes.
— Minha senhora, estamos em um estádio. Essas paredes de concreto têm dois metros de espessura. Não se desgaste. O melhor para TODOS é aceitarem pacificamente e colaborarem. Hoje, se A Singularidade se manifestar como previsto, seus nomes serão lembrados como heróis!
( Manu Rodrigues )
Minha mãe recuou um passo, absorvendo o delírio da sentença. Ela cerrou o cenho.
— Que diabos é isso de “Singularidade”? — perguntou a si mesma, com receio de ter pensado alto.
Um olhar meio desesperado, meio “precisamos fazer alguma coisa”, ziguezagueou entre nós quatro, inofensivo o bastante para que o segurança relaxasse a postura e descansasse a mão, que antes segurava a arma, no bolso de trás da calça. O doutor Barros, oscilando entre sombrio e inebriado, mirava a tela, vidrado, como se observasse fungos criando caminhos entre migalhas de pão numa placa de Petri.
Aproximamo-nos da parede de vidro da sala, de onde conseguíamos ver o lado do campo em que o Brasil atacava. Embora o time em campo parecesse ser o foco da pesquisa, as cobaias éramos nós.
Assistíamos ao time cobrar um escanteio quando, de soslaio, vi minha mãe observando o reflexo do vidro. O segurança manipulava uma válvula na parede, vigilante.
( Henrique Morrone )
De repente, ouvimos um clique e um barulho de gás escapando.
Minha mãe virou-se para mim.
— Ouviu isso, filho?
— Ouvi.
Então senti meus olhos ficarem pesados e meu corpo relaxar, a ponto de eu não conseguir me mexer.
— Gregório, traga-me os equipamentos, por favor. — falou o doutor, aparentemente se referindo ao segurança.
Então minha mãe caiu desacordada no chão. Meu pai foi logo na sequência.
“Mas o quê!?” foi a última coisa que pensei antes de eu também apagar.
Não me lembro ao certo quanto tempo dormimos, mas o Brasil e a Escócia ainda estavam em campo quando acordamos.
Estávamos em uma sala diferente, agora sentados em poltronas enfileiradas lado a lado com uma vista panorâmica do campo de futebol. Meu irmãozinho estava à minha esquerda enquanto meus pais estavam à direita.
Olhei para o menino. Ele dormia como um anjo, segurando seu Canarinho Pistola de pelúcia, com vários cabos daqueles que captam atividade cerebral colados na cabeça.
Virei a cabeça para meus pais, e estavam sob as mesmas condições.
“Espera…” pensei.
Então deslizei minha mão esquerda pela minha nuca e senti vários cabos plugados em mim também!
— Ah, merda!
De repente, Doutor Barros apareceu na minha frente.
— Mas o que você está fazendo com a gente?! — berrei. — Por acaso isto é um sequestro?! Saiba que nossos órgãos são muito ruins para o mercado clandestino, porque todo mundo aqui é diabético.
— Calma, Cório. — disse ele, sorrindo. — Não estou interessado nas tripas de vocês. O que eu quero é bem mais simples e seguro.
O cientista deu dois passos largos para a esquerda. Pude ver com mais clareza a arquibancada cheia e o campo vazio. Ele estendeu o braço em direção à tela panorâmica.
— Agora estamos no intervalo, como pode perceber. — falou, gesticulando.
( Robert Pontes )
— O time foi contaminado com Deutério emocional — começou Barros, baixando o braço como se aquilo fosse a coisa mais corriqueira do mundo. — Essa substância reage à pressão e transforma jogada promissora em passe para o lado. A única coisa capaz de neutralizá-la é uma emissão concentrada de energia positiva genuína.
Olhei para minha mãe, que revirou os olhos. Meu pai, recém-acordado, resmungou algo que soou como “[…] energia positiva é o escambau”. O doutor sorriu.
— É exatamente aí que vocês entram. O Eleutério… bem… — hesitou, olhando para minha mãe — é uma fornalha de pessimismo. Mas o pessimismo dele é tão puro e intenso que obriga quem está ao redor a produzir energia positiva defensiva, para não sucumbirem à loucura. Vocês três agem como um reator de energia positiva involuntária. Enquanto um bufa, o outro torce genuinamente para que algo dê certo. Essa energia, captada pelos eletrodos, é mais potente do que mil torcedores gritando “Eu acredito”. E vamos transmiti-las para o campo.
— Mas por que eu? — Meu irmãozinho perguntou, em sua inocência, apertando seu Canarinho Pistola contra o peito.
— Porque ninguém mais pode… — disse Barros, com a voz cansada.
— Então é só torcer?
— Só torcer — confirmou Barros, apontando para o campo que começava a se encher de novo. — Mas tem que ser de coração, sem ironia nem desconfiança. Seu pai já faz o papel dele apenas existindo. Vocês fazem o de vocês. O segundo tempo já vai começar.
Meu pai bufou. Minha mãe, prática, ajustou os eletrodos na testa, como se tivesse feito isso um milhão de vezes, e encarou o vidro panorâmico.
— Tá bom. Vamos acabar com isso. Mas se não funcionar, a responsabilidade é do senhor, não da torcida.
Lá fora, o Brasil voltava do intervalo com uma energia chocha, capenga, manca, anêmica, frágil e inconsistente. Os eletrodos zumbiam em minhas têmporas. Minha mãe fechou os olhos e começou a murmurar “vai, vai, vai”, como se rezasse um terço. Meu irmãozinho balançava o canarinho com uma fé que eu só tivera no mito da meritocracia.
Fechei meus olhos, pensando na ironia daquela situação: a salvação da seleção dependia de uma família mantida em cativeiro e, em especial, de um pai cuja única contribuição era ser genuinamente tóxico, quase radioativo e deveras descontente.
Apesar dos pesares e dos humores que pesavam a sala, comecei a torcer.
( filipe fernandes )
Mas a adesão não foi imediata.
— O senhor vai me desculpar, mas como é que torce pra isso, Doutor? Dá pra ver só pela caminhada que os bicho são bagre. Dos grandes! — meu pai resmungou cansado, a ponta dos dedos tremendo não escondia a sua decepção.
— Eles conseguem, pai! Temos a maior seleção do universo! — meu irmãozinho se intrometeu quando o Brasil errou o pontapé inicial.
Ao mesmo tempo, vi que alguma coisa começou a mudar nos passes dos jogadores. Antes de nos reunirmos forçadamente para tentar torcer pelo time, juro que dava desgosto nos olhos, dava refluxo. Mas depois do que meu irmão disse, parecia só mal executado, até deu para ver os atacantes andando de cabeça erguida.
Minha mãe deve ter percebido o mesmo e olhou incrédula para o campo. Fez um bate e volta com o olhar no meu irmão e assentiu.
— Isso mesmo, Eleutério, temos a maior seleção do universo! Por mais que… — e, antes de pensar em falar, viu o goleiro furando uma bola recuada — nada! Precisamos e vamos vencer. E esses jogadores vão fazer história hoje!
Ela olhou de volta para o campo, e o goleiro conseguiu acertar o passe, que chegou no lateral. Os olhos de todo mundo brilharam. Confesso que meu corpo foi tomado por um sentimento estranho e um frio na barriga incomodou.
— Vai, vai! É agora! — meu irmãozinho gritou assim que o lateral acertou um drible, talvez o drible mais sortudo da história, mas um drible!
E de lá passou para o ponta, que correu e correu como se não houvesse amanhã. Todos ficaram apreensivos, era como se aquela bola valesse a paz mundial. O ponta levantou a cabeça, coisa rara de se ver, e enxergou nosso atacante entrando na área igual a um trem. Não pensou duas vezes, provavelmente nem pensou. Passe certeiro. A respiração de todo mundo sumiu quando a bola foi dominada como uma pessoa comum faria, e o ar ficou pesado na sala.
Ele olhou para o gol, ou pelo menos na direção dele. Fitou a bola. Eu nunca torci tanto para um gol na minha vida inteira. Encarou o goleiro e chutou de olhos fechados.
( Felipe Raphael )
A bola saiu do pé dele com a elegância de uma geladeira sendo arremessada de uma escada. Subiu demais, girou errado e começou uma trajetória que parecia mais apropriada para um satélite meteorológico do que para uma finalização.
— Ah, não… — gemeu meu pai, cobrindo o rosto.
Mas então aconteceu. A bola bateu no refletor superior do estádio. Não deveria ser possível. Nem física, nem arquitetonicamente. Mas bateu. Houve um clarão azul. Um zumbido percorreu as paredes. Os eletrodos presos às nossas cabeças começaram a apitar feito chaleiras possuídas. Doutor Barros arregalou os olhos.
— Meu Deus…
— O quê foi agora? — perguntou minha mãe.
O cientista não respondeu. Correu até um monitor e começou a apertar botões desesperadamente.
— Não era para acontecer tão cedo.
— O quê não era para acontecer? — gritei.
— A Singularidade!
Lá fora, a bola continuava no ar. Não caía. Simplesmente não caía. Os quarenta mil torcedores no estádio estavam em silêncio. Os jogadores também. O árbitro consultou o relógio. Depois olhou para o céu. Depois voltou a olhar para o relógio. A bola permanecia suspensa a uns quinze metros de altura. Imóvel. Como se alguém tivesse pausado a realidade. Meu irmãozinho apontou pela janela.
— Ela travou.
Travou. Era exatamente essa a palavra. A bola parecia um vídeo congelado. Então um dos monitores do laboratório explodiu. Faíscas voaram pela sala. Os números nas telas enlouqueceram.
— Barros! — berrou o segurança Gregório. — Os níveis estão subindo!
— Eu estou vendo!
— Níveis de quê?!
— De esperança!
A frase pairou no ar. Até meu pai ficou sem resposta.
— Esperança? — repetiu ele.
— Sim! — gritou Barros. — Esperança genuína! Pura! Não víamos valores assim desde a Copa de 2002!
( Paulo Amoreira )
Sabe aqueles momentos em que você olha para alguém por quem tem crush — que nunca lhe deu a menor chance — e, não mais do que de repente, ela olha para você e sorri como se uma Torre Eiffel acendesse na escuridão do seu coração vira-lata? Tudo ao redor começa a acontecer em câmera lenta, feito comédia romântica clichê, e você diz a coisa certa, na hora certa e as coisas simplesmente acontecem do melhor modo que podiam acontecer?
Pois foi exatamente assim que os eventos seguintes ocorreram: todos olhavam uns para os outros e sorriam. Naquele laboratório e no jogo.
Nas arquibancadas, a torcida chorava de emoção, experimentando um calor no centro do peito e um forte senso de pertencimento — “apesar de tudo, somos uma nação!”, pensavam alguns; “Deus ainda é brasileiro!”, gritavam outros; um trio de pentecostais temerosos murmurou em sequência: “é o final dos tempos!”, “é o Armagedom!”, “é o Apocalipse”.
Os jogadores no campo experimentaram uma calma de conexão mística, compartilhando uma consciência coletiva de cardume ou revoada, como se todos soubessem o que deviam fazer e agissem como um corpo único, sem ensaio ou liderança.
A bola, suspensa no ar, ainda tremia feito glitch em jogo eletrônico. Depois caiu. Um artilheiro do Brasil matou no peito e, sem olhar, passou a bola. Uma sequência perfeita de passes foi realizada, como bola de pinball em um antigo fliperama nas mãos de um gamer dos anos 80, fazendo um ziguezague que deixou vários zagueiros da Escócia no chão. Os atacantes do Brasil avançaram em uma dança de guerra que terminou com um lançamento preciso e fatal: a bola chegou nos pés do artilheiro que chutou de primeira, a bola desenhou no ar a curva de uma elipse fisicamente impossível, tirando o goleiro escocês da jogada, até encaixar no canto superior esquerdo do gol.
O estádio veio abaixo em um estrondoso “Gooool!”. A detonação dessa energia foi tão forte que nossos cérebros, conectados aos cabos, fritaram por um segundo. Fomos engolidos por um delírio utópico. Naquele milissegundo de transe sensorial induzido pela Singularidade, eu jurei sentir uma onda de contentamento se propagando pelo mundo: imaginei inimigos fazendo as pazes, crianças comendo suas verduras, patrões instituindo a escala de trabalho 4×3 e políticos dizendo apenas a verdade. Uma alucinação de perfeição.
No laboratório onde estávamos presos, a euforia, no entanto, era real. Doutor Barros abraçou o segurança, que beijou a própria arma; meu irmãozinho apertou no peito seu Canarinho; eu abracei minha mãe e até meu pai, rompendo seu mau humor natural, ensaiou uns passos de samba (mais parecia que queimava os pés em brasas ardentes).
Não sei o que era de fato A Singularidade, mas, seja o que for, ajudou o nosso time a ‘desencantar’ e isso foi algo muito incrível de presenciar.
Foi então que, com o canto do olho, puxado de volta à realidade, pude ver que acima do estádio, camuflado no meio de uma nuvem escura enorme, algo parecido com um Disco Voador planava misteriosamente.
( Manu Rodrigues )
Ele planava em silêncio e parecia escanear o campo com uma luz celeste. Mas, quando passou pelas arquibancadas, a nave vibrou e piscou a iluminação ao estilo Carreta Furacão. Se os acontecimentos até ali já pareciam um sonho febril durante o cochilo de domingo pós-feijoada, naquele momento já não era possível sequer arriscar um chute sobre o que aquele brilho significava.
Enquanto a multidão comemorava o gol do Brasil, uma engrenagem de outro planeta operava a poucos metros acima de nós.
Dentro da nave, o clima era o oposto do nosso carnaval. Frio, cirúrgico e letal.
— Ressonância atingida. Captação iniciada — disse uma criatura, sua voz metálica ecoando enquanto observava a sucessão de luzes percorrer um painel que pairava no centro da cabine. Símbolos desconhecidos se apagavam um após o outro, dando lugar a pulsos verdes ritmados em dois tempos.
Outros dois seres registravam dados sem esboçar qualquer sinal de exaltação, contrastando com a torcida que ainda estava em êxtase, sem imaginar que cada abraço, cada lágrima e cada “vai Brasil!” eram convertidos em frequências e armazenados diante de imensos olhos ilegíveis.
No centro da operação, uma figura menor que as outras inclinou a cabeça para a projeção holográfica.
Um breve silêncio absoluto foi interrompido apenas pelo eco distante dos gritos de “goooool!”, mais uma vez, reverberando no casco da nave.
— Iniciar segunda fase.
FIM.
Organização: Henrique Morrone ( Então tá, pessoal! )
Autores:
Robert Pontes ( Flanarte, ou Anatomia do Cediço )
Felipe Raphael ( Curto Circuito ⚡🧠 )
Filipe Fernandes ( caderno e letras )
Paulo Amoreira ( .alliors. )
Manu Rodrigues ( Quem você pensa que é? )






