Arquitetos do Caos # Quem é Kalien e por que você deveria se preocupar com ele?
Justamente por não ser apenas um homem, Kalien transforma guerras em inevitabilidades, impérios em instrumentos e povos inteiros em extensões da sua própria vontade.
Antes de falar de Kalien, precisamos falar sobre…
Talvez você nunca tenha jogado RPG. Talvez já tenha participado de dezenas de campanhas. Ou talvez esteja lendo este texto porque acompanha a IS Impérios Sagrados há muitos anos e queira entender melhor o universo que deu origem aos nossos livros e à nossa mesa de jogo. Independentemente do caminho que trouxe você até aqui, existe uma pergunta que merece ser respondida antes de qualquer outra: afinal, o que é RPG?
RPG é a sigla para Role-Playing Game, expressão em inglês que pode ser traduzida como jogo de interpretação de papéis. Em uma mesa de RPG, cada pessoa assume a identidade de um personagem e participa de uma história construída coletivamente. Diferentemente de um jogo eletrônico ou de um tabuleiro tradicional, não existe um roteiro completamente fechado. Há um mundo com suas próprias regras, uma narrativa conduzida por uma pessoa narradora, personagens interpretados pelas pessoas jogadoras e um sistema que determina as consequências das escolhas feitas ao longo da aventura. É uma mistura de literatura, teatro, estratégia e imaginação, na qual cada decisão pode alterar profundamente o destino da história.
É justamente dessa liberdade que nasceu a IS Impérios Sagrados.
Muito antes de existir uma editora, um catálogo de livros, um canal no YouTube ou um projeto editorial, existia apenas uma mesa de RPG. Ela começou em 1996 e, desde então, continua sendo jogada ininterruptamente. Ao longo de quase três décadas, milhares de personagens nasceram, impérios foram erguidos e destruídos, guerras começaram e terminaram, amizades foram construídas, deuses surgiram, desapareceram e retornaram. O que hoje chamamos de Universo Impérios Sagrados não foi criado para servir de pano de fundo para um livro. Ele foi vivido sessão após sessão, decisão após decisão, como consequência das escolhas feitas pelas pessoas que se reuniam ao redor dessa mesa.
Foi dessa história coletiva que nasceram os romances publicados pela IS Editora. Foi dela que surgiram personagens que atravessaram gerações dentro da narrativa. E é dela que nasce a campanha que agora também poderá ser acompanhada em nossas transmissões. Pela primeira vez, quem nunca participou dessa mesa poderá acompanhar uma história que vem sendo construída há vinte e nove anos.
Mas existe um detalhe importante que diferencia o Universo Impérios Sagrados de muitas outras histórias de fantasia.
Este não é um mundo criado para que protagonistas apenas vivam aventuras, é um mundo para que sejam lendárias e lendários!
É um mundo que continua existindo mesmo quando ninguém está olhando para ele, mesmo após uma aventura ser encerrada e as pessoas já estarem em casa.
Enquanto uma personagem atravessa uma floresta, impérios negociam alianças do outro lado do oceano. Enquanto um reino celebra uma vitória, outro pode estar entrando em guerra. Enquanto uma deusa concede um dom ao seu povo, uma conspiração política pode estar mudando completamente o destino de outra civilização. Esse mundo chama-se Asdem.
É nele que religiões moldam a política, que impérios disputam territórios há milênios, que diferentes povos compreendem o poder de maneiras completamente distintas e que acontecimentos separados por milhares de anos continuam produzindo consequências no presente. É também nesse mundo que surgiu uma figura cuja existência alterou definitivamente o destino de civilizações inteiras.
Seu nome é Kalien.
E para compreender por que um único elfo conseguiu colocar um mundo inteiro de joelhos, precisamos voltar mais de cinco mil anos na história de Asdem.
E aqui você precisa entender uma coisa.
Uma das maiores dificuldades de quem começa a conhecer um universo de fantasia é imaginar que tudo aquilo existe apenas para servir de cenário à aventura principal. Em Asdem não é assim.
Asdem não foi criado para contar a história de Kalien, de Amonsehat, de Korlyng Handel’t ou de qualquer outra personagem. Essas figuras são importantes justamente porque nasceram em um mundo que já possuía milhares de anos de história antes delas e que continuará existindo muito tempo depois de suas mortes. Impérios surgem e desaparecem. Povos migram. Religiões entram em conflito. Deuses interferem diretamente na vida das pessoas mortais. Civilizações são erguidas sobre as ruínas de outras ainda mais antigas. Enquanto um reino celebra uma grande vitória, outro pode estar sendo consumido por uma guerra que ninguém sequer conhece. Em Asdem, o mundo nunca para porque a aventura terminou.
Esse é um dos princípios que acompanham a mesa de RPG da IS Impérios Sagrados desde 1996. O cenário é vivo. As escolhas das personagens modificam a história, mas também são modificadas por ela. Existe uma cronologia que atravessa milênios, guerras que permanecem vivas apenas como lendas, tratados políticos esquecidos, religiões que mudaram de forma ao longo dos séculos e povos que sequer sabem que caminham sobre antigas cidades soterradas pelo tempo. Em outras palavras, as personagens não são maiores do que o mundo; elas precisam aprender a existir dentro dele.
É justamente por isso que Kalien causa tanto impacto.
Ele não aparece em um mundo vazio esperando por um antagonista. Ele invade um universo que já possuía sua própria ordem, seus impérios, suas disputas políticas, suas alianças e seus conflitos. Sua chegada não inaugura a história de Asdem. Pelo contrário: ela interrompe violentamente uma história que já vinha sendo escrita há milhares de anos. Compreender Kalien significa compreender que ele não conquistou apenas cidades ou exércitos. Ele alterou o curso da própria História.
E, para entender como um único elfo conseguiu fazer isso, precisamos voltar mais de cinco mil anos, quando seu nome ainda era apenas o prenúncio de uma guerra que mudaria o destino de mundos inteiros.]
Há cinco mil anos...
Muito antes dos impérios que hoje dominam Asdem. Muito antes das fronteiras atuais, das religiões que moldam a política dos povos ou das guerras lembradas pelos cronistas, existiu um período tão distante que a própria História passou a tratá-lo como lenda. Muitos acontecimentos desse tempo sobreviveram apenas em fragmentos de manuscritos, tradições orais e ruínas espalhadas por diferentes mundos. Ainda assim, existe um consenso entre estudiosos, sacerdotes e sobreviventes daquela era: foi naquele período que nasceu a maior ameaça que o Universo já conheceu.
Seu nome era Kalien.
Ao longo da história dos mundos, Kalien recebeu inúmeros títulos. Para algumas civilizações, era um conquistador. Para outras, um libertador. Houve quem o venerasse como uma entidade destinada a restaurar uma antiga ordem e quem o descrevesse como a própria ruína da criação. O próprio Kalien, porém, jamais aceitou qualquer definição que não fosse a sua. Em seus registros mais antigos, afirma que a força não é apenas um instrumento de governo, mas a única medida legítima para determinar quem possui o direito de liderar. Em sua visão, quem é derrotado demonstra, por esse simples fato, que jamais mereceu governar.
Foi com essa filosofia que fundou a Ordem dos Duldrons.
Os Duldrons não eram apenas um exército. Eram seguidores de uma ideia. Acreditavam que o equilíbrio do Universo somente poderia existir quando todos os povos estivessem submetidos a uma única vontade, eliminando diferenças, fronteiras e qualquer possibilidade de oposição. Para Kalien, igualdade jamais significou convivência. Significava submissão completa ao mais forte. Era essa convicção que movia suas campanhas militares e fazia com que novos seguidores surgissem a cada mundo conquistado.
Durante décadas, talvez séculos, suas tropas atravessaram diferentes planetas deixando para trás cidades destruídas, civilizações fragmentadas e impérios inteiros reduzidos à obediência. Nenhuma aliança conseguia detê-lo por muito tempo. Nenhum exército permanecia de pé diante do avanço dos Duldrons. A cada vitória, Kalien parecia tornar-se ainda mais poderoso, como se a própria guerra fortalecesse sua presença.
Foi nesse contexto que eclodiu a Guerra Vittae.
O conflito mobilizou povos que até então jamais haviam lutado lado a lado. Elfos, humanos, anões, dragões e inúmeras outras civilizações compreenderam que não enfrentavam apenas um comandante excepcional. Enfrentavam alguém que parecia impossível de derrotar. Batalhas eram vencidas, fortalezas eram retomadas, grandes guerreiros sacrificavam suas vidas, mas Kalien sempre retornava. Não importava quantas estratégias fossem elaboradas. A conclusão era sempre a mesma: ele não podia ser morto.
Foi então que surgiu uma solução tão desesperada quanto extraordinária.
Entre todos os líderes daquela guerra, havia um homem chamado Amonsehat, filho do deus Arut e neto de Séth. Diferentemente da maioria dos comandantes, ele abandonou a busca por uma forma de destruir Kalien. Depois de anos estudando seu inimigo, chegou a uma conclusão devastadora: talvez a morte simplesmente não fosse uma possibilidade. Se Kalien não podia ser eliminado, restava apenas impedir que continuasse existindo entre os povos.
Nascia, assim, o plano mais secreto de toda a História conhecida.
Um ritual de petrificação dividido em três partes, ligado diretamente ao sangue do próprio Amonsehat, capaz não de matar Kalien, mas de aprisioná-lo. Apenas cinco pessoas conheceram integralmente esse plano e juraram levar o segredo consigo até a morte: Amonsehat; Essarien Dragonon, Senhor dos Dragões; Váldkór Ellendill, imperador de todo o povo élfico antes da fragmentação causada pela guerra; seu filho, o príncipe Baldtrans Constaziwi; e Bruco, o Martelo da Mão de Trovoada, rei dos anões do Reino de Kandara.
Quando o ritual finalmente foi realizado, Kalien desapareceu do mundo.
Mas o preço dessa vitória seria sentido durante os cinco mil anos seguintes. Porque, para todas as demais pessoas que testemunharam aqueles acontecimentos, Amonsehat parecia ter traído seu próprio povo durante a Guerra Vittae. Ninguém conhecia o plano. Ninguém compreendia por que ele enfrentara seu próprio imperador. Ninguém sabia que Kalien jamais havia sido derrotado.
Ele apenas estava esperando.
O maior mistério da História
Até aqui talvez você esteja pensando: então o problema acabou. Kalien foi petrificado. A guerra terminou. Os povos voltaram para suas terras. A História seguiu seu curso.
Mas é justamente aqui que começa o maior mistério de todo o Universo Impérios Sagrados.
Se Amonsehat foi o responsável por liderar o ritual que aprisionou Kalien, por que seu nome atravessou mais de cinco mil anos sendo lembrado como o de um traidor? Como alguém capaz de impedir a destruição de mundos inteiros passou a ser acusado de ter traído o próprio povo durante a Guerra Vittae?
A resposta é simples e, ao mesmo tempo, devastadora.
Porque praticamente ninguém sabia o que realmente havia acontecido.
O ritual de petrificação era o segredo mais importante daquele tempo. Apenas cinco pessoas conheciam o plano completo: Amonsehat; Essarien Dragonon, Senhor dos Dragões; Váldkór Ellendill, imperador de todo o povo élfico antes da fragmentação causada pela guerra; seu filho, o príncipe Baldtrans Constaziwi; e Bruco, o Martelo da Mão de Trovoada, rei dos anões do Reino de Kandara. Todos compreenderam que, se aquele segredo fosse revelado, o próprio ritual poderia ser colocado em risco.
Para o restante do mundo, porém, os acontecimentos pareciam completamente diferentes.
Viram Amonsehat agir de maneiras que ninguém compreendia. Viram decisões que contrariavam ordens diretas do imperador. Viram alianças improváveis, silêncios inexplicáveis e acontecimentos que jamais foram esclarecidos. Depois disso, Kalien desapareceu. A guerra terminou. E a única explicação que sobreviveu ao tempo foi a mais fácil de aceitar: Amonsehat havia traído o povo élfico.
O que ninguém imaginava era que ele jamais encontrara uma forma de matar Kalien.
Essa é uma informação fundamental para compreender toda a história que você está prestes a conhecer. Amonsehat estudou Kalien durante anos. Investigou sua origem. Procurou suas fraquezas. Testou possibilidades que nenhum outro mortal ousaria imaginar. Ao final de tudo, chegou a uma conclusão que mudaria o destino dos mundos: Kalien não podia ser morto. Tudo o que lhe restava era construir uma prisão forte o suficiente para mantê-lo distante da História.
E ela funcionou.
Durante cinco mil anos.
Até que alguém decidiu quebrá-la.
Cinco mil anos depois...
Cinco mil anos são tempo suficiente para transformar verdades em lendas, lendas em superstições e superstições em histórias contadas apenas para crianças. O mundo mudou. Impérios surgiram sobre as ruínas de outros impérios. Povos desapareceram. Novas religiões nasceram. Antigas capitais foram esquecidas. E aqueles acontecimentos que um dia decidiram o destino de mundos inteiros passaram a ocupar apenas algumas linhas desbotadas nos registros mais antigos. Kalien já não era uma preocupação. Para a maioria das pessoas, sequer era uma personagem histórica. Seu nome havia sido engolido pelo tempo.
Mas a paz nunca durou muito em Asdem.
Enquanto Kalien permanecia aprisionado, outra ameaça crescia silenciosamente. Dárius Zoldar, deus e imperador do Império de Dévus, elaborou um plano cuja ambição ultrapassava qualquer conquista territorial. Seu objetivo era estar presente nas três grandes linhas temporais conhecidas do Universo Impérios Sagrados, moldando a própria História conforme sua vontade. Durante anos, seu plano pareceu perfeito. Exércitos marcharam, alianças foram rompidas e o continente caminhava para uma guerra que ameaçava consumir tudo o que existia.
Foi então que aconteceu o inesperado.
Ao tentar libertar Rá, pai de Séth, avô de Arut e bisavô de Amonsehat, Dárius acreditava controlar uma força capaz de consolidar definitivamente seu domínio. O resultado foi exatamente o contrário. Rá retornou da Terra para Asdem em circunstâncias que ninguém havia previsto. O que parecia um erro, porém, estava longe de ser um acidente. Nos bastidores da História, um grupo de figuras lendárias conduzia acontecimentos que quase ninguém conseguia enxergar. Entre elas estavam Amonsehat, que jamais ascendeu ao Plano Divino e continuou vivendo entre as pessoas mortais sob diferentes identidades; James Relsin’d II; Daiha Darzen’d; Nefesh, avô adotivo de Amonsehat e pai adotivo de Arut; Kephri, faraó e irmão de Amonsehat; Adarun, deusa e mãe de Amonsehat; Sekhmet e outras figuras cuja participação ainda permanece envolta em mistério.
Enquanto o mundo acreditava assistir apenas à ascensão de Dárius Zoldar, outra guerra começava a ser preparada.
Amonsehat sabia que derrotar Dárius não seria suficiente. Ao estudar os céus e interpretar antigos sinais, encontrou uma frase que jamais conseguiu esquecer: “A sombra se movimenta.” Para qualquer outra pessoa, aquelas palavras poderiam parecer apenas uma profecia esquecida. Para ele, significavam algo muito mais concreto. Significavam Kalien.
Foi por isso que tomou uma decisão extrema.
Utilizando a última Palantír, uma esfera capaz de manipular o próprio tempo, Amonsehat trouxe secretamente de outra linha temporal Korlyng Handel’t II, lendário líder da Ordem Hartari. Pouquíssimas pessoas souberam que ele também trouxe Korlyng Handel’t I, pai de Korlyng II. A intenção inicial era simples e cruel ao mesmo tempo: utilizar Korlyng apenas como uma solução temporária para vencer Dárius Zoldar e, terminada a guerra, eliminá-lo antes que sua presença alterasse o curso da História. Para isso, Amonsehat manteve Korlyng sob seu controle mental.
Mas nem mesmo alguém capaz de enxergar séculos à frente consegue prever todas as variáveis.
Elladam, aprendiz de Korlyng, rompeu o controle exercido por Amonsehat. Mestre e aprendiz voltaram a caminhar por vontade própria, e a aliança construída para salvar o mundo transformou-se em um confronto que quase terminou com a morte de ambos. Apenas a intervenção de Nefesh impediu que dois dos maiores responsáveis pela sobrevivência de Asdem se destruíssem mutuamente.
Dárius Zoldar foi derrotado. Rá também. A guerra havia terminado. Pelo menos era isso que todas as pessoas acreditavam.
Porque, enquanto heróis e heroínas lutavam em outro universo para impedir o colapso da própria realidade, alguém muito mais antigo despertava de um sono de cinco mil anos.
Enquanto todo mundo olhava para Dárius...
A vitória sobre Dárius Zoldar custou caro. Mundos foram atravessados. Impérios quase desapareceram. Pessoas deram suas vidas acreditando que aquela era a maior guerra de seu tempo. Quando Rá foi derrotado e Dárius finalmente caiu, parecia que Asdem respiraria em paz novamente. Afinal, a maior ameaça havia sido vencida... ou pelo menos era isso que todas as pessoas acreditavam.
Enquanto exércitos comemoravam a vitória, cidades reconstruíam suas muralhas e heróis e heroínas iniciavam o caminho de volta para casa, havia alguém que não comemorava absolutamente nada.
Amonsehat.
Ao contrário de todas as outras pessoas, ele não olhava para o passado, mas para o futuro. Muito antes da guerra contra Dárius começar, havia estudado antigos registros, observado os céus e lido sinais que ninguém mais compreendia. Entre eles existia uma única frase que nunca deixou sua mente:
“A sombra se movimenta.”
Para qualquer outra pessoa, aquilo poderia significar uma metáfora. Para Amonsehat, significava apenas um nome.
Kalien.
Era impossível. O ritual de petrificação permanecia intacto havia mais de cinco mil anos. O próprio sangue de Amonsehat sustentava aquela magia. Nenhuma força conhecida deveria ser capaz de rompê-la. Ainda assim, algo dizia que o impossível estava prestes a acontecer.
Foi por isso que Korlyng Handel’t foi trazido de outra linha temporal. Não apenas para derrotar Dárius Zoldar, mas para reconstruir a Ordem Hartari antes que o verdadeiro inimigo retornasse. A guerra contra Dévus era urgente. A guerra contra Kalien seria inevitável.
Ninguém compreendeu as decisões de Amonsehat naquele momento. Nem James Relsin’d II. Nem Nefesh. Nem Korlyng. Nem mesmo Elladam. Todos acreditavam que o grande conflito era aquele que acontecia diante de seus olhos. Apenas Amonsehat parecia lutar duas guerras ao mesmo tempo: uma contra Dárius Zoldar e outra contra um inimigo que permanecia aprisionado havia cinco mil anos.
Mas ele estava certo.
Enquanto o mundo inteiro voltava seus olhos para Dárius, alguém, em silêncio, começava a desfazer o ritual que mantinha Kalien preso.
Esse alguém chamava-se Draco.
Filho de Baldtrans Constaziwi e neto de Váldkór Ellendill, Draco jamais conheceu toda a verdade sobre a Guerra Vittae. Manipulado por informações cuidadosamente conduzidas por Dárius Zoldar, descobriu que Amonsehat possuía descendentes e concluiu que o sangue responsável por sustentar a petrificação poderia também desfazê-la. Sem saber que fazia parte de um plano muito maior, utilizou o sangue da filha de Amonsehat para romper uma magia que havia protegido o Universo durante cinco milênios.
Quando a última barreira caiu, Kalien abriu os olhos.
E, pela segunda vez na História, o mundo inteiro estava completamente despreparado para aquilo que aconteceria nas horas seguintes.
Cem anos atrás
A guerra contra Dárius Zoldar havia terminado.
As pessoas sobreviventes voltavam para suas casas acreditando que, finalmente, poderiam reconstruir o que havia sido destruído. Depois de tantos anos de combate, ninguém imaginava que estava prestes a testemunhar o início da maior tragédia da história de Asdem. O inimigo havia sido derrotado. Os deuses regressavam aos seus domínios. As alianças políticas começavam a ser refeitas. Pela primeira vez em muito tempo, existia a esperança de que uma nova era pudesse começar.
Ela nunca começou.
Quase ao mesmo tempo em que os grandes exércitos retornavam da guerra, a magia que mantinha Kalien aprisionado foi rompida. Depois de mais de cinco mil anos de silêncio, o primeiro dos elfos abriu novamente os olhos. Ao seu lado, a Ordem dos Duldrons também despertou. Não houve tempo para que reinos organizassem suas defesas. Não houve tempo para que conselhos fossem convocados. Não houve tempo para compreender o que estava acontecendo. Em poucos dias, impérios inteiros caíram. Cidades renderam-se sem conseguir oferecer resistência. Heróis e heroínas morreram tentando conter um inimigo que sequer deveria existir.
Kalien não iniciou sua conquista pela força das armas.
Antes de mover seus exércitos, movimentou pessoas. Procurou aquilo que chamava de Luz dos humanos, acreditando encontrá-la no Império de Zaurin. Depois voltou seus olhos para a Organização, a secreta Dinastia de Tárion, cuja influência atravessava gerações sem jamais se revelar completamente. Por fim, dirigiu suas tropas para outro continente em busca de Darkassan Dragonon, filho de Essarien Dragonon, último elo vivo de uma história que Kalien jamais havia esquecido. Enquanto reis acreditavam defender fronteiras, Kalien atacava os pilares que sustentavam o próprio equilíbrio político de Asdem.
Foi nesse momento que o mundo compreendeu uma verdade que Amonsehat havia descoberto cinco mil anos antes.
Kalien não fazia guerra para conquistar territórios.
Ele fazia guerra para reorganizar o mundo segundo a sua própria filosofia.
Como escreveu em um de seus registros: “A guerra verdadeira jamais começa nos campos de batalha.” Primeiro surgiam o medo, a dúvida e a divisão. Depois vinham os exércitos. Quando as espadas finalmente eram desembainhadas, a vitória de Kalien já havia começado muito antes.
Nem mesmo Amonsehat conseguiu impedir o colapso.
Percebendo que a queda era inevitável, retornou ao Reino de Arut, atravessou os salões da Vastidão de Séth e tomou sua última decisão. Utilizando o poder de um dos Três Sóis de Asdem, petrificou a si mesmo sobre o trono da Vastidão juntamente com seu povo. Não era um gesto de fuga, mas de proteção. Enquanto permanecessem petrificados, Kalien não poderia alcançar aqueles que ainda carregavam parte dos segredos da antiga Guerra Vittae.
O restante do mundo não teve a mesma sorte.
Em poucas semanas, a ordem construída ao longo de cinco mil anos havia desaparecido. Impérios tornaram-se províncias dos Duldrons. Povos inteiros passaram a viver sob ocupação. Pessoas sobreviventes esconderam suas identidades, abandonaram seus nomes ou simplesmente desapareceram. As grandes lendas daquela geração foram mortas, corrompidas ou obrigadas a fugir.
E foi assim que começou o século mais sombrio da história de Asdem.
Durante os cem anos seguintes, o mundo aprenderia a viver de joelhos diante daquele que chamava a si mesmo de A Boa Luz.
Cem anos depois...
Um século se passou.
Para quem viveu a queda do mundo, cem anos pareceram uma eternidade. Para Kalien, foram apenas os primeiros passos de um projeto muito maior. Durante esse tempo, a Ordem dos Duldrons deixou de ser apenas um exército conquistador para tornar-se a nova ordem política de Asdem. Impérios passaram a servir aos seus interesses, antigas alianças desapareceram, povos inteiros nasceram sem jamais conhecer um mundo livre e a resistência foi lentamente reduzida a pequenos grupos espalhados pelo continente. O medo deixou de ser uma reação à guerra e transformou-se na maneira como as pessoas aprenderam a viver.
Mas algumas promessas sobrevivem até mesmo ao tempo.
Korlyng Handel’t nunca aceitou que aquela fosse a última página da História. Ao longo dos anos, permaneceu reunindo sobreviventes, reconstruindo antigos contatos e enviando cartas para aquelas pessoas que ainda acreditavam ser possível recuperar o mundo. Aos poucos, um nome voltou a ser pronunciado em segredo: Hartari. A antiga Ordem, que um dia havia enfrentado Kalien, começava novamente a existir. Não como um grande exército, mas como uma esperança. Pela primeira vez em um século, havia quem ousasse acreditar que a história ainda não estava encerrada.
Ao mesmo tempo, um dos últimos segredos da Guerra Vittae também despertava.
Amonsehat foi despetrificado.
Depois de cem anos protegido pelo poder de um dos Três Sóis de Asdem, retornou ao mundo que havia deixado para trás. Encontrou impérios destruídos, povos submetidos, velhos aliados mortos e um inimigo que aprendera durante aquele século a romper até mesmo as mais antigas formas de ocultismo. O homem que, cinco mil anos antes, descobrira como aprisionar Kalien finalmente ficou diante dele mais uma vez.
Desta vez, porém, o desfecho foi diferente.
Kalien matou Amonsehat.
Com sua morte, desapareceu uma das últimas pessoas que conheciam toda a verdade sobre a Guerra Vittae, sobre o ritual de petrificação e sobre os acontecimentos que moldaram os cinco mil anos anteriores. O maior segredo da História tornou-se ainda mais difícil de reconstruir. Restaram apenas fragmentos, diários, cartas, memórias e pessoas que conheciam apenas partes da verdade.
É exatamente aqui que começa a campanha da Mesa de RPG da IS Impérios Sagrados.
Kalien continua dominando o mundo. Korlyng reorganiza a Ordem Hartari. Elladam torna-se uma das maiores esperanças da resistência. Impérios tentam sobreviver sob o domínio dos Duldrons. Antigos mistérios começam a emergir novamente. E perguntas feitas há cinco mil anos continuam sem resposta.
Quem realmente era Kalien?
Por que Amonsehat aceitou carregar sozinho o peso de ser chamado de traidor?
O que ainda permanece oculto sobre a Guerra Vittae?
E, talvez a pergunta mais importante de todas:
Se nem mesmo Amonsehat conseguiu matar Kalien, será que alguém conseguirá?
A partir daqui, a História deixa de pertencer apenas aos seus cronistas.
Ela também passa a pertencer a você.
Então...
Então chegamos ao presente. Se você leu até aqui, provavelmente percebeu que a história de Kalien nunca foi apenas a história de um vilão. Também não é apenas a história de uma guerra ou da queda de um império. É a história de um mundo inteiro tentando sobreviver às consequências de decisões tomadas milhares de anos antes do nascimento de qualquer personagem da campanha atual. Em Asdem, o passado nunca permanece no passado. Cada segredo escondido, cada mentira preservada e cada escolha feita há cinco mil anos continua produzindo efeitos sobre pessoas que sequer sabem que fazem parte dessa história.
É justamente por isso que a campanha da Mesa de RPG da IS Impérios Sagrados começa cem anos após o retorno de Kalien. Você não encontrará um mundo em equilíbrio prestes a ser ameaçado. Encontrará um mundo que já perdeu. Os grandes impérios já foram conquistados. A Ordem dos Duldrons governa praticamente todo o continente. Pessoas nasceram, cresceram e envelheceram sem jamais conhecer outra forma de governo além daquela imposta por Kalien. Para uma geração inteira, a liberdade não é uma lembrança. É apenas uma palavra cuja experiência nunca existiu.
Mas toda história possui rachaduras. Enquanto Kalien acredita ter finalmente alcançado a ordem que sempre desejou, pequenos movimentos começam a surgir em diferentes regiões de Endrieth. A Ordem Hartari volta lentamente a existir. Antigos aliados reaparecem. Cartas esquecidas voltam a circular. Diários começam a ser encontrados. Velhos nomes retornam às conversas sussurradas entre quem ainda se recusa a aceitar que o mundo chegou ao seu fim. Aos poucos, aquilo que parecia definitivamente encerrado começa novamente a se mover.
Talvez seja exatamente esse o maior diferencial do Universo Impérios Sagrados. Você não entra em uma história para derrotar um inimigo que acabou de surgir. Você chega depois da derrota. Depois que o mundo caiu. Depois que seus maiores heróis morreram ou desapareceram. A pergunta nunca foi se Kalien venceria. Essa resposta a História já conhece. A verdadeira pergunta é outra: o que ainda pode nascer em um mundo que aprendeu a viver sob o domínio daquele que acredita ser a própria medida da justiça, da ordem e do equilíbrio?
Essa resposta, nem os livros publicados, nem os diários de Kalien, nem os registros de Illarin Laikar, nem mesmo Amonsehat foram capazes de escrever completamente. Porque, a partir deste ponto, a História deixa de pertencer apenas aos seus personagens mais antigos. Ela passa a ser construída por cada pessoa que decide sentar à mesa, criar uma personagem e descobrir, por si mesma, se ainda existe esperança para um mundo que, há cem anos, aprendeu a acreditar que Kalien era inevitável.
Kalien
Kalien não é apenas o principal antagonista do Universo Impérios Sagrados. Ele é o eixo em torno do qual a própria História se reorganiza. Muito antes da existência dos impérios atuais, antes das religiões que hoje dominam Asdem e antes mesmo de muitos povos conhecerem a escrita, Kalien já atravessava mundos liderando a Ordem dos Duldrons. Para ele, a paz nunca foi um objetivo. A paz é apenas a consequência inevitável da vitória absoluta. Sua filosofia parte de uma convicção simples: quem possui força suficiente para conquistar também possui legitimidade para governar. Não existe justiça acima do poder, porque o poder é a única medida capaz de revelar quem realmente merece existir. Como escreveu em um de seus registros: “Os fracos chamam de crueldade aquilo que os fortes chamam de ordem.”
Essa forma de compreender o mundo torna Kalien muito mais perigoso do que qualquer conquistador comum. Ele não mata por prazer, não destrói por vingança e não governa movido pela ambição de riquezas. Kalien acredita sinceramente que está salvando o mundo de si mesmo. Aos seus olhos, guerras existem porque governantes são fracos, povos dividem-se porque lhes falta direção e a liberdade produz apenas desordem. A conquista, portanto, deixa de ser um ato de violência para tornar-se uma obrigação moral. Em seus diários, essa ideia aparece repetidas vezes: “Se um reino caiu diante de mim, não fui eu quem o destruiu. Apenas revelei que jamais esteve de pé.”
Mesmo aqueles que o enfrentam acabam reconhecendo a coerência quase absoluta de sua lógica. Kalien estuda seus adversários, compreende suas crenças, antecipa suas escolhas e raramente desperdiça movimentos. Antes de enviar um exército, prefere romper alianças; antes de destruir muralhas, enfraquece a esperança; antes de vencer uma batalha, faz o inimigo acreditar que lutar já não faz sentido. Sua guerra nunca começa com espadas. Ela começa muito antes, no pensamento. Não por acaso escreveu: “A guerra verdadeira jamais começa nos campos de batalha. Quando as espadas são erguidas, a vitória já escolheu seu dono.”
Talvez seja justamente essa capacidade de reorganizar a realidade que explique por que Amonsehat concluiu, há cinco mil anos, que Kalien não poderia ser derrotado da maneira tradicional. Era possível destruir seus exércitos, impedir seus planos e retardar seu avanço, mas não eliminar a ideia que ele representava. Kalien transforma cada derrota em aprendizado e cada vitória em fundamento para a próxima conquista. Ele não atravessa a História; faz a História girar ao seu redor. É por isso que sua presença modifica continentes inteiros, altera religiões e redefine o significado de civilização. Como escreveu em outra passagem de seus registros: “Os impérios acreditam escrever a História. Eu apenas decido quando uma História termina para que outra possa começar.”
Cem anos após seu retorno, Kalien continua governando Endrieth convencido de que sua obra ainda está incompleta. Para ele, conquistar um continente nunca foi o objetivo final. O verdadeiro propósito sempre foi reconstruir o mundo inteiro segundo uma única vontade, eliminando definitivamente o acaso, a fraqueza e o conflito. Seu último registro conhecido talvez resuma melhor do que qualquer descrição quem realmente é o líder dos Duldrons: “Quando o último homem deixar de temer o amanhã porque todas as decisões já terão sido tomadas por mim, finalmente compreenderão que nunca fui o fim do mundo. Sempre fui o seu recomeço.”
Korlyng Handel’t
Se Kalien representa a convicção absoluta de que a força legitima o poder, Korlyng Handel’t representa a convicção igualmente absoluta de que nenhuma tirania é eterna. Líder da Ordem Hartari, estrategista e guerreiro, Korlyng jamais foi escolhido por profecias nem reconhecido por sangue divino. Sua autoridade nasceu da confiança daqueles que decidiram segui-lo quando quase toda esperança havia desaparecido. Enquanto muitos enxergavam apenas a inevitabilidade da derrota, Korlyng insistia que a História jamais pertence exclusivamente aos vencedores. Em um de seus diários escreveu: “Enquanto existir alguém disposto a lembrar do mundo que perdemos, esse mundo ainda não morreu.”
Sua maior qualidade nunca foi empunhar uma espada, mas reunir pessoas que já haviam desistido de lutar. Korlyng compreendeu cedo que nenhuma resistência sobrevive apenas pela força militar. Era necessário preservar memória, linguagem, cultura e amizade. Era preciso impedir que Kalien conquistasse aquilo que nenhum exército deveria conquistar: a capacidade das pessoas imaginarem um futuro diferente do presente. Por isso, suas cartas atravessaram impérios ocupados durante décadas, alimentando pequenas comunidades de resistência espalhadas por Endrieth. Em um desses registros escreveu: “Toda tirania acredita vencer quando controla os corpos. Ela começa a perder quando deixa de controlar os sonhos.”
Sua trajetória, porém, nunca foi simples. Manipulado por Amonsehat, transportado entre linhas temporais e lançado em uma guerra que não era originalmente sua, Korlyng precisou descobrir quem era sem jamais compreender completamente o tabuleiro em que havia sido colocado. Lutou contra Dárius Zoldar, enfrentou o próprio Amonsehat, viu amizades se desfazerem e compreendeu que, muitas vezes, até mesmo as pessoas que desejam salvar o mundo são obrigadas a tomar decisões moralmente insuportáveis. Foi nesse contexto que escreveu: “Há dias em que vencer significa apenas continuar carregando culpas que ninguém jamais compreenderá.”
Com o passar dos anos, Korlyng tornou-se menos um guerreiro e mais um guardião da esperança. Depois da queda dos impérios, foi ele quem voltou a reunir sobreviventes, reorganizar a Ordem Hartari e lembrar às novas gerações que o domínio de Kalien não representava o fim da História. Suas decisões tornaram-se mais silenciosas, mais pacientes e mais próximas daquelas que um dia criticara em Amonsehat. Aos poucos, começou a perceber que proteger um mundo exige, muitas vezes, esconder verdades, suportar incompreensões e aceitar ser julgado por escolhas cujo sentido talvez só seja compreendido séculos depois. Em seu diário escreveu: “Chega um momento em que proteger as pessoas significa aceitar que elas jamais entenderão por que você as protegeu.”
É justamente aí que a trajetória de Korlyng alcança sua dimensão mais trágica. Quanto mais avança, mais percebe que está caminhando pelos mesmos lugares percorridos por Amonsehat, repetindo dúvidas semelhantes, carregando silêncios parecidos e aceitando um peso que ninguém deveria suportar sozinho. No último trecho conhecido de seus registros, Korlyng parece finalmente compreender o destino que o espera e escreve: “Passei anos tentando entender Amonsehat. Hoje compreendo que a História nunca quis que eu o entendesse. Ela quis que eu me tornasse aquilo que um dia jurei jamais ser. Se houver alguém para carregar este mundo depois de mim, talvez também me chame pelo mesmo nome: Amonsehat.”
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Eu, como jogadora da mesa, agora me sinto um pouco mais imersa em acontecimentos que vieram antes da minha entrada. Tenho buscado conhecer melhor a história conversando com quem ainda joga o RPG e também lendo os livros.
É muito interessante perceber que o mundo não para. Um problema é resolvido, mas outros cinquenta surgem no lugar, e cada decisão tomada passa a ter impacto sobre o que vem depois: sobre como resolver, compreender e lidar com as consequências.
Eu sou uma pessoa que gosta muito de explorar o mundo. Quando sei que existe uma questão importante acontecendo, não gosto de olhar apenas para ela de forma isolada. Gosto de investigar o abecedário inteiro: entender o contexto, as causas, os detalhes ao redor e, no caminho, descobrir coisas novas.
Literalmente descobrir o mundo que cerca minha personagem.
Kalien é exatamente esse tipo de questão. É algo que exige uma compreensão mais ampla e diferente do todo. Ele me passa a sensação de que apenas força bruta ou batalha não serão suficientes, e isso abre espaço para que ideias mais criativas possam surgir. Eu também gosto muito de acompanhar os personagens da mesa, suas histórias pessoais e a forma como cada um lida com o que está acontecendo no mundo.
Kalien é interessante justamente porque pode ser visto de várias formas pelos personagens. Cada um pode ter uma interpretação diferente sobre ele, e esses pontos de vista podem se complementar, entrar em conflito ou revelar novas camadas da história.
Espero ansiosamente por mais destes artigos para entender ainda mais sobre esse mundo que tão pouco sei e quero explorar ainda mais!