Minha review sobre o Vaticano
Spoiler: 2 estrelas
Se você já me acha presunçosa por esse título, por favor, fica! Eu vou ser muito mais.
Quem sou eu pra avaliar o Vaticano? Não sou historiadora, não sou teóloga, não sou arqueóloga, não sou guia de turismo. Não sou crítica de cidades. Não tenho nenhuma coluna em jornal especializado em microestados teocráticos. Nunca fiz um curso de arte sacra. Nunca li o Catecismo. Não sou católica — fui criada na igreja evangélica na época da fake news que o papa era a besta do Apocalipse, então minha formação prévia sobre o assunto é, digamos, tendenciosa. E minha qualificação pra essa review é a mesma de uma pessoa que comprou um ingresso de 17 euros, enfrentou uma fila de uma hora num calor de uns 40 graus, e saiu de lá com opiniões fortes formadas sobre o lugar mais visitado do mundo. To prontíssima.
Primeiro, a gente entra numa cidade rodeada por uma muralha e pilares tão gigantes e tão velhos que você sente o peso da história no peito antes mesmo de passar pela porta. Tem aquele montão de turista tirando selfie e rezando ao mesmo tempo — alguns genuinamente devotos, outros só tentando enquadrar o rosto na cúpula certa. E alguma coisa católica está acontecendo em algum lugar, que envolve fumaça e um pessoal abrindo espaço pra um monte de padres passarem com vestes bordadas a ouro e expressões de quem já fez aquilo mil vezes. Eu nem prestei atenção nessa cerimônia, não sei do que se trata. Pode ter sido uma missa especial, pode ter sido só terça-feira no Vaticano. Eu só segui o fluxo do pessoal que tava tirando fotos porque o fluxo dos católicos tava indo pro sol de novo e eu tava morrendo de calor.
Então entrei na Basílica de São Pedro.
E uau.
UAU.
Não tem como preparar ninguém para aquilo. É tudo de ouro. Você ergue o olho e o teto é uma explosão de dourado que parece ter sido aplicado por mãos que trabalharam durante gerações inteiras sem ver a luz do dia. É tudo tão alto que você fica de boca aberta até sem querer — sua mandíbula relaxa, seus olhos arregalam, e você fia parecendo um emoji surpreso. É… glorioso. Dá até vontade de acreditar em Deus.
Tem tantas capelas, tem obra de arte em cada centímetro daquele lugar. Vou anexar aqui umas fotos que eu tirei.
Essa primeira foto é uma capela da igreja. Ela já é do tamanho de uma igreja inteira. E tem tipo umas quarenta dessas, só nas laterais. Cada uma com suas próprias estátuas, seus próprios altares, sua própria personalidade arquitetônica. Em cada capela tem um montão de estátuas de mármore que parecem respirar, uma cúpula com um afresco lá no teto que te obriga a inclinar a cabeça até doer o pescoço, e cada uma dessas imagens são mosaicos, vide a segunda foto. Milhares de pedacinhos minúsculos de vidro colorido encaixados um a um ao longo de décadas. Não é pintura. É uma colcha de retalhos feita por malucos pacientes.
Olha na terceira foto cada pedaço das paredes decoradas com mármores coloridos raríssimos. Cores que você não vê em lugar nenhum. Veios que parecem mapas de um país que não existe. Olha o tanto de detalhe, o trabalho incrível. Cada centímetro foi pensado, esculpido, polido, encaixado perfeitamente.
Olha esse negócio preto no centro da basílica. É o altar papal, também chamado de Baldaquino — mas eu não sabia disso na hora, achei que fosse uma mesa de negociações secretas entre cardeais ou alguma coisa assim. Daí eu pesquisei e descobri que ele é feito de bronze, dizem que foi derretido de peças antigas do Panteão. É tão escuro que parece sugar a luz ao redor. E é colossal, tem quase trinta metros de altura, fica ali embaixo da cúpula de Michelângelo, como um guardião gigante. As colunas dele são retorcidas, imitando aquelas colunas antigas do Templo de Salomão, e sobem em espiral como se estivessem vivas. Em cima, quatro anjos gigantes sustentam o globo e a cruz. E lá no alto, no topo, uma coroa e uma cruz que parecem tocar o céu. Tudo em bronze escuro, pesado, antigo, imponente. E a cúpula em cima do negócio preto — a cúpula de Michelângelo — tem cento e trinta e seis metros de altura! Cento e trinta e seis. Você olha pra cima e sente tontura. Ela é BELÍSSIMA. Toda dividida em segmentos, com mosaicos dourados que contam histórias do Antigo e do Novo Testamento.
Olha aquele trono caralhudo ali atrás, pelo amor de deus. Isso é a Cátedra de São Pedro. É de Bernini — o mesmo gênio que fez o negócio preto. E olha, que negócio. O trono não é só um trono. É uma cadeira de madeira envolta em bronze, mas a madeira original é tão antiga que dizem que foi usada pelo próprio Pedro. Não sei se é verdade, mas não me importa. Parece mais valioso quando a gente fala que uma bunda específica sentou ali. O que importa é o que Bernini fez em volta. Ele criou um trono gigante de bronze que parece flutuar no ar. Por trás dele, um vitral redondo com a pomba do Espírito Santo no centro. A pomba é branca, dourada, radiante, e parece que está descendo do céu. E o vitral em volta não é pintado, é luz de verdade, é uma janelinha que pega a luz natural do sol e a transforma em algo divino. Os raios dourados saem da pomba para todos os lados, como se a luz estivesse explodindo em ouro, em bronze, em glória. Tem nuvens esculpidas em bronze também, anjos, querubins, figuras que se misturam com os raios. Tudo se move, tudo brilha, tudo parece estar em suspensão. A luz entra por aquela janela no fundo e atravessa a pomba, e quando você olha de baixo, parece que o próprio céu está se abrindo ali, bem acima da cadeira do papa. Foi feito exatamente para isso: para você pensar “isso não foi feito por mãos humanas, isso veio de cima”. E funciona. Mesmo sabendo que é arquitetura, que é bronze, que é vidro, que é um gênio barroco manipulando sua percepção — funciona. Você fica boquiaberta.
Olha aqui nessa foto o tamanho das pessoas lá em baixo, só pra ter uma dimensão. Parecem formigas. Formigas humanas tirando selfie, rezando, tentando entender onde estão.
E olha aqui a estátua de uma mulher falando “Sai menino réi oxe”. Eu não sei quem ela é. Pode ser Santa Catarina, pode ser a Fé personificada, pode ser alguma mártir que morreu de forma horrível por se recusar a negar Cristo. Ou pode ser só uma mulher assustada com essa criança feia. Mas olha o drapeado do mármore. Olha como o mármore parece pano molhado, pano de verdade, que você poderia tocar e sentir a textura. Um primor.
E andando olhando pra cima boquiaberto e tropeçando em obras de arte que em qualquer outro museu seriam a peça principal, você esbarra em uma passagem minúscula que vai pro subsolo. Uma portinha discreta, quase escondida, como se não quisesse que você fosse. E lá também é gigantesco. Claro. O subsolo do Vaticano é maior que a maioria das catedrais que eu já visitei na vida. E tá cheio de tesouros — relicários de ouro e prata, cruzes cravejadas de pedras preciosas, cálices, mitras, livros iluminados com folhas de ouro. E um montão de corpos. Corpos de papas, corpos de reis, corpos de rainhas, corpos de gente que deve ter achado a igreja tão linda que resolveu morrer ali mesmo. Alguns estão em sarcófagos de mármore. Outros em caixões de vidro, com vestes papais e rostos de cera sobre caveiras reais. Muito cunt. A foto a seguir é do subsolo, bem mórbido mas entregando tudo na estética. É macabro. É fascinante. É completamente desnecessário. Mas a arquitetura do subsolo também é linda — abóbadas rebaixadas, colunatas, mosaicos no chão. Até o lugar dos mortos é bonito.
E essa aqui é a Pietá, de Michelângelo. Depois de falar igual uma maritaca, vou dispensar palavras.
Infelizmente, meu celular não conseguiu captar 1% do que eu vi ali. As fotos saíram opacas, sem escala, sem alma. O ouro virou amarelo. O mármore virou cinza. O tamanho virou uma mancha borrada. Eu fiquei perdida, deslumbrada, maravilhada. Fiquei emocionada com tanta arte acumulada em um só lugar — séculos de genialidade humana condensados em alguns poucos hectares. Eu queria apreciar cada pedacinho, passar horas em cada capela, ler todas as placas, identificar todas as estátuas, mas era impossível porque é demais. É muito. É um excesso que beira o ridículo e ao mesmo tempo beira o divino. O que eu quero dizer é que as dimensões de tudo ali são descomunais. Não cabem na sua cabeça. Você pode saber os números — 136 metros, 40 capelas, 500 bilhões de dólares — mas os números não preparam você para a experiência de estar ali de pé, olhando para cima, com a boca aberta.
Olha o tanto de ouro que tem neste caralho! Eu me senti no céu dos materialistas. Nunca vi tanta riqueza concentrada em um só lugar. De verdade, tem descrições do céu na Bíblia com ruas feitas de ouro, tudo de ouro tipo isso aí. E eu sempre achei essa imagem meio cafona. Pra que serve ouro mesmo? Ouro não se come. Ouro não te abraça. Ouro não respira. Ouro não salva ninguém. E pra quê que eu iria querer ouro no céu? O que eu faria com ele? Ia passar a eternidade admirando o brilho? Essa descrição foi inventada pros pobres terem a expectativa de serem ricos depois de morrer? Ou é pros ricos mesmo, que ainda não têm condições de construir ruas de ouro? Sei que na época era a forma de representar a riqueza, já que qualquer um virava o Gollum se achasse uma pepita de ouro.
Enfim, não sei por quê essa parada do ouro pega tanto, mas eu também fiquei meio estatelada olhando pra aquele teto.
Se for pra descrever esse lugar em uma palavra, seria: ABSURDO. Completamente absurdo, ilógico, exagerado, completamente desproporcional, inescrupuloso, ofensivo! Aquilo é imoral. Eu fiquei completamente chocada, embasbacada com aquele lugar. Não no sentido de “nossa que lindo”. No sentido de “isso não devia existir”. Eu já visitei muitas catedrais, construções enormes, maximalistas, ricas, exageradas. Eu já fui pros Estados Unidos, onde tudo é tão grande que chega a ser muito brega. Mas eu NUNCA vi nada como esse lugar. Nem perto. Nada chegou aos pés. Nem a Sagrada Família, que ainda está em construção, nem a Catedral de Colônia, que é escura e gótica e intimidadora, nem São Pedro de verdade, que é uma igreja linda mas não tem 1% do ouro.
Eu saí de lá atônita. Com a cabeça rodando. Com um nó no estômago. Eu só consegui pensar que esse dinheiro acabaria com a fome no mundo três vezes. Aliás, esse dinheiro conseguia deixar todo mundo obeso de tanta comida. Dava pra comprar um supermercado para cada família do planeta. Dava pra construir hospitais, escolas, casas. Dava pra pagar tratamento médico para todo mundo que não tem acesso. Dava pra fazer tanta coisa. Eu acho. Em vez disso, está ali, na parede, brilhando.
Eu tava tão atordoada que eu não conseguia dimensionar meus pensamentos. Eu não tenho noção de quanto dinheiro seria necessário pra acabar com a fome no mundo, e também não sei quão caro é o ouro porque eu nem tenho joias. Não entendo nada do mercado de metais preciosos. Então eu pedi pro famigerado ChatGPT fazer uma estimativa do valor da Basílica de São Pedro.
E nem ele conseguiu.
O robô que chuta qualquer número que você pede, que inventa resposta quando não sabe, que confia nas próprias alucinações — nem ele conseguiu dar um número exato. Ele deu um range: entre 500 bilhões e 1 trilhão de dólares. E ainda disse que esse valor pode estar subestimado. Que o valor real pode ser muito, muito maior. Subestimado. Meio trilhão de dólares é o CHUTE PRA BAIXO.
Só a Pietá de Michelângelo — a estátua da última foto, aquela Nossa Senhora com o Cristo morto no colo que faz qualquer pessoa com um pingo de sensibilidade querer chorar — só ela é estimada entre 5 e 20 BIlhões de dólares, podendo ser até mais (que estimativa péssima: “entre 5 e 20 bilhões” é tipo dizer que sua casa vale entre 10 mil e 40 milhões reais. Não ajuda. Mas já que eu não vou comprar o Vaticano mesmo, segui olhando os valores). O metro quadrado dos mármores do chão e das paredes pode custar desde 150 até 200 MIL euros. CADA METRO QUADRADO. O chão que você pisa, sem nem olhar para baixo porque está está igual um zumbi olhando para cima, custa o preço de um apartamento. Por metro quadrado.
Eu fiquei tão indignada. De pensar que há mais de mil e quinhentos anos as pessoas DOAM dinheiro pra essa instituição. Desde o Império Romano, desde a queda de Roma, desde a Idade Média, desde o Renascimento, desde a Reforma, desde a Contrarreforma, desde a colonização, desde a independência das Américas, desde a Primeira Guerra, desde a Segunda Guerra, desde a queda do Muro, desde o novo milênio — as pessoas continuam dando dinheiro para o Vaticano. Okay, muitas doações foram meio compulsórias. Tinha imposto que era pago em ouro. Tinha confisco de terra. Tinha ameaça de excomunhão. Mas até hoje existe uma transferência de renda pra lá. O dízimo. As doações voluntárias. As esmolas. Os turistas que compram terço de plástico. Os meus 17 euros. Isso depois de séculos que a igreja literalmente recolhia impostos. Vendia indulgências — você pagava pra reduzir seu tempo no purgatório, como se o purgatório fosse um estacionamento e a indulgência fosse um aplicativo de desconto. Cobrava dízimo obrigatório. Confiscava propriedade de quem morria sem herdeiros.
Sem falar nas cruzadas. No saqueamento de terras, mercadorias, riquezas. Os cavaleiros partiam para “libertar Jerusalém” e voltavam com ouro, prata, tecidos, especiarias, relíquias roubadas, e a bênção do papa. A quarta cruzada chegou a saquear Constantinopla — uma cidade que já era cristã! Eles saquearam os irmãos. Roubaram ícones, queimaram bibliotecas, estupraram freiras, levaram cavalos de bronze que até hoje estão em Veneza. Que loucura.
E aí vieram os tribunais das inquisições. Que além de censurar, torturar, prender e executar pessoas pra combater “heresias”, ainda confiscavam as propriedades dos condenados. Era um sistema de captura de riqueza com tortura de brinde. Queimar herege dava dinheiro.
E o pior de tudo: a colonização. As missões evangelísticas. A “reorganização cultural” indígena. O direito divino de tomar a terra de quem já estava nela porque você tem uma cruz na espada. A igreja abençoava as caravelas, consagrava os conquistadores, recebia o dízimo das novas terras e ainda se sentia muito elevada fazendo isso porque estava “salvando almas”.
A igreja também administrava bancos. Financiava guerras. Negociava com reis. Recebia tributos internacionais. Era totalmente ligada a famílias nobres que doavam terras e recebiam títulos e capelas particulares onde seriam enterradas para a eternidade. Patrocinava artes gigantescas, construía palácios, mantinha exércitos, tinha poder de veto em reinos. E até hoje tem igrejas luxuosíssimas no mundo inteiro — catedrais barrocas na América Latina construídas por indígenas escravizados sob a supervisão de frades europeus, abadias na França com vitrais que custam milhões, mosteiros na Itália que são também hotéis cinco estrelas.
Eu não sei como, em todos esses anos, ninguém chegou lá e falou “gente, o que é isso? Vamos desmontar esse negócio todo agora!! Vocês não tão vendo que isso aqui é um absurdo? Como que tem coragem de manter toda essa riqueza desse jeito? Isso é totalmente imoral, antiético, absurdo!” Como que ao longo de dois mil anos, com todo mundo que passou por ali — reis, imperadores, filósofos, revolucionários, saqueadores — ninguém olhou para aquilo e pensou “meu deus vamo esconder isso!!”? Como que as pessoas acham isso normal?? Puta merda, eu não consigo entender.
Como isso tá em pé? Como que essa instituição sobreviveu a dois milênios de crises, escândalos, guerras, reformas, revoluções, e continua ali, firme, com seus museus, seus arquivos secretos, seu ouro, seu poder? Isso não entra na minha cabeça. Meu cérebro quase explodiu dentro daquela basílica. Eu fiquei ali parada, no meio da nave central, com turistas passando ao meu redor, padres andando apressados, velinhas sendo acesas em latim, e eu não conseguia processar. Minha cabeça estava dividida em dois hemisférios em guerra: um dizia “isso é a coisa mais linda do mundo”, o outro dizia “deve ser até pecado estar aqui dentro”.
Eu não sei o que dizer.
Acho que eu finalmente estou sem adjetivos pra descrever meu sentimento. Eu já usei deslumbrada, maravilhada, emocionada, indignada, chocada, atônita, atordoada. Eu já falei absurdo umas quinze vezes. Eu já invoquei o ChatGPT. Eu já mandei tomar no cu na minha mente. Já tive pena. Já tive raiva. Já quis rezar. Já quis roubar um pedaço do mármore. Já quis escrever um manifesto. Já quis comprar um terço de plástico. Já quis incitar uma revolução antirreligiosa. Realmente, o Vaticano é um absurdo. É 1000/10 de estética e -1000/10 de ética. É a maior concentração de beleza e de imoralidade que eu já vi no mesmo lugar. É como se alguém tivesse pegado todo o dinheiro que deveria ter acabado com a miséria do mundo e transformado em arte. E a arte é linda. E a miséria continua.
E os banheiros tavam muito sujos.
Dito isso, duas estrelas.












alguns dos sentimentos descritos sobre a grandeza dos obras e dos monumentos me lembraram bastante alguns estudos que li sobre a arquitetura de Brasília, que também bebe muito dessa fonte de tornar o que está a volta "pequeno"
acho que até mesmo essa dicotomia da moralidade e da estética respinga um pouco em Brasília, que por meio da morte e da miséria de muitas mãos, fez uma arquitetura admirável
amo esse lugar que vivo, mas carrega manchas muito fortes
interessantíssimo seu texto, amei!