Pipoca na Manteiga #24: A frase que eu disse e que me envergonhou
Uma abordagem na rua expôs algo brutal: a diferença social não está só na renda ou no CEP, mas no impulso de silenciar quem nos confronta com a própria verdade.
Como, às vezes, respondemos à verdade tentando punir quem a diz.
Voltei para 2026 achando que abriria o Pipoca na Manteiga falando de cinema, de livros, de algum roteiro que me atravessou. Mas quem me atravessou foi uma frase minha. Dita na rua, num trajeto banal que faço quase todos os dias para correr. Um homem em situação de rua me abordou de forma insistente. Eu respondi. E segui andando. Só que a frase não seguiu. Ficou. Ficou no corpo, no ouvido, na consciência. Não pelo que ele disse. Pelo que eu disse.
Há uma violência que não é grito nem empurrão. É uma violência miúda, cotidiana, quase elegante. Ela aparece no tom, na pressa, na escolha de palavras que parecem neutras, mas carregam hierarquia. A fratura social não começa apenas na renda, na moradia ou na estatística. Ela começa na linguagem. No modo como um corpo autorizado responde a um corpo vulnerável. No impulso de encerrar a conversa como quem encerra um incômodo. A desigualdade, às vezes, se revela menos no dinheiro e mais na permissão que achamos ter de cortar, corrigir, punir ou silenciar.
Não foi apenas uma resposta automática. Foi uma posição. Uma posição social disfarçada de espontaneidade, como se eu estivesse apenas reagindo a uma insistência. Talvez consciência de classe não seja só reconhecer onde se está na estrutura econômica, mas perceber como essa estrutura atravessa nossa linguagem, molda nosso tom e autoriza certas durezas. A desigualdade não fala apenas nos números, ela fala por nós. E foi ali, naquela calçada comum, que eu entendi que a minha própria voz carregava mais do que eu imaginava… Qual foi a frase que eu disse e me arrependi?




