Pipoca na manteiga #30 O psicanalista não sabe: e é justamente por isso que escuta
Contra a tentação de virar "especialista": o lugar incômodo da psicanálise hoje
Outro dia me deparei com uma frase que me atravessou de imediato: “O analista não é nenhum especialista”, do psicanalista Fernando Lino.
E eu fiquei com isso reverberando em mim, porque num mundo em que todo mundo precisa ser alguma coisa muito específica, muito definida, muito vendável, dizer que o analista não é especialista soa quase como um erro de marketing. Mas talvez seja exatamente aí que esteja a diferença. Fernando Lino escreve algo que eu assino embaixo: “O analista não tem um saber específico que ateste ‘sei tudo sobre o seu sofrimento’.” E isso, para mim, não é uma falta, é uma posição.
Porque o que está em jogo numa análise não é aplicar um conhecimento sobre alguém, mas sustentar um espaço onde algo que ainda não foi dito possa aparecer, e isso não cabe em nicho. Hoje é cada vez mais comum ver psicanalistas se apresentando como especialistas em ansiedade, em relacionamentos, em luto, em dependência emocional.
Eu entendo o movimento, o mundo pede isso, o mercado exige isso, mas algo se perde quando a psicanálise entra nesse lugar. Como o próprio Fernando Lino aponta: “O inconsciente não tem especialidade.” E se o inconsciente não tem, por que o analista teria? Christian Dunker toca nesse ponto de outra forma, mas na mesma direção, quando diz: “O analista não é aquele que sabe, mas aquele que sustenta a falta de saber.” Essa frase é dura, porque ela nos tira do lugar confortável de quem oferece respostas e nos coloca no lugar de quem suporta não saber junto com o outro, e isso não é fácil, não é vendável, não é rápido, mas é ético.
Há uma diferença radical entre escutar alguém e encaixar alguém. O especialista, muitas vezes, precisa classificar, nomear, organizar a dor em categorias, e isso pode ser importante em outros campos, mas na psicanálise o risco é transformar o sujeito em caso. Fernando Lino é direto: “O especialista transforma o paciente em caso. O analista transforma o caso em sujeito.” E isso muda tudo, porque quando alguém chega dizendo que sofre de ciúme, de ansiedade, de dependência, o analista não responde com técnicas prontas, ele escuta, e nessa escuta algo começa a se deslocar.
Como ele mesmo escreve: “Na escuta, algo que o sujeito não sabia que sabia começa a falar.” É aí que a análise acontece, não na resposta, mas na pergunta que ainda não foi feita. Dunker insiste muito nisso ao longo de sua obra, a psicanálise não é um saber aplicado, é uma prática de escuta que produz efeitos a partir da fala, e isso exige uma posição muito específica do analista, não a de mestre, mas a de quem não ocupa o lugar do saber total.
Como Fernando Lino escreve: “O analista opera de outro lugar: o da falta.” E talvez seja justamente isso que mais incomode hoje, porque vivemos num tempo em que tudo precisa ser resolvido, explicado, otimizado, e a psicanálise vai na contramão disso, ela não promete solução rápida, não promete cura padronizada, não promete que alguém vai te dizer o que fazer da sua vida, ela aposta em outra coisa, na possibilidade de que você diga, e que ao dizer algo se transforme.
📚 Literatura: em Clarice Lispector, especialmente em A Paixão Segundo G.H., não há especialista que explique a experiência da personagem, há travessia, há encontro com algo que não tem nome fácil, e a literatura, como a psicanálise, muitas vezes não responde, ela sustenta o enigma.
🎥 Cinema: em Gênio Indomável o terapeuta não ensina uma técnica para superar o sofrimento, ele escuta, insiste, sustenta, enquanto em Stutz aparece um modelo mais diretivo, mais “especialista”, e esse contraste faz pensar sobre o que esperamos de quem escuta.
🧠 Psicanálise: Freud já indicava que o analista não deveria ocupar o lugar de autoridade moral, e Lacan radicaliza isso ao mostrar que o analista sustenta o lugar do sujeito suposto saber apenas para que ele caia, como lembra Dunker, “a análise começa quando o saber do analista deixa de ser garantia.”
Entre o não saber e a escuta,
Cris
psicanalista que acredita que sustentar o vazio é, muitas vezes, o único caminho para que algo verdadeiro possa, enfim, ser dito.
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