Pipoca na manteiga #33 — Quando a psicanálise é usada para romantizar assimetrias entre colegas de trabalho
Nem toda relação unilateral é ética só porque recebeu um nome teórico. Existe uma diferença importante entre o campo clínico e o campo das relações profissionais.
Uma das coisas que mais me incomodem hoje é justamente quando conceitos fundamentais da psicanálise começam a ser deslocados de lugar como se servissem para explicar tudo. Concordo plenamente que uma indicação clínica não pode ser reduzida a contrato, dívida ou moeda de troca. A transferência não funciona na lógica do “eu te dei, agora você me deve”. Freud já apontava, desde A dinâmica da transferência (1912), que a transferência não é uma relação racional ou calculável, mas um investimento afetivo inconsciente que se atualiza na relação analítica. E Lacan radicaliza isso ao mostrar que o analista não ocupa o lugar de quem troca, recompensa ou devolve algo equivalente ao sujeito. Nesse sentido, transformar indicação clínica em mercado de favores empobrece a própria dimensão ética da análise. Até aqui, eu concordo completamente.
Mas me parece que existe um problema quando esse raciocínio é transportado automaticamente para relações entre colegas, grupos profissionais e circulação de trabalho. Porque aí já não estamos mais na posição analítica. Não somos analistas uns dos outros. Não há enquadre clínico. Não há transferência no mesmo sentido em que Freud ou Lacan formularam. Há relações profissionais, afetivas, simbólicas e institucionais atravessadas por reconhecimento, circulação, presença e, sim, afeto. E ignorar isso em nome de uma espécie de “pureza teórica” me parece perigoso. Porque corre-se o risco de transformar a psicanálise numa justificativa sofisticada para sustentar relações estruturalmente unilaterais.
O que eu tenho questionado não é a ausência de troca automática, muito menos uma lógica mercantil da indicação. O ponto é outro. É quando apenas um lado sustenta continuamente o laço, a circulação, o reconhecimento e a aposta no trabalho do outro, enquanto o retorno nunca acontece. E nomear isso não é reduzir tudo a mercado. É reconhecer que relações humanas produzem efeitos. Lacan, no Seminário 17, quando trabalha os discursos, mostra justamente como certas estruturas sociais se sustentam a partir da extração contínua de algo de um sujeito sem que isso retorne simbolicamente de forma equivalente. É impossível não pensar o quanto determinadas relações profissionais contemporâneas naturalizam isso sob o nome de “generosidade”, “rede” ou “parceria”, quando, na prática, funcionam muito mais como desgaste silencioso.
Talvez o que mais me atravesse seja justamente o apagamento do afeto nessas discussões. Porque indicar alguém não é apenas um gesto técnico. É um gesto de reconhecimento. É colocar o próprio nome em circulação junto ao do outro. É apostar simbolicamente naquele trabalho. E quando isso jamais retorna, não porque precise retornar de forma obrigatória, mas porque nunca há implicação do outro lado, algo aparece. Não como dívida. Mas como assimetria. E sustentar indefinidamente relações assimétricas não é necessariamente ético, saudável ou desejável. Às vezes, a recusa em nomear isso produz justamente o contrário da ética: produz silenciamento.



