Pipoca na manteiga #34 — Feliz Dia das Mães! E quem acolhe as mães que não estão felizes? O Dia das Mães também pode doer.
Para além das flores e propagandas felizes, existem mães cansadas, mães arrependidas, mães deprimidas e mulheres tentando sobreviver à expectativa impossível da maternidade perfeita.
Em quase vinte anos de consultório, eu já escutei muitas maternidades diferentes. E talvez uma das coisas mais importantes que aprendi seja justamente que não existe “a mãe”. Existe a mulher atravessada por uma experiência que nem sempre foi desejada, planejada ou suportável da forma como o discurso social insiste em vender. Sim, atendi mães que sonharam durante anos com a gravidez, que prepararam quartos, nomes, roupas e futuros. Mas, honestamente, a maioria das histórias que passaram pela minha escuta não vieram desse lugar idealizado. Vieram do susto, da interrupção da própria vida, da culpa por não sentir o amor imediato prometido pelas propagandas, do medo, da solidão e, em alguns casos, do horror absoluto de terem sido violentadas e obrigadas a sustentar uma maternidade que nunca escolheram.
Também já escutei mães solteiras tentando sobreviver entre trabalho, culpa e exaustão enquanto ouviam da sociedade que “mãe dá conta”. Mães que choravam no banheiro para os filhos não verem. Mulheres que sustentavam duas, três jornadas e ainda se sentiam culpadas por desejarem cinco minutos de silêncio. Já atendi trabalhadoras do sexo que se tornaram mães em contextos profundamente violentos e que, mesmo assim, carregavam um amor brutal pelos filhos enquanto eram julgadas por todos os lados. E talvez o que mais me atravesse nessas histórias seja perceber como a sociedade romantiza a maternidade ao mesmo tempo em que abandona completamente as mulheres reais que ocupam esse lugar. Porque é muito fácil celebrar mães em comerciais emocionantes. Difícil é sustentar escuta para uma mulher que diz, chorando, que não consegue mais existir dentro da própria exaustão.
Existe uma violência silenciosa no modo como o Dia das Mães é construído socialmente. Porque nem toda mãe está feliz hoje. Algumas estão deprimidas. Algumas estão anestesiadas. Algumas amam os filhos profundamente e, ainda assim, sentem saudade da vida que perderam. Algumas nunca quiseram ser mães e carregam uma culpa impossível de verbalizar sem serem imediatamente transformadas em monstros sociais. Outras vivem a depressão pós-parto em silêncio porque têm medo de admitir que a maternidade não trouxe iluminação nenhuma, apenas cansaço, medo e uma sensação brutal de desaparecimento de si mesmas. E talvez a maior crueldade esteja justamente aí: exigir felicidade obrigatória de mulheres que, muitas vezes, estão apenas tentando sobreviver.
E talvez uma das representações mais brutais dessa impossibilidade de romantizar a maternidade esteja em Precisamos Falar Sobre Kevin. Tanto no livro de Lionel Shriver quanto no filme dirigido por Lynne Ramsay, o que aparece não é apenas a história de um filho violento, mas o colapso da imagem social da “boa mãe”. Eva, a personagem principal, é atravessada por algo que continua sendo quase proibido de dizer em voz alta: ela não encontrou na maternidade a realização prometida. Desde a gravidez, passando pelo parto e pelos primeiros anos de Kevin, existe um estranhamento constante, um mal-estar que o mundo ao redor tenta transformar imediatamente em culpa materna. Como se toda dificuldade na relação entre mãe e filho precisasse necessariamente ser responsabilidade da mulher. O filme é cruel justamente porque desmonta essa fantasia confortável de que o amor materno nasce naturalmente, puro, instantâneo e suficiente para resolver tudo.
O que mais me atravessa em Precisamos Falar Sobre Kevin é perceber como Eva vai desaparecendo enquanto sujeito para ocupar apenas o lugar de mãe fracassada aos olhos do mundo. Pouco importa sua solidão, sua angústia, o modo como Kevin parece desde cedo desafiar violentamente qualquer possibilidade de vínculo. A sociedade quer uma resposta simples: “a culpa é da mãe”. E talvez seja exatamente por isso que tantas mulheres silenciem o sofrimento relacionado à maternidade. Porque admitir ambivalência, arrependimento, raiva ou esgotamento ainda provoca horror social. A maternidade continua sendo tratada como espaço sagrado, quando, na realidade, é uma experiência profundamente humana, atravessada por amor, mas também por perda, violência psíquica, culpa e desejo de fuga. Eva não é monstruosa porque falhou em amar perfeitamente. Ela é apenas uma mulher esmagada por uma expectativa impossível.
E talvez seja justamente por isso que livros como Mulher. Literatura. Identidade de Gênero: violências do patriarcado e as resistências do Feminino sejam tão importantes hoje. Porque falar sobre o feminino não deveria significar aprisionar mulheres em imagens idealizadas de cuidado, pureza ou sacrifício eterno, mas abrir espaço para experiências reais, contraditórias, violentadas e, ainda assim, profundamente humanas. Quando pensamos maternidade, corpo, desejo, violência, sexualidade e identidade apenas a partir de modelos perfeitos, produzimos silêncio. E o silêncio adoece. A literatura talvez exista justamente para romper isso. Para permitir que mulheres possam aparecer não como símbolos inalcançáveis, mas como sujeitos atravessados por medo, raiva, culpa, desejo, ambivalência e resistência. Adquira o livro clicando aqui!




