Pipoca na manteiga #36 — Por que o bolsonarismo e a (extrema)direita representam uma ameaça real à minha existência?
E quem caminha ao meu lado, e se diz meu amigo ou minha amiga, precisa compreender isso.
Ao escrever o livro O colapso do pensamento: Hannah Arendt, a banalidade do ódio e o Brasil no bolsonarismo, eu abordei que o ódio político não nasce do nada. Ele é produzido lentamente quando uma sociedade começa a perder a capacidade de pensar criticamente, de sustentar dúvidas e de reconhecer a humanidade do outro. Hannah Arendt percebeu isso ao analisar o nazismo e a ascensão do totalitarismo no século XX. O que a assustava não era apenas a existência de pessoas violentas, mas a presença de indivíduos comuns que deixavam de refletir sobre aquilo que estavam fazendo. Pessoas que repetiam discursos, obedeciam ordens e naturalizavam a violência sem sequer interromper o fluxo automático da linguagem para se perguntarem: “o que estou defendendo?”, “o que estou permitindo?”, “o que isso produz no mundo?”.
Ao longo dos últimos anos, vivendo o Brasil atravessado pelo bolsonarismo, eu comecei a perceber que a banalidade do mal descrita por Arendt ganhava uma nova forma entre nós: a banalidade do ódio. O preconceito deixou de permanecer escondido para ocupar a cena pública com orgulho. O racismo virou piada. A misoginia passou a ser defendida como sinceridade. A homofobia reapareceu como “opinião”. A crueldade foi transformada em coragem política. E talvez uma das coisas mais perturbadoras tenha sido perceber que tudo isso não surgia apenas de grupos extremistas organizados, mas também de pessoas comuns, de familiares, colegas e conhecidos que passaram a repetir discursos violentos como se fossem algo natural.
O bolsonarismo não produziu apenas uma crise institucional. Produziu uma transformação profunda na linguagem e na subjetividade. As redes sociais passaram a funcionar como máquinas de repetição, ressentimento e simplificação. A política deixou de ser espaço de debate para se transformar em guerra permanente contra inimigos imaginários. Minorias sociais passaram a viver em estado constante de ameaça simbólica e física. Mulheres, pessoas negras, indígenas, pessoas LGBTQIA+ e pobres voltaram a sentir no próprio corpo aquilo que significa existir em um país que autoriza o desprezo como linguagem pública. E o mais perigoso é que, quando o ódio se torna cotidiano, ele deixa de chocar. Ele começa a parecer normal.



