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Pipoca na manteiga #37 — O que "Pela Metade" (2026) explora masculinidade, violência e amor entre homens

A série "Half Man", lançada no Brasil como "Pela Metade", é uma das obras mais desconfortáveis sobre masculinidade produzidas nos últimos anos. Minha tese é que Ruben é apaixonado por Niall.

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mai 29, 2026
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Entre o soco e o desejo? O que é desconfortável?

Print do Ep.01 T.01 15:02ss da série “Half Man”

E desconfortável aqui não significa apenas violência física, embora ela exista o tempo inteiro, mas principalmente a sensação de que todos os personagens estão sufocados dentro de uma ideia impossível do que significa ser homem. Criada por Richard Gadd, a série acompanha quase quarenta anos da relação entre Ruben e Niall, dois homens que cresceram como irmãos sem serem biologicamente irmãos. O que começa como amizade, proteção e dependência rapidamente se transforma em algo muito mais difícil de nomear: uma mistura constante de amor, ódio, culpa, desejo, violência e destruição. E talvez o mais interessante seja justamente isso: a série parece entender que existem relações masculinas tão intensas que a linguagem tradicional da amizade já não consegue explicar.

Ruben e Niall são quase opostos. Ruben é brutal, explosivo, fisicamente dominante, o tipo de masculinidade construída pela força, pela agressividade e pela ocupação constante do espaço. Niall, por outro lado, parece mais silencioso, mais contido, quase sempre atravessado por culpa e repressão. Só que a série vai desmontando essa oposição aos poucos. Porque Ruben depende emocionalmente de Niall de maneira quase obsessiva, enquanto Niall parece incapaz de romper completamente com Ruben mesmo quando tudo ao redor aponta para destruição. O que existe entre eles não cabe facilmente nem na ideia de fraternidade nem na de amizade. Há algo profundamente erótico circulando ali, mesmo quando o sexo aparentemente está direcionado às mulheres. E talvez seja exatamente esse o grande terror da série: ela mostra homens que conseguem tocar o corpo um do outro, invadir o espaço íntimo um do outro, compartilhar um nível extremo de intimidade física e emocional, desde que exista uma mulher servindo como mediação simbólica dessa proximidade.

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No primeiro episódio, duas cenas me atravessaram imediatamente. A primeira é justamente o reencontro no casamento de Niall, quando Ruben reaparece carregando uma tensão física quase insuportável. Antes mesmo de qualquer explosão, a câmera já filma os dois como se estivessem presos numa órbita emocional que ninguém mais compreende. Mas existe outra cena ainda mais desconcertante: quando Niall dorme abraçado com Ruben e acorda no meio da noite após uma polução noturna. A série filma esse momento sem escândalo, mas também sem neutralidade. Porque ali o corpo aparece antes que qualquer discurso consiga organizá-lo. O desejo emerge num espaço ambíguo, impossível de ser totalmente nomeado pelos personagens. Não é apenas sexualidade reprimida no sentido simples. É algo mais complexo: uma intimidade masculina tão intensa que começa a ultrapassar as fronteiras permitidas pela masculinidade heterossexual tradicional. E talvez o mais perturbador seja justamente o silêncio posterior. Nada é realmente dito. O corpo fala sozinho, enquanto os personagens continuam tentando sobreviver dentro de um modelo de homem que não permite reconhecer certos afetos sem transformá-los imediatamente em ameaça.

A segunda cena é a explosão de violência no casamento. Porque ali a série já deixa claro que, entre eles, afeto e agressão ocupam praticamente o mesmo lugar. Ruben agride como quem reivindica posse. Niall suporta como quem não consegue abandonar algo que também o constitui. A violência não aparece apenas como brutalidade masculina tradicional, mas como linguagem emocional possível para homens incapazes de verbalizar desejo, vulnerabilidade ou abandono.

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