Sei da importância histórica da série Fundação para a ficção científica, conheço sua influência sobre praticamente tudo que veio depois, de Star Wars a Duna, mas minha experiência é exclusivamente com a adaptação da Apple TV. Portanto, o que vou comentar aqui não é a obra literária, mas a obra tornada série televisiva e aquilo que ela me provocou enquanto espectador.
Para quem nunca ouviu falar de Fundação, a série acompanha uma crise que ameaça durar milhares de anos. Em um futuro distante, a humanidade vive espalhada por toda a galáxia sob o domínio de um gigantesco Império Galáctico. O matemático Hari Seldon, porém, desenvolve uma ciência chamada Psico-história, capaz de prever o comportamento de grandes populações, e descobre algo aterrador: o Império está condenado a cair, mergulhando a civilização em uma era de barbárie que pode durar trinta mil anos. Sua proposta é criar a Fundação, uma instituição destinada a preservar o conhecimento humano e reduzir esse período de escuridão para apenas mil anos. Ao longo da série acompanhamos personagens como o próprio Hari Seldon; Gaal Dornick, uma jovem matemática brilhante que se torna peça fundamental de seus planos; Salvor Hardin, guardiã de um dos mundos centrais da Fundação; Demerzel, a misteriosa conselheira imperial; e os Imperadores Cleon, uma dinastia formada por clones que tenta manter vivo um império (meio redundando já que eles se dizem “O Império” rsrs).
A premissa continua fascinante. A ideia de que Hari Seldon desenvolve uma ciência capaz de prever o comportamento de civilizações inteiras continua sendo uma das propostas mais ousadas já imaginadas pela ficção científica. O detalhe que mais me interessa é justamente o limite dessa ciência: ela não prevê indivíduos. O sujeito permanece imprevisível. É possível calcular impérios, populações, economias e tendências históricas, mas não a singularidade de uma pessoa. Como psicanalista, é impossível não me interessar por isso. Há algo profundamente lacaniano nessa falha da previsão absoluta. O sujeito insiste em escapar.




