Pipoca na manteiga #39 — “Isso não é literatura”: O dia em que me disseram para desistir de escrever
Eu ouvi essa frase de alguém que admiro profundamente. Doeu, me fez duvidar de tudo o que escrevia e quase me convenceu a desistir. Mas, felizmente, críticas não devem parar os nossos sonhos.
Existe um tipo de crítica que machuca porque vem de quem não esperamos: não de um inimigo. Não de alguém que deseja o nosso fracasso, ao menos conscientemente. Mas de alguém que admiramos, respeitamos e cuja opinião realmente importa para nós. Foi exatamente isso que aconteceu comigo há alguns anos. Eu havia mostrado um texto para uma pessoa que faz parte do meu círculo mais próximo, alguém cuja inteligência admiro até hoje e que ajudou a moldar parte da forma como penso. E então ouvi uma frase que ficou ecoando dentro de mim durante muito tempo: “isso que você escreve não é literatura, é ruim”.
Não lembro exatamente de tudo o que veio antes ou depois daquela conversa. Mas lembro do impacto e da sensação física: meu estômago se revirou. Lembro de voltar para casa carregando a impressão (impressas naquelas folhas que eu segurava) de que talvez eu estivesse desperdiçando meu tempo (para quem me conhece, sabe da importância dos meus livros de fantasia). Talvez eu não soubesse escrever, ou as histórias que eu queria contar não fossem boas o suficiente. Talvez eu devesse simplesmente abandonar a ideia. Se alguém tão inteligente, tão preparada e tão importante para mim dizia aquilo, quem era eu para discordar?
O problema é que existe uma diferença enorme entre escutar uma crítica e transformar uma crítica em sentença como se fosse um destino (vsf).
Eu ruminei aquelas palavras. Voltei a elas inúmeras vezes. Reescrevi mentalmente aquela conversa. Tentei entender se havia algo que eu não estava vendo. E talvez houvesse mesmo. Toda crítica carrega algo que merece ser escutado. Mas existe um ponto em que precisamos decidir se a opinião de alguém, por mais importante que seja, vai se transformar no limite da nossa própria vida.
E eu continuei escrevendo.
Continuei escrevendo mesmo sem certeza e carregando dúvidas; como até hoje carrego. Porque, apesar da dor, existia algo dentro de mim que insistia em acreditar naquelas histórias. E foi assim que nasceu a trilogia A Ruína de uma Era: O Abandono, A Ascensão e A Queda. Os mesmos textos que, em algum momento, me fizeram ouvir que aquilo não era literatura encontraram leitores, encontraram uma editora e encontraram pessoas que enxergaram algo completamente diferente. Uma delas me disse uma frase que nunca esqueci: “que a literatura fantástica brasileira precisava de mais personagens LGBTI+ tão marcantes, complexos e exuberantes quanto aqueles que eu havia criado.”
Nenhuma obra encontra unanimidade. Nenhum escritor encontra unanimidade. Nenhuma pessoa encontra unanimidade. Se você criar alguma coisa no mundo, alguém vai dizer que é ruim, que não funciona. Alguém vai dizer que você deveria desistir. O problema não é ouvir isso.
O problema é acreditar que essas palavras possuem o poder de definir quem você é.
Hoje continuo admirando aquela pessoa. Continuo reconhecendo tudo o que aprendi com ela. Mas também aprendi outra coisa: admiração não exige obediência. Às vezes crescer, em todos os sentidos, também significa agradecer o que recebemos de alguém e, ainda assim, seguir por um caminho que essa pessoa jamais escolheria para si.




