Pipoca na manteiga #42 — O fascismo não vence sozinho. Ele precisa da nossa omissão.
O que cada uma de nós, cada um de nós, pode fazer para impedir que o fascismo continue avançando? Minha resposta é simples: multiplicar pensamento, diálogo e a coragem de não se calar!
O fascismo contemporâneo é a transformação do preconceito em identidade, da mentira em método político e da violência em linguagem aceitável.
No lançamento de O colapso do pensamento: Hannah Arendt, a banalidade do ódio e o Brasil no bolsonarismo, uma das perguntas que mais me marcou foi também uma das mais difíceis: “o que nós podemos fazer para impedir o avanço do fascismo?”. Confesso que gosto mais dessa pergunta do que de outra muito comum: “o que o governo deveria fazer?”. Porque ela devolve a responsabilidade para onde ela também pertence: a cada uma de nós. É confortável imaginar que a democracia será salva apenas por juízas, juízes, parlamentares, jornalistas ou universidades. Mas a história mostra justamente o contrário. Democracias são preservadas quando pessoas comuns decidem agir como cidadãs e cidadãos comuns.
Mas afinal, o que estou chamando de fascismo? A palavra costuma ser usada como xingamento e, justamente por isso, muitas vezes perde sua força analítica. Fascismo não é simplesmente um governo autoritário nem um sinônimo genérico de ditadura. Trata-se de um modo de organizar a vida política e social baseado na destruição da pluralidade, na criação permanente de inimigos, na ideia de que algumas vidas valem mais do que outras e na substituição do debate pela obediência. O fascismo alimenta-se da simplificação do mundo. Ele precisa dividir a sociedade entre “nós” e “eles”, transformar diferenças em ameaças e convencer as pessoas de que a violência é uma forma legítima de restaurar uma suposta ordem perdida.
É justamente por isso que Hannah Arendt continua tão atual. Ela nos mostra que o fascismo não cresce apenas através de líderes carismáticos ou de grandes discursos inflamados. Ele cresce quando deixamos de pensar criticamente, quando repetimos slogans em vez de argumentos, quando a mentira deixa de causar indignação, quando a desumanização do outro passa a parecer razoável e quando acreditamos que determinados grupos merecem menos direitos, menos dignidade ou menos existência. O fascismo não começa nos campos de concentração. Ele começa muito antes, quando uma sociedade passa a considerar aceitável aquilo que, até pouco tempo atrás, seria moralmente insuportável.
Minha resposta ao que podemos fazer foi muito menos grandiosa do que algumas pessoas talvez esperassem. Eu disse que todas nós temos um alcance. Algumas pessoas falam para milhares. Outras falam para vinte pessoas da família. Outras para colegas de trabalho, estudantes, pacientes, amigas, amigos, vizinhas ou vizinhos. Todas ocupamos algum lugar na circulação das ideias. E talvez uma das maiores ilusões do nosso tempo seja acreditar que compartilhar conhecimento, corrigir uma desinformação, recomendar um livro, apoiar o jornalismo sério ou iniciar uma conversa respeitosa seja pouco. Não é pouco. É justamente assim que as culturas democráticas se constroem: lentamente, todos os dias, conversa após conversa.
Enquanto eu respondia aquela pergunta, percebi que talvez o fascismo também cresça exatamente da mesma maneira. Raramente ele chega anunciando o horror. Ele costuma chegar em pequenas concessões. Em uma mentira repetida sem contestação. Em uma piada preconceituosa que ninguém enfrenta. Em um ataque aos direitos humanos tratado como opinião qualquer. Em uma violência que passa a parecer normal porque aconteceu tantas vezes que já não nos escandaliza. Hannah Arendt compreendeu isso como poucas pessoas. Nenhuma sociedade acorda fascista de um dia para o outro. O autoritarismo se instala pouco a pouco, justamente quando deixamos de perceber que estamos cedendo terreno.
Foi exatamente por isso que escrevi este livro. Não para convencer alguém a votar em determinado partido, nem para oferecer um manual de respostas prontas. Escrevi porque acredito que pensar continua sendo um ato profundamente político. Pensar exige tempo. Exige dúvida. Exige disposição para abandonar certezas quando elas deixam de explicar a realidade. O fascismo, ao contrário, prospera quando pensar se torna desnecessário. Quando slogans substituem argumentos. Quando o ódio substitui a conversa. Quando o outro deixa de ser alguém com quem discordamos e passa a ser alguém que merece ser eliminado.
Talvez por isso eu tenha insistido tanto, naquele lançamento, na palavra multiplicar. Multiplicar livros. Multiplicar conversas. Multiplicar pensamento crítico. Multiplicar a defesa dos direitos humanos. Multiplicar espaços onde ainda seja possível discordar sem desejar destruir quem pensa diferente. Nenhuma dessas ações muda o mundo sozinha. Mas nenhuma democracia sobrevive sem elas.
O fascismo também se multiplica. A diferença é que ele multiplica medo, mentira e ressentimento. Cabe a nós decidir o que desejamos colocar em circulação.
Se há algo que Hannah Arendt me ensinou é que a política nunca acontece apenas nos grandes discursos ou nas eleições. Ela acontece na mesa do jantar, nas conversas entre amigas e amigos, nas salas de aula, nos consultórios, nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, nas pequenas escolhas que fazemos todos os dias. A pergunta nunca é apenas “quem governa?”. A pergunta também é: “que tipo de mundo estou ajudando a construir com aquilo que digo, compartilho, silencio ou deixo passar?”.
Saí do lançamento do livro com a sensação de que aquela pergunta continuará me acompanhando por muito tempo. O que podemos fazer? Talvez a resposta seja menos espetacular do que gostaríamos. Mas ela continua sendo profundamente transformadora. Ler. Pensar. Conversar. Estudar. Defender a democracia. Defender quem tem seus direitos atacados. Não naturalizar a violência. Não rir do preconceito. Não compartilhar aquilo que sabemos ser mentira. Parece pouco. Mas é exatamente assim que as democracias permanecem vivas. Uma conversa de cada vez. Uma pessoa de cada vez. Um pensamento de cada vez.
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