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Pipoca na manteiga #44 — Quando uma série nos faz reencontrar personagens que escrevemos

Assistindo a Proud (2026), percebi que algumas histórias não se repetem. Elas conversam entre si, mesmo quando nasceram em mundos completamente diferentes.

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ago 01, 2026
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Proud, produção polonesa da HBO, me conquistou por um motivo diferente: pela delicadeza com que trata aquilo que costumamos chamar de família. A premissa parece simples. Filip é um jovem gay, modelo, vivendo uma vida marcada pela liberdade e pelas festas, até que a morte repentina da irmã transforma completamente seu cotidiano. De uma hora para outra, ele se vê responsável pela pequena Tosia, sua sobrinha. O que poderia ser apenas uma narrativa sobre luto transforma-se em algo muito maior: uma história sobre cuidado, responsabilidade, amor e sobre as famílias que a vida nos obriga a reinventar. A série não constrói grandes discursos. Ela prefere mostrar pequenos gestos. O medo de errar. O aprendizado cotidiano. A exaustão. A alegria inesperada. O afeto que vai surgindo quando alguém passa a depender de nós.

Enquanto assistia aos episódios, percebi que a série despertava em mim uma lembrança muito antiga. Não porque eu tivesse escrito uma história parecida. Não escrevi. O contexto é outro, os personagens são outros e os conflitos pertencem a universos completamente diferentes. O que me chamou a atenção foi a pergunta que atravessa Proud: afinal, o que faz de alguém uma família?

Talvez tenha sido por isso que imediatamente pensei em O Primogênito do Sol. Ao longo do romance, Jheremy Ravier Firenze nunca é apresentado como uma figura simbólica da maternidade. Ele é, literalmente, mãe de Táris e Dominus: em um mundo mágico, ele gestou ambos e os concebeu. O romance não trata isso como uma provocação nem como uma metáfora: literalmente um homem engravidou usando de magia e isso, é claro, mudou completamente a sua vida. Em diversos momentos, vemos Jheremy levantar-se durante a noite ao ouvir o choro dos gêmeos, pegá-los nos braços, acalmá-los, alimentá-los e cuidar deles com a dedicação de quem organiza toda a própria existência em torno dos filhos. Em comprar bois e cabras para dar leite aos bebês. Andrius, o pai, é um senador que sustenta a família.

Andrius observa essa cena e reconhece ali “uma mãe dedicada e com uma paixão imensa pelos gêmeos que deu à luz”, ao mesmo tempo em que afirma sentir por eles uma responsabilidade impossível de traduzir em palavras, afinal, é o sentimento de um pai. Vale ler o romance antes de dar palpites rsrs

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O que mais gosto na relação de Andrius e Jheremy é que ela nunca depende de explicações. Andrius não tenta direcionar a maternidade de Jheremy. Jheremy não precisa justificar a maternidade que vive. Os dois simplesmente constroem uma família. Há momentos belíssimos em que Andrius organiza a rotina da casa, manda Píu (um grifo!) cuidar das crianças enquanto Jheremy conversa com o avô de criação Nefesh, beija Jheremy antes de sair e diz apenas: “Eu te amo”. A resposta vem imediatamente: “Eu sou apaixonado por ti”. Em outro momento, Jheremy percorre os quartos para amamentar Táris e Dominus com leite de vaca (afinal, ele gestou, mas não tem como amamentar com o próprio corpo), abraçá-los, sentir o cheiro dos filhos “como uma mãe amorosa”, antes de encontrar Andrius, que o espera no andar de cima. Não há qualquer necessidade de enquadrar aquela família em categorias prontas. Ela simplesmente existe. Leia o romance e assista a série antes de tirar conclusões precipitadas…

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