Pipoca na manteiga #44 — Quando uma série nos faz reencontrar personagens que escrevemos
Assistindo a Proud (2026), percebi que algumas histórias não se repetem. Elas conversam entre si, mesmo quando nasceram em mundos completamente diferentes.
Proud, produção polonesa da HBO, me conquistou por um motivo diferente: pela delicadeza com que trata aquilo que costumamos chamar de família. A premissa parece simples. Filip é um jovem gay, modelo, vivendo uma vida marcada pela liberdade e pelas festas, até que a morte repentina da irmã transforma completamente seu cotidiano. De uma hora para outra, ele se vê responsável pela pequena Tosia, sua sobrinha. O que poderia ser apenas uma narrativa sobre luto transforma-se em algo muito maior: uma história sobre cuidado, responsabilidade, amor e sobre as famílias que a vida nos obriga a reinventar. A série não constrói grandes discursos. Ela prefere mostrar pequenos gestos. O medo de errar. O aprendizado cotidiano. A exaustão. A alegria inesperada. O afeto que vai surgindo quando alguém passa a depender de nós.
Enquanto assistia aos episódios, percebi que a série despertava em mim uma lembrança muito antiga. Não porque eu tivesse escrito uma história parecida. Não escrevi. O contexto é outro, os personagens são outros e os conflitos pertencem a universos completamente diferentes. O que me chamou a atenção foi a pergunta que atravessa Proud: afinal, o que faz de alguém uma família?
Talvez tenha sido por isso que imediatamente pensei em O Primogênito do Sol. Ao longo do romance, Jheremy Ravier Firenze nunca é apresentado como uma figura simbólica da maternidade. Ele é, literalmente, mãe de Táris e Dominus: em um mundo mágico, ele gestou ambos e os concebeu. O romance não trata isso como uma provocação nem como uma metáfora: literalmente um homem engravidou usando de magia e isso, é claro, mudou completamente a sua vida. Em diversos momentos, vemos Jheremy levantar-se durante a noite ao ouvir o choro dos gêmeos, pegá-los nos braços, acalmá-los, alimentá-los e cuidar deles com a dedicação de quem organiza toda a própria existência em torno dos filhos. Em comprar bois e cabras para dar leite aos bebês. Andrius, o pai, é um senador que sustenta a família.
Andrius observa essa cena e reconhece ali “uma mãe dedicada e com uma paixão imensa pelos gêmeos que deu à luz”, ao mesmo tempo em que afirma sentir por eles uma responsabilidade impossível de traduzir em palavras, afinal, é o sentimento de um pai. Vale ler o romance antes de dar palpites rsrs
O que mais gosto na relação de Andrius e Jheremy é que ela nunca depende de explicações. Andrius não tenta direcionar a maternidade de Jheremy. Jheremy não precisa justificar a maternidade que vive. Os dois simplesmente constroem uma família. Há momentos belíssimos em que Andrius organiza a rotina da casa, manda Píu (um grifo!) cuidar das crianças enquanto Jheremy conversa com o avô de criação Nefesh, beija Jheremy antes de sair e diz apenas: “Eu te amo”. A resposta vem imediatamente: “Eu sou apaixonado por ti”. Em outro momento, Jheremy percorre os quartos para amamentar Táris e Dominus com leite de vaca (afinal, ele gestou, mas não tem como amamentar com o próprio corpo), abraçá-los, sentir o cheiro dos filhos “como uma mãe amorosa”, antes de encontrar Andrius, que o espera no andar de cima. Não há qualquer necessidade de enquadrar aquela família em categorias prontas. Ela simplesmente existe. Leia o romance e assista a série antes de tirar conclusões precipitadas…





