Pipoca na manteiga #45 — Agora eu quero ler o que eu quiser! Me libertei!
Passei 27 anos estudando o que precisava estudar, escrevendo o que precisava, lendo o que esperavam que eu lesse. Chegou a hora de descobrir o que acontece quando o pensamento se liberta.
Comecei minha primeira graduação muito jovem e, desde então, estudar nunca deixou de fazer parte da minha vida. Vieram graduações, mestrados, doutorados, cursos, grupos de estudo, pesquisas, artigos, congressos, disciplinas, orientações, bibliografias obrigatórias e complementares e aquelas intermináveis listas de textos que inevitavelmente levam a outras listas de textos. Passei praticamente toda a minha vida adulta estudando alguma coisa, quase sempre dentro de uma estrutura que, de uma maneira ou de outra, também determinava o que precisava ser lido, pesquisado e escrito. Hoje, depois dos quarenta, quando olho para esse percurso, não sinto arrependimento. Muito pelo contrário!
Há um orgulho enorme pelo caminho percorrido e por tudo aquilo que cada uma dessas experiências acrescentou à maneira como penso, leio o mundo e escrevo.
A Filosofia me ensinou algo que talvez nunca mais tenha conseguido abandonar: a desconfiança diante das respostas fáceis e o prazer de permanecer algum tempo dentro de uma pergunta. A Psicanálise, onde encontrei uma forma de escuta e de pensamento que continua me inquietando, será sempre derradeira em minha vida. A Psicologia abriu outros caminhos, colocou diante de mim diferentes maneiras de pensar o sujeito, até que meu percurso foi cada vez mais se dirigindo para a Psicanálise. As Letras, por sua vez, me devolveram àquilo que talvez sempre estivesse presente: a palavra, a literatura, a narrativa, a maneira como construímos mundos e também como somos construídos pelas histórias que contamos. Não vejo esses caminhos como desvios ou formações acumuladas numa estante de diplomas.
Hoje consigo perceber que eles conversam entre si. Filosofia, Psicologia, Psicanálise e Letras acabaram formando uma espécie de território intelectual no qual aprendi a habitar. Sou profundamente grato por ter podido percorrê-lo.
Também sou grato à universidade, às professoras e professores que encontrei, às pessoas com quem estudei, aos grupos dos quais participei e às pesquisas que me obrigaram a ler aquilo que provavelmente jamais escolheria sozinho. Seria injusto transformar a academia numa espécie de carcereira da qual finalmente consegui escapar. Não é disso que estou falando. Há uma violência produtiva em ser confrontado com aquilo que não escolheríamos.
Algumas das leituras mais importantes da minha vida chegaram justamente dessa maneira. A formação também acontece quando alguém coloca diante de nós um livro que não queríamos ler e, algumas páginas depois, descobrimos que alguma coisa em nossa maneira de pensar já não pode continuar exatamente como era.




