Eu terminei Quinze Dias com aquela alegria boa de quando um filme brasileiro consegue ser leve sem ser vazio. Gostei mesmo. Gostei de Felipe, gostei de Caio, gostei do cuidado com que a história acompanha dois garotos durante aqueles quinze dias de férias e, principalmente, gostei de perceber que estava diante de um filme LGBTI+ que não precisava transformar cada minuto de sua existência em sofrimento para justificar a importância daquilo que estava contando.
A história, baseada no romance de Vitor Martins, parte de uma situação deliciosa justamente por sua simplicidade: Felipe é um adolescente gay, gordo, que sofre bullying na escola e está pronto para passar as férias de julho longe de tudo isso quando descobre que Caio, seu vizinho e antigo amor de infância, ficará hospedado em sua casa durante quinze dias. Pronto. Não vou contar mais nada. É melhor deixar que Felipe e Caio façam o restante do trabalho.
E fazem muito bem. Porque uma das coisas que mais me agradaram no filme é que Quinze Dias fala sobre o peso, mas não é somente um filme sobre o peso. Fala sobre ser gay, mas não reduz seus personagens à sexualidade. Fala sobre bullying sem transformar Felipe exclusivamente na vítima da história. Existe corpo ali, existe desejo, existe vergonha, existe insegurança, existe descoberta, existe amizade e existe aquela confusão maravilhosa e terrível que é gostar de alguém quando ainda estamos tentando descobrir se conseguimos gostar de nós mesmos.
É importante ver um protagonista gordo ocupando o centro de uma história de afeto e desejo sem que seu corpo precise desaparecer para que o romance possa existir.
E é justamente por isso que me incomodou saber que Miguel Lallo, que interpreta Felipe, recebeu ataques gordofóbicos e homofóbicos nas redes sociais quando o trailer foi divulgado. Mais absurdo ainda é descobrir que, depois das filmagens, quando emagreceu para outro trabalho e também por questões pessoais, voltou a ser atacado, agora por ter emagrecido. O corpo que algumas pessoas dizem querer libertar continua sendo um corpo sobre o qual elas acreditam ter o direito de opinar.




