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Pipoca na manteiga #48 — Estamos à beira do abismo

Não se envolver na política quando direitos e a própria democracia estão em disputa não é neutralidade. E não, isso não é simplesmente sobre Lula ou sobre o PT. Não caia nessa história.

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ago 28, 2026
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Ontem participei de um encontro de lideranças LGBTI+ com Requião Filho e Michele Caputo, candidatos ao Governo e à Vice-Governadoria do Paraná pela coligação Paraná para Todos. Saí de lá com uma inquietação que já vinha me acompanhando, mas que ganhou outra dimensão: estamos vivendo um momento muito sério. Não escrevo isso para produzir pânico, nem para dizer que uma eleição resolverá todos os nossos problemas. Escrevo porque me preocupa profundamente a facilidade com que nos acostumamos a tratar a democracia como alguma coisa garantida, como se direitos conquistados permanecessem conosco para sempre. Não permanecem.

Direitos são construídos politicamente e também podem ser retirados politicamente. Por isso, quando alguém diz que não gosta de política, que não quer se envolver ou que “todos são iguais”, é preciso lembrar que a política continuará acontecendo mesmo assim. A única diferença é que outras pessoas decidirão quais vidas, direitos e liberdades merecem proteção. A disputa paranaense, inclusive, está longe de ser abstrata: pesquisa Quaest divulgada nesta semana colocou Sergio Moro (PL) na liderança, com 37%, Requião Filho (PDT) com 21% e Sandro Alex (PSD) com 15%.

Eu poderia começar pelo capitalismo, pelas relações históricas entre poder econômico e conservadorismo ou pelas diferentes formas pelas quais movimentos autoritários transformam medo e ressentimento em força política. Prefiro partir de algo muito mais concreto: é impossível desejar liberdade e, ao mesmo tempo, considerar irrelevante quem terá poder para decidir sobre as condições dessa liberdade. Isso se torna ainda mais evidente quando falamos de mulheres, pessoas LGBTI+, pessoas negras, indígenas, pessoas com deficiência, trabalhadoras e trabalhadores, populações periféricas e tantos outros grupos cujos direitos foram conquistados por meio de longas disputas sociais e políticas.

Para mim, portanto, a questão ultrapassa Lula, o PT ou qualquer partido isoladamente. Não estou dizendo que toda pessoa de esquerda seja automaticamente democrática, nem que partidos de esquerda estejam acima de críticas. Devem ser criticados. O problema começa quando transformamos nossa insatisfação legítima com partidos e governos em indiferença diante de projetos políticos que atacam direitos, instituições democráticas ou a própria possibilidade de existirmos publicamente como somos.

Hannah Arendt, filósofa judia alemã, dedicou boa parte de seu pensamento a compreender como sociedades aparentemente civilizadas podem produzir experiências totalitárias, e uma das lições mais importantes que retiro dela é justamente que a liberdade política não existe como uma propriedade individual guardada dentro de nós. Ela precisa de um mundo comum, de instituições, de pluralidade e de um espaço público no qual pessoas diferentes possam aparecer, falar e agir. É por isso que me preocupa quando a política é reduzida a uma disputa de torcidas, como se nossa única escolha fosse gostar ou não gostar de determinada liderança.

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Democracia é muito maior do que isso. Democracia significa garantir que quem pensa diferente de mim continue podendo existir, falar, amar, organizar-se, votar, discordar e reivindicar direitos. Quando começamos a aceitar que determinadas pessoas possam ter menos direitos porque são mulheres, negras, indígenas, pobres, trans, gays, lésbicas ou pertencem a qualquer outro grupo transformado em inimigo político, não estamos discutindo apenas costumes ou diferenças ideológicas. Estamos decidindo quais pessoas terão direito pleno ao mundo comum.

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