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Pipoca na manteiga #49 — Voltando às origens das quais nunca saí: meu reencontro com Hannah Arendt

Depois de mais de dez anos sem percorrer sua obra, decidi voltar à filósofa que mudou minha vida. Organizei um cronograma para esse reencontro porque, sim, Hannah Arendt é um dos meus grandes amores.

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set 05, 2026
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Voltando às origens das quais nunca saí: depois de mais de dez anos

Há autoras e autores que estudamos e que, depois de algum tempo, passam a ocupar uma determinada prateleira da nossa história. Foram importantes, ajudaram a construir alguma coisa, deixaram conceitos, perguntas, modos de pensar, mas pertencem a um período que reconhecemos como passado. Hannah Arendt nunca foi isso para mim. Posso dizer que há mais de dez anos não percorro integralmente sua obra, livro por livro, com aquela disciplina de quem se dedica sistematicamente a uma autora, mas seria completamente falso dizer que deixei de ler Arendt durante esse tempo. Ela continuou aparecendo nas minhas aulas, nos meus textos, na maneira como penso a política, na psicanálise, nas perguntas que faço sobre responsabilidade, liberdade, violência, pensamento e mundo comum.

Por isso, quando decidi estabelecer um cronograma para voltar a ler sua obra, percebi uma coisa curiosa: estou voltando a um lugar do qual nunca saí.

Há mais de vinte anos existe alguma coisa de Arendt no modo como penso. E retornar agora não significa procurar a pessoa que eu era quando a encontrei. Significa descobrir o que aconteceu com aquela leitura depois de tudo o que vivi, estudei, escrevi e pensei desde então.

Essa história começou ainda na minha primeira graduação, em Filosofia, quando Arendt entrou definitivamente na minha vida acadêmica e intelectual. Em 2005, meu Trabalho de Conclusão de Curso já estava atravessado pela pergunta sobre o pensamento, investigando aquilo que Arendt colocava em jogo quando relacionava o pensar ao mundo comum, à linguagem, ao juízo e, principalmente, à terrível possibilidade de que o mal possa se tornar normal. Foi ali que comecei a acompanhar mais seriamente sua discussão sobre a tensão entre filosofia e política, entre contemplação e ação, passando por Platão, Sócrates e por uma questão que nunca mais me abandonaria: o que acontece quando deixamos de pensar? Naquele momento eu era muito jovem e não poderia imaginar quantas vezes essa pergunta retornaria na minha vida. Muito menos poderia imaginar que, duas décadas depois, eu abriria novamente aquele TCC e encontraria nele não apenas um trabalho universitário antigo, mas uma espécie de vestígio de mim mesmo, uma primeira tentativa de formular problemas que continuariam me acompanhando muito depois da graduação.

Foi justamente desse reencontro que nasceu O colapso do pensamento: Hannah Arendt, a banalidade do ódio e o Brasil no bolsonarismo.

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