Operação: Lioness é uma dessas séries que comecei assistindo pelo suspense, pelas operações secretas e pelo ótimo elenco, mas que rapidamente me fez prestar atenção em outra coisa: o modo como os Estados Unidos enxergam o restante do mundo e, principalmente, como constroem a ideia de quem é o inimigo.
Criada por Taylor Sheridan, a série acompanha operações clandestinas da CIA e coloca suas personagens em territórios nos quais espionagem, interesses econômicos, terrorismo, segurança nacional e política internacional se confundem o tempo inteiro. Ao longo das temporadas, esse mapa de ameaças vai se ampliando e a América Latina entra cada vez mais no horizonte da narrativa, com a Venezuela sendo apresentada sistematicamente como adversária dos interesses norte-americanos. Foi aí que comecei a assistir a Lioness também pensando no Brasil. Não porque uma série de televisão possa ser tomada como documento sobre a política externa dos Estados Unidos, mas porque a ficção participa da construção de imaginários: ela nos mostra quem devemos temer, quem pode ser vigiado, quem pode sofrer uma intervenção e, principalmente, quem aparece ocupando o lugar daquele que supostamente protege a democracia.
E isso me incomoda porque a história da América Latina torna impossível tratar palavras como “intervenção”, “segurança” e “defesa da democracia” como expressões politicamente inocentes. Os Estados Unidos têm uma longa história de interferência na região, apoiando direta ou indiretamente governos, golpes, operações clandestinas e políticas alinhadas aos seus interesses estratégicos. Isso não significa transformar qualquer governo que se oponha aos Estados Unidos em democrático, muito menos ignorar o autoritarismo venezuelano apenas porque Washington se coloca contra ele. Essa simplificação seria tão problemática quanto aquela que estou criticando. O que me interessa é justamente recusar essa divisão confortável do mundo entre mocinhos e vilões. Quando Lioness naturaliza determinadas ameaças e apresenta a máquina militar norte-americana como aquela que, apesar de seus excessos, continua autorizada a decidir quando e onde agir, eu me pergunto:
quem concedeu esse lugar aos Estados Unidos? Quem determina quais governos representam perigo para a democracia? E por que algumas violações justificam sanções, operações e intervenções enquanto outras são toleradas quando praticadas por aliados?
A série fica muito mais interessante para mim quando provoca essas perguntas do que quando oferece suas próprias respostas.
É justamente aqui que meu olhar volta para o Brasil e para a eleição que temos diante de nós. Nos últimos anos aprendemos, ou deveríamos ter aprendido, que a extrema direita não precisa anunciar que pretende destruir a democracia. Ao contrário, pode falar incessantemente em liberdade, povo, patriotismo, segurança, família e até democracia enquanto trabalha para enfraquecer instituições, transformar grupos sociais em inimigos, desacreditar eleições e restringir direitos. E é por isso que me preocupa quando repetimos discursos políticos importados sem perguntar a quem eles servem. Defender a democracia brasileira não significa escolher automaticamente um lado em todas as disputas internacionais, muito menos silenciar críticas à esquerda, ao governo Lula, ao PT ou às próprias limitações da democracia que construímos. Eu mesmo considero fundamental perguntar que democracia é essa em um país no qual dinheiro, raça, gênero, território e classe continuam determinando de maneira brutal quem consegue participar efetivamente da vida pública. Mas reconhecer que nossa democracia é incompleta não significa considerar indiferente quem governa. Há uma diferença enorme entre lutar para radicalizar uma democracia insuficiente e entregar suas instituições a quem trabalha para reduzir ainda mais o espaço democrático.




