Terra da Máfia (MobLand) começa como uma história sobre duas famílias criminosas londrinas, os Harrigan e os Stevenson, entrando em uma guerra capaz de destruir seus negócios e suas próprias vidas. No centro está Harry Da Souza, interpretado por Tom Hardy, uma espécie de solucionador de problemas dos Harrigan, enquanto Conrad e Maeve Harrigan, vividos por Pierce Brosnan e Helen Mirren, comandam uma família na qual poder, dinheiro, violência e parentesco praticamente não podem ser separados. Mas, enquanto assistia, percebi que comecei a prestar atenção em outra coisa. Por trás dos assassinatos, das ameaças e das disputas pelo controle daquele império, eu via casamentos, filhos, amantes, desejos, ressentimentos e relações construídas durante anos. A série me interessou para além da história sobre o crime organizado. Em algum momento, comecei a prestar menos atenção em quem controlaria os negócios da família e passei a me perguntar:
quem possui poder dentro de uma relação amorosa?
Eu gosto da ideia de que amamos livremente. Gosto de pensar que duas pessoas se escolhem, constroem uma vida juntas e estabelecem entre si relações de cumplicidade, desejo, confiança e lealdade. Mas também sei que ninguém chega ao amor como uma folha em branco. Eu levo para minhas relações minha história, meus medos, meus desejos, minha relação com dinheiro, sexo, família, abandono, segurança e liberdade, assim como a outra pessoa leva tudo isso consigo. E foi assistindo a Terra da Máfia que comecei a pensar novamente que poder não significa necessariamente alguém dando ordens enquanto outra pessoa obedece.
O poder pode estar em quem possui mais dinheiro, em quem pode abandonar a relação com menos perdas, em quem ameaça ir embora, em quem controla determinados segredos, em quem decide quando haverá proximidade ou distância ou mesmo em quem consegue fazer com que a outra pessoa permaneça constantemente em dívida.
O que me interessa na série é justamente o exagero dessas relações, porque ele torna visíveis engrenagens que, fora daquele universo criminoso, podem funcionar de maneiras muito mais silenciosas. Posso amar alguém e tentar controlá-lo. Posso proteger e, ao mesmo tempo, limitar. Posso permanecer por amor, mas também por medo daquilo que perderia se partisse. Amor e poder não são necessariamente opostos.




