🍿 Pipoca na manteiga: hoje o filme é sobre nós!
Existe algo profundamente desconcertante na história da humanidade: nem sempre as pessoas lutam pela liberdade. Às vezes, pedem mais controle. Nem sempre se revoltam contra quem as oprime. Às vezes, defendem quem aperta as correntes. E, em determinados momentos, chegam a desejar que outras pessoas também sejam submetidas, silenciadas ou privadas de direitos. Como explicar esse estranho paradoxo? Por que alguém desejaria uma ordem que limita a própria liberdade? E por que a repressão pode parecer tão sedutora quando se apresenta vestida de segurança, tradição, moralidade ou patriotismo?
A pergunta não é nova, mas continua queimando como pipoca esquecida no fundo da panela. O psicanalista Wilhelm Reich já se perguntava por que as massas desejavam o fascismo. Décadas depois, Gilles Deleuze e Félix Guattari retomaram essa inquietação em O Anti-Édipo, publicado em 1972, para desafiar explicações que tratavam as pessoas apenas como vítimas passivas da manipulação ideológica. A questão era mais incômoda: e se precisássemos investigar não somente como o poder nos domina, mas também como nossos desejos podem participar da manutenção da dominação?
É desconfortável pensar nisso. É muito mais fácil imaginar que o autoritarismo sempre vem de fora, encarnado em um líder, em um partido, em uma instituição ou em alguém que identificamos como inimigo. Assim, o problema parece distante, localizado no outro lado da rua, da tela ou da urna. Mas Deleuze e Guattari nos convidam a olhar também para os mecanismos cotidianos pelos quais aprendemos a desejar hierarquias rígidas, obediência e punição. O fascismo não se resume ao regime que toma o Estado; existe também o risco de pequenas práticas autoritárias atravessarem nossas relações, nossos afetos e nossas maneiras de pensar.
O desejo também é político
Em O Anti-Édipo, Deleuze e Guattari rompem com a ideia de que o desejo seja apenas uma falta individual, uma busca por aquilo que não temos. Para eles, o desejo é produção: conecta pessoas, instituições, relações sociais, práticas econômicas e formas de vida. Não desejamos isolados do mundo. Nossos desejos são atravessados pela sociedade em que vivemos, pelas histórias que ouvimos, pelos medos que aprendemos e pelas promessas que nos oferecem.
É justamente aí que a discussão se torna política. Quando a insegurança cresce, quando o futuro parece ameaçador e quando a complexidade do mundo nos deixa sem respostas fáceis, propostas autoritárias podem surgir como soluções sedutoras. Um líder promete restaurar a ordem. Um discurso oferece culpados para problemas complexos. Uma ideologia divide a sociedade entre pessoas consideradas dignas de proteção e outras apresentadas como ameaças. De repente, a promessa de segurança vem acompanhada da exigência de obediência.
O problema não é desejar segurança, estabilidade ou pertencimento. Todos precisamos de alguma forma de proteção e de vínculos. O perigo começa quando essas necessidades são mobilizadas para justificar a perseguição, a exclusão e a retirada de direitos. Quando a tranquilidade de alguns depende da humilhação de outros, precisamos perguntar que tipo de paz está sendo oferecida. E a quem ela custa a liberdade?
O fascismo não mora apenas nos livros de História
Quando pensamos em fascismo, costumamos lembrar de regimes totalitários, grandes líderes, uniformes, propaganda e violência de Estado. Essa dimensão histórica e institucional é fundamental. Podemos chamá-la, de maneira geral, de dimensão macropolítica do autoritarismo. Mas Deleuze e Guattari também nos ajudam a pensar nas formas micropolíticas de poder: nos hábitos, nos afetos e nas relações em que a vontade de controlar o outro começa a parecer natural.
É o impulso de querer que todo mundo pense igual. É a dificuldade de reconhecer direitos para quem vive de maneira diferente. É transformar divergência em ameaça e diferença em motivo de desprezo. É defender a liberdade quando ela nos favorece, mas pedir censura quando alguém diz algo de que não gostamos. É exigir respeito para o nosso grupo enquanto tratamos os demais como se não merecessem respeito algum.
Isso não significa que qualquer discordância seja fascista, nem que todos os conflitos cotidianos tenham a mesma gravidade de um regime autoritário. Significa reconhecer que práticas de intolerância e desejo de dominação podem criar raízes na vida comum, tornando certas formas de violência socialmente aceitáveis.
O microfascismo começa a se tornar uma questão para nós quando deixamos de perguntar se determinada prática respeita a liberdade e passamos a perguntar apenas se ela pune as pessoas de quem não gostamos. Nesse momento, a democracia corre o risco de se transformar em uma palavra bonita que usamos para defender apenas os nossos próprios interesses.
E quando desejamos as nossas próprias correntes?
Talvez a pergunta mais difícil seja esta: por que alguém pode apoiar discursos ou estruturas que restringem direitos, inclusive direitos que também protegem essa pessoa?
Não existe uma única resposta. Medo, ressentimento, desigualdade, propaganda, pertencimento social, experiências de insegurança e interesses materiais podem participar dessas escolhas de maneiras diferentes. Deleuze e Guattari acrescentam uma provocação: não basta compreender como as estruturas de poder nos influenciam; precisamos investigar como nossos próprios desejos podem se conectar a elas.
Às vezes, a promessa de uma sociedade simples parece mais confortável do que a responsabilidade de conviver com diferenças. A obediência pode parecer mais segura do que a liberdade. A punição do outro pode produzir uma sensação passageira de justiça, mesmo quando não resolve o problema que a provocou. E encontrar um culpado pode ser emocionalmente mais fácil do que enfrentar as contradições de uma realidade complexa.
Mas uma sociedade democrática não é aquela em que todos pensam igual. É aquela em que nossas diferenças não precisam ser resolvidas pela força, pela censura ou pela eliminação dos direitos de quem discorda de nós. A liberdade não exige que abandonemos nossas convicções; exige que reconheçamos que elas não nos autorizam a retirar a humanidade dos outros.
Por isso, a pergunta de Deleuze e Guattari não deveria servir apenas para examinarmos as escolhas alheias. Ela precisa voltar para nós. Em quais momentos desejamos controlar em vez de dialogar? Quando confundimos discordância com ameaça? Até que ponto defendemos princípios democráticos mesmo quando eles protegem pessoas cujas ideias rejeitamos? E será que conseguimos reconhecer nossos próprios impulsos autoritários antes de apontá-los nos outros?
Esperançar é construir outra possibilidade
A palavra esperançar ficou especialmente associada ao educador e filósofo brasileiro Paulo Freire, sobretudo à sua obra Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido, publicada em 1992. É importante, porém, fazer uma distinção: não há fundamento para afirmar que Freire tenha inventado o verbo. Sua contribuição foi fortalecer seu sentido político e transformador, contrapondo a esperança passiva — aquela que apenas espera que as coisas mudem — à esperança que se movimenta, luta, constrói e age coletivamente. Na perspectiva freiriana, ter esperança não significa fechar os olhos para a realidade, mas reconhecer suas contradições e participar de sua transformação. Afinal, diante do autoritarismo, da intolerância e da ameaça aos direitos, esperar que alguém resolva tudo por nós não basta. É preciso esperançar: despertar, unir forças e agir pela liberdade e pela democracia.
É aqui que a esperança precisa deixar de ser uma palavra decorativa. Esperar que tudo melhore, sem transformar nossas práticas, pode nos deixar imóveis diante do mundo. Esperançar, no sentido de uma esperança que se faz ação, é participar da construção de outras possibilidades: cultivar pensamento crítico, fortalecer vínculos, defender direitos, criar espaços de diálogo e recusar a desumanização como método político.
A democracia não sobrevive apenas porque está escrita na Constituição ou porque comparecemos às urnas.
Ela também depende do que fazemos entre uma eleição e outra: de como tratamos quem discorda, de como reagimos à violência, de quais direitos estamos dispostos a defender e de que limites aceitamos impor ao poder. Ela precisa de instituições, participação, informação confiável e responsabilidade coletiva. Precisa, sobretudo, de pessoas dispostas a não confundir a vitória do próprio grupo com a autorização para fazer qualquer coisa.
E união não significa apagar diferenças, fingir que injustiças não existem ou exigir que pessoas vulnerabilizadas permaneçam em silêncio para manter uma falsa harmonia. Não há união democrática quando alguns precisam abrir mão de sua dignidade para serem aceitos. A união de que precisamos é aquela que permite agir coletivamente sem exigir que todos tenham a mesma história, a mesma identidade ou todas as mesmas opiniões.
É possível discordar e continuar reconhecendo direitos. É possível disputar projetos de sociedade sem transformar adversários em inimigos a serem destruídos. É possível defender convicções firmes sem abandonar a capacidade de escutar, avaliar argumentos e rever posições diante de evidências. E é possível reconhecer que a liberdade de uma sociedade não se mede apenas pela liberdade de quem está no poder, mas também pela proteção oferecida a quem tem menos poder.
O filme ainda está acontecendo. E nós fazemos parte dele.
Talvez o grande alerta de Deleuze e Guattari seja justamente este: o autoritarismo não se sustenta apenas pela força de quem manda. Ele também pode encontrar apoio em desejos, medos e práticas que tornam a submissão aceitável e a exclusão desejável. Reconhecer isso não significa culpar igualmente todas as pessoas, ignorar as desigualdades de poder ou minimizar a responsabilidade de quem promove a violência. Significa ampliar nossa capacidade de compreender como a dominação se reproduz — e como podemos interromper esse processo.
Não precisamos concordar em tudo para defender a democracia. Precisamos reconhecer que ninguém deveria perder seus direitos por pertencer a uma minoria, por amar de determinada maneira, por professar uma religião, por não ter religião ou por pensar diferente. Precisamos compreender que a dignidade humana não pode depender da aprovação da maioria. E precisamos perceber que uma sociedade na qual qualquer pessoa pode ser a próxima a perder direitos é uma sociedade em que ninguém está completamente protegido.
A pergunta, portanto, não é somente por que as massas desejam a repressão. É também o que estamos fazendo, individual e coletivamente, para que a liberdade seja uma experiência compartilhada, e não um privilégio reservado a alguns.
Esperançar é despertar para a responsabilidade de construir o mundo que desejamos habitar. É não entregar nossos medos a quem promete resolvê-los perseguindo outras pessoas. É transformar a indignação em participação, a diferença em diálogo e a solidariedade em prática.
Porque, se o desejo pode ser capturado por projetos de dominação, também precisamos criar condições para que ele se conecte à liberdade, à cooperação e à vida em comum.
Que a gente não deseje a repressão como remédio para o medo. Que não confunda obediência com paz, silenciamento com harmonia ou exclusão com justiça. Que a gente desperte, converse, participe e se una na defesa da democracia — não porque somos iguais, mas porque a dignidade de cada pessoa importa.
O mundo não muda apenas quando trocamos os personagens que ocupam o poder. Muda também quando deixamos de reproduzir, nas nossas relações, a lógica de dominação que dizemos combater.
Esperançar é isso: não esperar que alguém nos conceda a liberdade, mas trabalhar juntos para que ninguém precise viver sem ela.
Como já é tradição por aqui, esta edição do Pipoca na Manteiga termina com algumas recomendações:
🎬 Cinema: A Onda (2008), de Dennis Gansel. Inspirado em um experimento social, o filme acompanha um professor que tenta demonstrar aos seus alunos como se forma um regime autoritário. O que começa como uma atividade pedagógica se transforma em uma experiência perturbadora sobre obediência, pertencimento, identificação coletiva e desejo de poder. É uma excelente companhia para esta edição porque nos confronta com uma pergunta desconfortável: por que pessoas aparentemente comuns podem encontrar satisfação na submissão a uma autoridade?
📚 Literatura: O colapso do pensamento: Hannah Arendt, a banalidade do ódio e o Brasil no bolsonarismo , de Cristian Abreu de Quevedo. Nesta edição, quero indicar uma obra de minha autoria que dialoga diretamente com as questões que venho levantando. Partindo do pensamento de Hannah Arendt, especialmente de suas reflexões sobre a banalidade do mal, a responsabilidade individual e a atividade de pensar, o livro investiga as relações entre pensamento, ódio e autoritarismo no contexto brasileiro. É uma leitura que proponho para refletirmos sobre o que acontece quando deixamos de questionar aquilo que nos dizem, quando a violência passa a ser naturalizada e quando o pensamento crítico cede espaço à obediência.
🛋️ Psicanálise: O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Esta é a recomendação que atravessa toda a edição. Os autores questionam a ideia de que o desejo seja apenas uma experiência individual e investigam como ele participa da produção das relações sociais e políticas. A obra nos ajuda a pensar por que a repressão pode ser desejada, por que a obediência pode oferecer satisfação e como estruturas autoritárias encontram sustentação também nos afetos e nas relações cotidianas. Uma leitura exigente, mas fundamental para compreender que não basta perguntar quem nos domina; precisamos investigar também como nossos desejos podem contribuir para sustentar aquilo que nos oprime.
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