Há quem acredite que literatura e política não devem se misturar, que eleições não interferem na liberdade de escrever e que governos passam enquanto os livros permanecem. Será?
Tenho visto escritoras, escritores e outras pessoas do meio literário afirmarem que política não importa, que não devemos misturar literatura com eleições ou que a chegada de um governo de extrema direita não interfere na vida de quem escreve. Mas será mesmo? Será que a política não importa quando determina quais livros chegam às escolas, quais manifestações artísticas recebem financiamento, quais histórias são consideradas legítimas e quais identidades passam a ser tratadas como ameaças? A história está repleta de exemplos que deveriam nos impedir de tratar essa discussão com indiferença.
O nazismo promoveu a queima pública de livros em 1933; regimes autoritários perseguiram intelectuais, censuraram obras e transformaram a produção cultural em alvo de vigilância. No Brasil, a ditadura militar também censurou escritoras, escritores, jornalistas e artistas. Não estamos falando de acontecimentos tão distantes que possam ser reduzidos a curiosidades históricas. Estamos falando de memória, de liberdade e das condições materiais que permitem que a literatura exista. E, se a história nos ensina alguma coisa, é que a liberdade de escrever não está garantida simplesmente porque hoje ainda podemos publicar.
Hannah Arendt dedicou parte fundamental de sua obra a compreender como a destruição do espaço público, do pluralismo e da possibilidade de agir politicamente pode abrir caminho para formas autoritárias de poder. Simone de Beauvoir mostrou que a condição das mulheres não pode ser compreendida separadamente das estruturas sociais que organizam suas possibilidades de existência. E bell hooks insistiu na importância de pensar educação, cultura, raça, gênero e relações de dominação de maneira articulada.
Quando leio essas pensadoras, não consigo aceitar a ideia de que literatura e política habitam mundos separados.
Importa, sim, quem governa. Importa quem pode escrever, quem consegue publicar, quem tem acesso aos livros e quem encontra sua própria existência representada nas páginas.
Importa para mulheres, pessoas LGBTQIA+, pessoas negras, indígenas, jovens, pessoas idosas e para todas aquelas cuja participação cultural e social é atravessada por desigualdades. Não estou dizendo que toda literatura precisa defender um partido ou transformar-se em propaganda eleitoral. Estou perguntando algo muito mais fundamental: de que liberdade literária estamos falando quando ignoramos as condições políticas que tornam possível, ou impossível, exercê-la?
E é justamente por isso que considero impossível separar a literatura das eleições que estamos vivendo. A disputa presidencial entre Lula e seus adversários acontece agora diante de um Senado cuja composição foi profundamente alterada nas eleições de outubro, com o PL projetado como a maior bancada a partir de 2027. Não se trata de uma questão distante da vida de quem escreve: o Senado participa da elaboração das leis, da definição do orçamento e da aprovação de autoridades que integram instituições fundamentais da República.
São decisões que podem repercutir sobre políticas culturais, educação, direitos civis e liberdade de expressão. A própria Constituição brasileira proíbe a censura política, ideológica e artística, uma garantia que depende da atuação das instituições democráticas. E isso também diz respeito a quem publica aqui no Substack, inclusive a mim. Quando escrevemos sobre sexualidade, gênero, religião, desigualdade ou política, exercemos direitos que não existem independentemente da história e das instituições. Por isso, a pergunta que deixo não é apenas quem ocupará a Presidência, mas também que leis serão aprovadas, que direitos serão protegidos e que condições existirão para continuarmos escrevendo, discordando e publicando livremente. A política não começa quando decidimos escrever sobre ela. Ela já está presente nas condições que nos permitem escrever.
E para não termos dúvidas: é LULA 13!
Como já é tradição por aqui, esta edição do Pipoca na Manteiga termina com algumas recomendações:
🎬 Cinema: Fahrenheit 451 (1966), de François Truffaut. Baseado no romance de Ray Bradbury, o filme apresenta uma sociedade autoritária na qual os livros são proibidos e queimados. Uma obra que nos convida a pensar sobre censura, controle do pensamento e o perigo de uma sociedade que passa a considerar a leitura e a reflexão como ameaças.
📚 Literatura: O Conto da Aia (1985), de Margaret Atwood. Uma distopia perturbadora sobre uma sociedade teocrática e autoritária na qual os direitos das mulheres são sistematicamente retirados e seus corpos submetidos ao controle do Estado. A leitura conversa diretamente com esta edição porque nos lembra que o controle sobre a linguagem, a sexualidade, a reprodução e a liberdade individual pode fazer parte de um mesmo projeto político.
🛋️ Psicanálise: Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), de Sigmund Freud. Freud investiga como se constituem os vínculos entre indivíduos, grupos e lideranças, discutindo identificação, idealização e autoridade. É uma leitura especialmente interessante para pensar por que determinadas figuras políticas mobilizam adesões tão intensas e como a identificação coletiva pode modificar a relação das pessoas com o pensamento crítico e a própria autonomia.
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quem escreve tem o DEVER de acompanhar a política... não podemos esquecer que as artes sempre foram as primeiras formas de expressão suprimidas...