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Pipoca na manteiga #53 — O Que É Isso, Companheiros e Companheiras?

Será que aprendemos alguma coisa com a nossa própria História?

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out 31, 2026
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A memória da ditadura e o Brasil do bolsonarismo: o que muda e o que permanece?

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Em 1979, Fernando Gabeira publicou O que é isso, companheiro?, livro autobiográfico no qual revisita sua participação na resistência à ditadura militar brasileira. A narrativa nos leva ao final dos anos 1960, especialmente ao período posterior à decretação do AI-5, quando a repressão política, a censura e a perseguição faziam parte da realidade do país. Gabeira relata sua experiência na militância clandestina e sua participação no sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, organizado por integrantes do MR-8 e da Ação Libertadora Nacional. O objetivo era negociar a libertação de presos políticos. Mais do que contar uma operação de resistência, o autor revisita as escolhas de uma geração que se viu diante de um regime autoritário e encontrou na luta política uma possibilidade de enfrentamento. O livro também carrega dúvidas, contradições e uma boa dose de autocrítica.

Não é uma fotografia heroica da militância, mas o relato de alguém que participou dos acontecimentos e, anos depois, decidiu escrever sobre eles.

Em 1997, Bruno Barreto levou a história para o cinema. Com Pedro Cardoso, Fernanda Torres, Selton Mello e Alan Arkin no elenco, O Que É Isso, Companheiro? apresenta ao público uma versão cinematográfica do sequestro do embaixador e dos conflitos vividos pelos militantes durante a ditadura. O filme acompanha a organização da ação, a clandestinidade, as tensões internas e a negociação pela libertação dos presos políticos. Como toda adaptação, toma decisões narrativas, altera aspectos da história e constrói personagens para a linguagem cinematográfica. Não substitui o livro, nem pretende ser um documentário. É uma obra que merece ser assistida, inclusive pelas discussões que provocou sobre a representação da resistência armada e da memória política brasileira. E, para quem gosta de cinema, há algo interessante nesse encontro entre literatura, memória e ficção: a História ganha rostos, vozes e cenas, mas continua carregando as perguntas que o tempo não resolveu.

Corta para 2026. O Brasil continua discutindo a ditadura, a democracia e o significado de liberdade. O bolsonarismo trouxe novamente ao centro do debate público discursos de exaltação ao regime militar, pedidos de intervenção das Forças Armadas e questionamentos sobre as instituições democráticas. Não estamos vivendo 1969, e comparar diretamente os dois períodos seria ignorar diferenças históricas importantes. Mas a memória da ditadura não pode ser tratada como uma lembrança inconveniente, muito menos como uma espécie de passado glorioso. Quando manifestações políticas pedem intervenção militar, quando a repressão é relativizada e quando direitos fundamentais são apresentados como ameaças à ordem, o debate deixa de ser apenas sobre História. Passa a dizer respeito ao país que estamos construindo. O curioso é que, depois de tantos anos, ainda precisamos explicar por que uma ditadura não é uma alternativa política, por que a tortura não é método de governo e por que democracia não significa liberdade apenas para quem pensa como nós.

Algumas lições não foram assimiladas; outras são deliberadamente esquecidas.

E o que fazemos com essa memória? Por que ainda encontramos discursos que tratam a ditadura como uma época de ordem e segurança, apagando a censura, a perseguição, as prisões e a violência de Estado? Como alguém pode defender a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, desejar o silenciamento de quem pensa diferente? Como se constrói uma sociedade democrática quando parte do debate público transforma adversários políticos em inimigos que precisam ser eliminados da vida social? Não se trata de exigir que todos pensem igual, votem igual ou compartilhem as mesmas convicções.

A democracia não é uma reunião de pessoas que concordam sobre tudo.

É justamente o espaço em que as diferenças podem existir sem que alguém precise perder seus direitos por causa delas. E isso vale também quando a opinião do outro nos incomoda profundamente.

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