“Um por todos e todos por um!”
Revi recentemente Os Três Mosqueteiros (1993), dirigida por Stephen Herek, com Chris O’Donnell como D’Artagnan, Kiefer Sutherland como Athos, Charlie Sheen como Aramis e Oliver Platt como Porthos. A obra fílmica conta com três atrizes que de grande gabarito: Rebecca De Mornay, como Milady de Winter; Gabrielle Anwar, como a rainha Anne; e Julie Delpy, como Constance Bonacieux. Três personagens femininas com posições distintas na trama, fundamentais para os conflitos e os caminhos da aventura.
O filme acompanha a chegada do jovem D’Artagnan a Paris, decidido a integrar a guarda de elite do rei, mas encontra uma França na qual os mosqueteiros foram oficialmente dissolvidos por ordem do ambicioso Cardeal Richelieu. Ao conhecer Athos, Porthos e Aramis, ele se envolve em uma trama política para impedir que o cardeal concentre ainda mais poder e ameace a monarquia. A produção é uma adaptação da obra Os Três Mosqueteiros, publicada por Alexandre Dumas em 1844, e tem uma característica que me interessa particularmente: por trás das aventuras, dos duelos e das cenas de humor, está uma história sobre amizade, lealdade, ação coletiva e política. Você sabe o que significa a Flor-de-lis no filme?
E preciso confessar: muitas ideias da mesa de RPG da IS estavam ali e hoje vejo claramente isso e até senti um certo saudosismo (quem me conhece sabe que isso é raro: sentir saudade do passado).
A formação de um grupo de personagens tão diferentes, cada qual com sua história, suas habilidades, seus conflitos e suas convicções, mas capazes de se unir diante de um desafio maior, faz parte daquilo que há décadas me encanta nas narrativas de aventura. Não é preciso que todos sejam iguais para que possam lutar lado a lado.
A história original de Dumas se passa na França de 1625, durante o reinado de Luís XIII e o ministério do Cardeal Richelieu. Era um período de disputas pelo fortalecimento do poder monárquico, conflitos entre a Coroa e setores da nobreza, tensões religiosas e disputas políticas que ultrapassavam as fronteiras francesas. Richelieu procurava consolidar a autoridade real, enquanto a França também estava envolvida em conflitos europeus e em disputas internas, como aquelas que culminariam no cerco de La Rochelle, entre 1627 e 1628. Dumas, porém, escreveu seu romance mais de dois séculos depois, em 1844, durante a Monarquia de Julho, um período também marcado por tensões políticas e transformações sociais. Essa distância histórica é interessante: o autor recupera personagens e acontecimentos do passado para construir uma aventura que também conversa com as inquietações de seu próprio tempo.
A política, portanto, nunca foi apenas um cenário decorativo para a história dos mosqueteiros. Ela determina os conflitos, estabelece alianças, produz perseguições e coloca em disputa diferentes projetos de poder. É nesse ambiente que a amizade dos quatro personagens ganha significado: eles não estão apenas vivendo aventuras individuais, mas enfrentando acontecimentos que exigem decisões e responsabilidades compartilhadas.
Também gosto de pensar em Os Três Mosqueteiros a partir da intermidialidade, isto é, das relações e transformações que acontecem quando uma narrativa atravessa diferentes meios e linguagens. A obra de Dumas nasceu como romance publicado em folhetins, passou por inúmeras adaptações para o teatro, o cinema e a televisão e continua encontrando novas formas de chegar ao público. Cada versão seleciona, reorganiza e interpreta os elementos da história a partir das possibilidades de sua própria linguagem.
O filme de 1993, por exemplo, transforma a aventura literária em uma narrativa cinematográfica de ação, com duelos, humor, romance e uma trilha sonora que ficou marcada pela canção All for Love, interpretada por Bryan Adams, Rod Stewart e Sting. Uma história escrita no século XIX, ambientada no século XVII, continua alimentando a imaginação de pessoas que vivem no século XXI.
E o que os mosqueteiros podem nos dizer sobre o Brasil de hoje? Não estou propondo uma comparação direta entre a França de Luís XIII e o nosso país, nem imaginando que a solução para os nossos problemas seja sair por aí com espadas. Mas o lema que atravessou gerações, um por todos e todos por um, me parece especialmente importante quando observo uma sociedade tão marcada pela polarização, pelo individualismo e pela dificuldade de construir objetivos coletivos. Vivemos um tempo em que muitas vezes somos estimulados a enxergar quem pensa diferente como inimigo, a tratar direitos como privilégios e a acreditar que os problemas de uma parte da sociedade não dizem respeito às demais. Mas o que acontece quando deixamos de reconhecer que a liberdade de uma pessoa também depende da liberdade das outras?
Quando a violência atinge determinados grupos, quando a cultura é desvalorizada, quando a educação perde espaço ou quando direitos são colocados em disputa, isso não deveria ser tratado como um problema exclusivo de quem está diretamente atingido.
Uma sociedade democrática exige diferenças, divergências e disputas políticas, mas também exige responsabilidade coletiva. Não precisamos pensar da mesma maneira para reconhecer que existem princípios que precisam ser defendidos em comum.
Gosto tanto de histórias sobre grupos que se formam a partir das diferenças. Athos, Porthos, Aramis e D’Artagnan não são personagens intercambiáveis. Cada um possui sua personalidade, seus interesses, suas contradições e sua maneira de enfrentar o mundo. A união entre eles não depende de apagar essas diferenças, mas de encontrar algo que justifique caminhar juntos. E essa é uma das coisas que o RPG também me ensinou ao longo de tantos anos: uma boa aventura não é construída por uma única pessoa, mesmo quando existe alguém conduzindo a narrativa. Ela depende da participação, das escolhas e da disposição de cada integrante para construir algo que ultrapasse sua própria personagem. No fim, fico pensando que o lema dos mosqueteiros talvez seja muito mais do que uma frase de efeito para encerrar um duelo. É uma maneira de compreender a vida em sociedade.
Não precisamos ser iguais, concordar em tudo ou desejar exatamente o mesmo futuro. Mas precisamos compreender que ninguém deveria ser abandonado à própria sorte quando aquilo que está em jogo diz respeito a todos nós: “Um por todos e todos por um!”





