Bom dia!
Escrever nunca é um gesto solitário. Há sempre muitas pessoas caminhando conosco, mesmo quando escrevemos aparentemente sozinhos, a nossa mente está recheada delas. E escrever O colapso do pensamento: Hannah Arendt, a banalidade do ódio e o Brasil no bolsonarismo, foi me permitir dialogar com muitas pessoas
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Gostaria de começar contando um sonho que tive há alguns meses, justamente depois que o livro já estava publicado. Acordei bastante estranho naquela manhã. No sonho, eu estava em uma espécie de evento, talvez uma conferência ou uma festa, um espaço público com muitas pessoas. Logo na entrada havia vários policiais, mas eles não organizavam nada. Pelo contrário, discutiam entre si. Eu entrava naquele lugar porque precisava participar de um painel, precisava apresentar uma ideia. Em determinado momento, um homem começou a me confrontar, discordando do que eu dizia. A discussão foi aumentando e eu mesmo passei a provocá-lo. Lembro de dizer algo como: "Vai me bater? É isso que você quer? Então vai." O curioso era que toda aquela cena acontecia diante da polícia, e ninguém fazia absolutamente nada. Não havia mediação, não havia autoridade, não havia alguém que organizasse aquele conflito. Acordei profundamente incomodado, sem compreender exatamente por que havia sonhado aquilo.
Hoje, olhando para esse sonho com mais distância, penso que ele dizia muito menos sobre um medo pessoal e muito mais sobre o tempo histórico em que vivemos. O sonho começava justamente pela polícia discutindo entre si. A própria instância que simbolicamente deveria representar a ordem aparecia dividida, incapaz de produzir consenso. Isso me fez pensar muito em Hannah Arendt. Grande parte da sua obra procura compreender justamente o que acontece quando os referenciais comuns começam a desaparecer, quando as instituições deixam de funcionar como lugares de mediação e quando a própria realidade compartilhada passa a ser fragmentada. O sonho não era uma ilustração de Arendt, evidentemente, mas parecia dialogar profundamente com as perguntas que ela nos deixou.
Também me chamou atenção o fato de que, no sonho, eu não era um espectador. Eu ocupava um painel. Eu precisava falar. E era justamente a palavra que produzia o conflito. Em vez de haver um debate, a discussão caminhava para a violência. Em determinado momento, eu perguntava ao outro: "Vai me bater?". Como se o sonho retirasse todas as máscaras e perguntasse até que ponto ainda estamos dispostos a discutir ideias e em que momento passamos simplesmente a desejar destruir quem pensa diferente. Essa talvez seja uma das questões centrais do nosso tempo. Quando a palavra deixa de produzir pensamento e passa apenas a organizar inimigos, algo muito sério acontece com a vida pública.
Foi justamente tentando compreender esse movimento que nasceu O Colapso do Pensamento: Hannah Arendt, a banalidade do ódio e o Brasil no bolsonarismo. Este não é um livro sobre um partido político específico nem um livro escrito para convencer alguém a votar de uma determinada maneira. É um livro que procura compreender como determinadas formas de pensamento se deterioram, como o espaço público pode ser capturado pelo ódio, pela simplificação, pela destruição do diálogo e pela dificuldade crescente de distinguir realidade, opinião e propaganda. Mais do que oferecer respostas prontas, ele procura formular perguntas que considero urgentes para qualquer sociedade democrática.
Escrever este livro foi também um exercício de responsabilidade intelectual. Vivemos um tempo em que a velocidade muitas vezes substitui a reflexão, em que reagimos antes de compreender e compartilhamos antes de pensar. Se este livro tem alguma pretensão, ela é muito simples: convidar o leitor a desacelerar o pensamento, recuperar a complexidade dos fenômenos políticos e perceber que nenhuma sociedade se torna autoritária de um dia para o outro. Esses processos são lentos, cotidianos e, justamente por isso, muitas vezes passam despercebidos.
Hannah Arendt nasceu em 1906, na Alemanha, em uma família judaica. Estudou filosofia com alguns dos maiores intelectuais do século XX, entre eles Martin Heidegger e Karl Jaspers. Com a ascensão do nazismo, foi presa pela Gestapo, conseguiu fugir da Alemanha, viveu na França e, posteriormente, refugiou-se nos Estados Unidos, onde desenvolveu grande parte de sua obra. Sua experiência pessoal como alguém perseguida por um regime totalitário nunca a levou a abandonar o pensamento. Pelo contrário. Ela fez da reflexão uma forma de resistência e dedicou sua vida a compreender como sociedades inteiras podem perder, pouco a pouco, a capacidade de julgar criticamente os próprios acontecimentos.
Talvez a contribuição mais conhecida de Hannah Arendt seja justamente a ideia da "banalidade do mal", apresentada após acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann. O que a impressionou não foi encontrar um monstro, mas um homem comum, incapaz de pensar criticamente sobre aquilo que fazia. Essa constatação continua profundamente atual. Será que o maior perigo político está apenas nos grandes líderes autoritários? Ou também na nossa capacidade cotidiana de deixar de pensar, de repetir discursos prontos, de abrir mão da responsabilidade de julgar por nós mesmos? O que acontece quando o ódio passa a parecer normal? Quando a mentira deixa de causar espanto? Quando a violência se torna apenas mais um instrumento da disputa política?
São essas perguntas que atravessam este livro. Não para encerrar debates, mas para abri-los. Porque acredito que uma democracia não se fortalece quando todos pensam igual. Ela se fortalece quando pessoas diferentes continuam dispostas a conversar, argumentar, discordar e, sobretudo, pensar. Se este livro conseguir provocar um pouco mais de reflexão, um pouco mais de cuidado com as palavras e um pouco mais de responsabilidade diante do mundo comum que compartilhamos, então ele já terá cumprido sua principal finalidade.
Muito obrigado pela presença de vocês. Espero que esta tarde seja menos um lançamento de livro e mais um convite para pensarmos juntos. É uma alegria enorme compartilhar este momento com cada pessoa que está aqui.
Muito obrigado.
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