Só sei que foi assim #42
Carta de amor junina, impressões literárias e coisas lindas.
O Alienista
por Gabriel Bernardo
São tantas histórias Que o povo fala pra mim Que a noite lá fora Encontram você por aí Algumas vezes penso E tento te esquecer Mas eu te quero Porque amo você
Quero introduzir essa Newsletter com essa poesia romântica belíssima, presente na coletânea Calcinha Preta, Vol.9: Amor da Minha Vida, pessoalmente, uma das obras mais ousadas e bem construídas da banda em toda sua carreira. Quando eu era apenas um garoto esquisito do rock, era difícil admitir o amor que tinha pela banda sem receber comentários ardilosos dos espíritos maldosos do metal. Só que sempre fui um romântico incorrigível, apaixonado e intenso, coisa que me trouxe muito mais conexão ao ouvir Vem Minha Vida do que em qualquer música do The Subliminal Verses.
Tenho grandes expectativas para o mês de junho. Todo ano vivo aventuras incríveis com meus amigos no São João. Obrigado, meu Deus, por ter nascido nordestino! A minha alma é salva cada vez que me junto para dançar um forró, cantar as melhores do Calcinha Preta em um karaokê e beber uma cana boa com melaço. Isso sem falar na emoção de brincar ao redor da fogueira, acender uma chuvinha e ver aquelas faíscas saltitando em direção a uma noite estrelada. Um sonho lindo que sonhei para mim!
Essa é a minha carta de amor para essa época do ano: as comidas típicas, as roupas, as músicas, todo o brilho de uma tradição maravilhosa que já pude viver em diferentes regiões do Nordeste. Se você sentir vontade um dia, recomendo fortemente visitar as festas em Caruaru e em Sergipe, mas também será bem vindo aqui em Maceió. Sinto vibrar o espírito das festividades juninas; ouço o forró ecoando das casas e dos apartamentos, vejo as primeiras fogueiras nascendo nas calçadas e a decoração tomando conta de tudo. Confesso que já estou planejando comprar um chapéu de palha para pendurar na porta do apartamento.
Voltando aos meus compromissos com a IS. Finalizei a leitura das obras originais que foram enviadas ao nosso e-mail ainda no começo do ano, e estou bem feliz com as obras que temos buscado trazer para nossa editora. Tenho caminhado pelo ambiente do inconsciente onde sonhos se manifestam em símbolos e signos potentes, adoro o desafio literário de engajar com propostas diferentes na escrita, tem sido divertido ler cada um dos textos.
Não mexe na minha estante!
Consegui finalizar dois livros dentre os três que trouxe da última vez: Triste Tigre e As palavras não são deste mundo. Ambos foram excelentes jornadas, cada um à sua maneira. Eu poderia dedicar um livro inteiro só para contar a minha experiência com cada um deles, mas preciso ser mais sucinto neste espaço.
Triste Tigre — O livro em si é uma provocação. Atravessamos, ou melhor, somos atravessados por memórias violentas relatadas pela autora do livro, vítima de abuso pelo seu padrasto durante a sua infância e início da adolescência. O caso, levado à justiça anos depois pela escritora já adulta, felizmente resultou na prisão do homem que cometeu atos repugnantes contra a vida de uma criança. Porém, em reflexões da própria autora, nos provoca a questionar se há realmente justiça, se existe algo capaz de minimizar os efeitos causados pelo trauma, e a resposta para isso vou deixar que vocês tentem encontrar, por sua conta e risco, na leitura. Destaco abaixo um dos trechos que me marcaram profundamente durante a leitura:
Como escolher nesse balaio o que eu gostaria de guardar e o que poderia abrir mão para ser mais livre? Eu queria acreditar que cada ser humano, de qualquer classe social, raça, sexo, cultura, vai para vida com este mesmo desafio existencial: desfazer-se do que não quer, consolidar o que o faz crescer. Durante muito tempo eu quis acreditar que podia considerar o estupro da minha infância como um elemento entre outros. No entanto, precisei aceitar o fato de que há uma diferença abissal nas possíveis categoria daquilo que foi feito de nós.
O livro é desafiador pela temática abordada e, para mim, foi um divisor de águas para lidar com meus próprios desafios e traumas.
As palavras não são deste mundo — Este livro reúne diálogos espaçados entre dois amigos íntimos que estão vivendo em duas realidades diferentes do século XIX. Percebo que existe um elemento catalisador no isolamento e distanciamento dos jovens, talvez justamente pela fase em que ambos estão enfrentando no momento em que se separam. Hugo permanecendo focado em seus estudos enquanto vive na cidade convivendo com outros estudantes e a família de seu amigo; enquanto isso, Edgar serve à marinha, rodeado por outros jovens soldados e líderes com atitudes grosseiras.
Suas conversas vão de assuntos banais do cotidiano, como trabalho e estudos, até reflexões profundas sobre literatura, arte e expressões de suas filosofias. Há diversos momentos em que celebro a sensibilidade de Hugo nas cartas ao seu amigo, assim como as tentativas de Edgar em compreender as questões trazidas pelo seu colega que parece tão ocupado com pensamentos sobre a arte e as pessoas da academia. Deixo abaixo algumas das minhas marcações:
Naturalmente, há outro modo de ver as coisas, a gente é só uma peça no todo, e deve-se inserir no todo; mas é tão difícil. Enquanto te escrevo já me sinto melhor, mesmo sabendo que as coisas não mudarão; peguei todas as tuas cartas para ler, elas são mais preciosas que explorar a terra firme
Pois o que realmente interessa, o sentido da existência, pode ser compreendido em qualquer fenômeno inerente apreendido na vida, quer dizer, numa revelação espontânea apanhada num momento e estabelecida com ideias inerentes próprias, com suposições toscas da alma, tanto quanto de um sistema vasto e complexo de análise científica de fenômenos. A soma, porém, das experiências singulares num todo, jamais será possível. A menor das partículas e o maior dos espelhos refletem-se necessariamente e fazem bem um ao outro; sem, contudo, reterem nada em si. Todas as coisas mortas e vivas são seres e querem dizer alguma coisa. O mesmo mar que, se um dia, por acaso, tu quisesses, poderia te matar, te dá continuamente algo menos real do que a morte, algo mais metafórico e, todavia, muito grande: as vibrações mutantes da alma decorrentes da imagem mutante que ele sucinta em ti.
Foram dois livros marcantes para mim, espero que te alcancem também. Conta para mim, quais as suas leituras no momento?
Quem avisa…?
Ultimamente, a equipe está a todo vapor publicando textos. Estou muito feliz em ver as pessoas interagindo entre si, compartilhando e criando novas conexões que nos potencializam. Recentemente, comecei a participar de um laboratório de criação e expressão literária focado em poesia. Nosso primeiro encontro foi enriquecedor e trouxe trocas divertidas e curiosas. Já estou ansioso para os próximos encontros, sejam eles online ou presenciais.
Se você faz parte da equipe do Substack da IS, saiba que já estamos com data marcada para a nossa próxima reunião online. Nela, discutiremos nossas atividades para o fim deste mês e também os projetos futuros. Conto com vocês para continuarmos desenvolvendo essa comunidade!
Reunião Substack IS
Data: 20 de junho (Sábado)
Horário: 9h
📌Mais informações e conteúdos da Casa IS:
🔗 Site: www.imperiossagrados.com.br
📚 Catálogo de livros: estanteis.mycartpanda.com
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