Só sei que foi assim #45
Foz dos jacarés, memórias em cada pedaço da costa e a poesia com Drummond.
O Alienista
por Gabriel Bernardo
Sou uma pessoa muito preguiçosa para a vida online. Diria até despreocupado, se parte do meu trabalho não fosse ler artigos, compartilhar leituras e escrever para quem ainda gosta de blog literário. Sou moleque 99. Participei das ligas de futebol organizadas pelos garotos da rua, batalhas de ximbra que mais pareciam o confronto da Gigantomachia, formado por uma penca de canelas cinzas e pequenas esferas de vidro que continham universos inteiros. Dentre outros fenômenos comuns entre os jovens que brincavam no condomínio da região norte.
O tempo passou devagar demais no posto do Jacaré —assim senti. Os anos ali foram escola para o restante da minha vida, conheci as primeiras características marcantes da minha personalidade, aquelas que me fariam sobreviver a outros eventos futuros. Evitar baculejo na rua. Saber a hora de ir embora em becos apertados. Não rodar de vacilo com coisa que você não viu e nem sabe, é melhor saber fingir bem. Havia códigos e leis próprios a serem seguidos, olhares que não deveriam ser trocados, sentimentos que eram incompatíveis com a dureza das britas.
Tenho amigos que sobreviveram por pouco, outros que não tiveram a mesma sorte. Se é que posso chamar de sorte. Não havia atravessado nem metade do caminho, mas ainda sinto que estou em dívida com a vida. Um acidente inevitável, não virar estatística. Há quem diga que poderia ser pior, e é isso mesmo. Podia ser pior.
Sempre pairou no ar um sentimento estranho de que nada passava despercebido e, ao mesmo tempo, tudo era omisso. Lá do alto do morro, víamos o mundo tão pequeno, lá de baixo os meninos do morro achavam tudo tão alto. Quando retorno para esse mesmo bairro consigo me familiarizar com cada canto daquela pedaço de terra costeiro, mas não é o mesmo brilho nostálgico. Passo pelo muro pixado com o símbolo da CV, vejo sangue escorrendo no chão. Atravesso o posto amarelinho e sinto a mordida da cobra em meu tornozelo.
Não há mais o lixão que antes abrigava os urubus. Via as crianças perambulando pelos montes de dejetos que se formavam, e assisti aquilo virar brincadeira, pipas, peões, carrinhos. Engenhosamente criando maneiras de fazer nascer infância. Anos depois, isso desapareceu, casas foram devastadas devido a enchentes e o bairro foi tomado pela violência. Há quem diga que isso foi planejado, Deus sabe. Os homens que ergueram cada torre no litoral também sabem.
A pergunta que ecoava na minha cabeça foi constantemente reafirmada no futuro, surgiram verdadeiros fantasmas das ruínas e ainda escuto os lamentos daqueles que se foram. Porém, política nunca se discutia. Cada um procurava o seu candidato de estimação para chamar de amigo, tio e até pai. Eu não sei quando comecei a desconfiar dessa tal política que sempre se escondia no silêncio dos apertos de mão e promessas de rádio. O direito de escolha está escorado em um outdoor no meio da cidade e todo mundo sabe, silenciosamente, quem fez parte do projeto dessa cidade.
Espero que Deus realmente veja tudo isso, se o inferno existir possa engolir todos e palitar os dentes.
Não mexe na minha estante!
Tenho frequentado uma oficina de criação poética desde o mês passado. Isso influenciou as minhas leituras diárias, tenho dormido com um livro de Drummond ao meu lado e acordado com a poesia em meus pensamentos. Ela que, as vezes, é pesadelo, mas sempre é sonho. Ponho para o lado o temor de encarar a vida, ergo solitário e um quadro solar queima a minha fronte dizendo —este é um convite que ninguém lhe fará outra vez.
“A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
a pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.”
Fragmento do poema A flor e a Náusea p. 27, A Rosa do Povo. DRUMMOND.
A Rosa do Povo tem me surpreendido em cada nova poesia que enlaça memórias, sentimentos e imagens de um autor experiente, resoluto e que, ao meu ver, se encaminha para fazer dessa flor o seu ato de semeio num momento histórico mundialmente caótico, e na esfera brasileira uma ebulição de ideologias. Empolgado com o rumo dessa obra e desejando conhecer mais o trabalho do garoto Carlos.
Começo a perceber o vislumbre misterioso da poética em seus meandros, afluentes e outros contornos que desaguam em ciclo.
Quem avisa…?
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