Só sei que foi assim #48
De onde vem a vergonha que aprendemos a sentir de nós mesmas?
Tenho passado por uma grande transformação, tanto interna quanto externa.
Talvez, para algumas pessoas, falar sobre cabelo pareça uma bobagem diante de tudo aquilo com que eu poderia, ou deveria, estar preocupada.
Porque, quando comecei a olhar para o meu cabelo de outra maneira, percebi que eu não estava olhando apenas para os meus fios.
Estava olhando para a minha história.
Para a menina que fui.
Para as coisas que ouvi.
Para aquilo que me ensinaram sobre o meu corpo, sobre a minha pele e sobre o que significava ser uma mulher preta.
Desde muito nova, aprendi que algumas características minhas precisavam ser corrigidas.
Não sou capaz de precisar exatamente quando isso começou. Talvez tenha sido nas pequenas frases, nas brincadeiras, nas comparações. Talvez tenha sido naquilo que parecia tão cotidiano que ninguém parava para perguntar se aquilo realmente era engraçado.
Lembro de ouvir que meu cabelo era feio. Especialmente na escola onde a você era classificada se se encaixasse nos padrões.
“Cabelo Bombril.”
E, desde os meus 14 ou 15 anos, comecei a alisar. Não me lembro exatamente da idade, mas me lembro da sensação de que o cabelo natural precisava ser transformado.
Precisava ficar mais comportado.
Mais próximo daquele modelo de cabelo que havia sido ensinado como bonito.
Na minha família, uma tia em específico cantava aquela música que dizia: “Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia?”
Não acredito que ela cantasse aquilo necessariamente com a intenção de me machucar.
Talvez fosse a forma como ela aprendeu a brincar.
Talvez fosse a forma como gerações anteriores aprenderam a lidar com a própria negritude: fazendo piada dela antes que alguém pudesse fazer.
E essa é uma questão que tenho pensado muito.
Nem todo preconceito chega com a intenção declarada de ferir.
Às vezes, ele chega disfarçado de brincadeira.
De carinho.
De costume.
E justamente por isso pode ser tão difícil reconhecê-lo.
Porque quando uma criança ouve repetidamente que seu cabelo é duro, ruim, feio ou difícil de pentear, ela não necessariamente entende aquilo como racismo.
Ela entende como uma verdade sobre si mesma.
E começa a se modificar.
Começa a querer outro cabelo.
Outra pele.
Outro corpo.
Outro jeito de existir.
O cabelo foi apenas uma parte disso.
A cor da pele também carrega uma história.
Ser uma mulher preta é viver em uma sociedade que, durante muito tempo, criou diferentes maneiras de hierarquizar os tons de pele dentro da própria população negra.
O colorismo também ensina.
Ensina que quanto mais clara a pele, mais próxima de determinado padrão de beleza.
Ensina que alguns traços são mais aceitáveis que outros.
Que alguns cabelos são considerados mais “arrumados”.
Que alguns corpos são mais desejáveis.
E isso pode acontecer inclusive dentro das nossas próprias famílias, comunidades e relações.
Às vezes, a violência não está em uma grande declaração explícita de ódio.
Está no comentário sobre o tom da pele de uma criança.
Na comparação entre irmãos.
No elogio àquele que nasceu “mais clarinho”.
Na preferência por determinados traços.
Na tentativa de embranquecer aquilo que é negro.
E há ainda outras dimensões da nossa cultura que também foram atravessadas pelo preconceito.
A dança.
Quantas vezes manifestações culturais negras foram vistas como inferiores, vulgares, primitivas ou inadequadas?
Quantas expressões corporais criadas e preservadas por pessoas negras foram desvalorizadas enquanto outros grupos puderam incorporá-las, ressignificá-las e, muitas vezes, receber reconhecimento por aquilo que não começou com eles?
O corpo negro dançando também carrega uma história.
Dançar pode ser arte.
Pode ser memória.
Pode ser resistência.
Pode ser uma maneira de permanecer vivo quando tantas outras formas de expressão foram silenciadas.
E existe ainda a religião.
Talvez esse seja um dos lugares onde o preconceito se torna ainda mais evidente.
Religiões de matriz africana foram e continuam sendo alvo de intolerância e racismo religioso.
Durante muito tempo, aquilo que vinha da África foi associado ao mal, ao atraso, àquilo que deveria ser escondido ou combatido.
Nossos símbolos foram demonizados.
Nossos rituais foram ridicularizados.
Nossa espiritualidade foi tratada como algo menor.
E isso também ensina uma criança negra a sentir vergonha de partes da própria ancestralidade.
É difícil construir autoestima quando tantas coisas que fazem parte da nossa identidade são apresentadas ao mundo como algo que deveria ser corrigido, escondido ou negado.
Por isso, hoje, quando penso no meu cabelo, penso em muito mais do que cabelo.
Penso em história em ancestralidade.
Por muito tempo eu enxerguei um problema.
Algo que precisava de química.
De escova.
De chapinha.
De controle.
De transformação.
Hoje, estou aprendendo outra coisa.
Estou aprendendo a olhar para os meus fios e reconhecer beleza onde um dia me ensinaram a enxergar defeito.
E não é um processo simples.
Não existe uma manhã em que acordamos completamente livres de tudo o que aprendemos.
As vozes permanecem.
Às vezes, elas aparecem quando olhamos no espelho.
Às vezes, quando comparamos nosso cabelo ao de outra mulher.
Às vezes, quando entramos em um ambiente e pensamos se estamos “arrumadas” o suficiente.
A desconstrução é lenta.
Porque se leva anos para ensinar alguém a não gostar de si, também se leva tempo para reaprender a se amar.
E talvez eu nem queira mais usar a palavra “aceitação” como se eu tivesse que aceitar algo que nunca deveria ter sido considerado errado.
Talvez eu queira falar em reconhecimento.
Reconhecer a mim mesma.
Reconhecer a minha beleza.
Reconhecer a minha pele.
Reconhecer o meu cabelo.
Reconhecer a minha ancestralidade.
Reconhecer a dança, o corpo, a cultura e a espiritualidade negra como lugares de potência, e não de vergonha.
Porque existe uma diferença enorme entre simplesmente aceitar aquilo que somos e compreender que aquilo que nos ensinaram a rejeitar nunca foi o problema.
O problema estava no olhar que colocaram sobre nós.
Estou aprendendo a olhar para aquela menina que talvez tenha aprendido cedo demais a esconder algumas partes de si.
E dizer a ela que o cabelo dela não é ruim.
Que a pele dela não precisa ser mais clara.
Que seu corpo não precisa caber em um padrão.
Que sua dança não é vulgar.
Que sua cultura não é inferior.
Que sua ancestralidade não é motivo de vergonha.
E que ela não precisa pedir desculpas por existir inteira.
Hoje, quando olho para o espelho, ainda estou aprendendo a reconhecer a mulher que está ali.
Mas começo a enxergá-la.
E gosto do que vejo.
Vejo uma mulher preta.
Vejo seus fios.
Vejo sua pele.
Vejo sua história.
Vejo tudo aquilo que tentaram ensinar que deveria ser escondido.
E, finalmente, vejo beleza.
Não a beleza que alguém me autorizou a ter.
Mas a beleza que sempre esteve ali.
A minha.
A nossa.
A coroa que eu passei tantos anos tentando esconder talvez nunca tenha precisado ser escondida.
Talvez eu só precisasse aprender a reconhecê-la.
Não mexe na minha estante!
Essa semana a indicação é a literatura de Djamila Ribeiro “Pequeno Manual Antirracista”.
Inspirado no livro How To Be An Antiracist (como ser um antirracista), do historiador americano Ibram X. Kendi, Djamila se baseou no seu próprio artigo, que ela escreveu para a revista CartaCapital, e que está em seu livro Quem tem medo do feminismo negro, para escrever o Pequeno Manual Antirracista. No livro, a autora optou por uma abordagem mais didática para contextualizar o racismo no Brasil e como ele afeta as atitudes das pessoas. Além disso, o manual traz outras referências de outros autores sobre o tema para ampliar o conhecimento de quem o lê.
Quem avisa…?
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