Por: Cristian Abreu de Quevedo
O Alienista
A notícia de que Dungeons & Dragons ganhará uma nova série live-action na Netflix, desta vez mergulhando em Ravenloft e na origem de Strahd von Zarovich, mexeu comigo por uma coincidência de tempos. Em fevereiro de 2027, nossa Mesa de Jogo da IS completará 30 anos. Trinta anos jogando, criando personagens, atravessando campanhas, inventando histórias e construindo um universo que começou ao redor de uma mesa e que continua crescendo até hoje. Por isso, quando vejo Dungeons & Dragons novamente ocupando espaço fora dos livros e das mesas de RPG, agora por meio de uma produção televisiva de grande porte, não consigo receber essa notícia apenas como alguém interessado em uma nova série. Recebo também como quem olha para trás e percebe há quanto tempo o RPG faz parte da própria vida. E há alguma coisa especialmente bonita em perceber que, depois de tantas transformações na cultura, na tecnologia e na maneira como jogamos, ainda estamos aqui: imaginando mundos juntos.
E antes mesmo de eu compreender direito o que significava jogar RPG, havia Caverna do Dragão. Para muita gente da minha geração, aquele desenho foi uma das primeiras portas para esse tipo de imaginário: um grupo lançado em outro mundo, personagens assumindo papéis diferentes, perigos que surgiam pelo caminho, decisões que precisavam ser tomadas coletivamente e uma aventura que parecia nunca chegar definitivamente ao fim.
É claro que assistir a Caverna do Dragão não era jogar Dungeons & Dragons, mas existia ali uma espécie de convite para imaginar. E acho curioso olhar agora para Ravenloft, com sua proposta de horror gótico e a história de Strahd, e perceber a quantidade de caminhos que esse universo percorreu. O RPG que durante muito tempo parecia pertencer a um nicho atravessou gerações, ganhou jogos eletrônicos, filmes, séries, novas edições e tecnologias, enquanto continuou fazendo aquilo que sempre fez de melhor: colocar pessoas ao redor de uma história que só existe porque alguém aceita imaginá-la junto com outras pessoas.
É inevitável que eu pense nisso olhando para a IS.
Nossa mesa atravessou praticamente três décadas e, nesse percurso, deixou de ser apenas aquela reunião de pessoas que se encontravam para jogar. Asdem cresceu, personagens envelheceram ou morreram, impérios mudaram, campanhas terminaram e outras começaram, o sistema mudou, chegamos ao Pathfinder 2e Remaster e ao Foundry VTT, e aquele mundo inventado coletivamente continuou conosco. Quando fevereiro de 2027 chegar, não estaremos comemorando apenas o aniversário de uma mesa de RPG.
Estaremos olhando para 30 anos de uma história construída por muitas pessoas, algumas que permaneceram, outras que passaram por ela e deixaram alguma coisa pelo caminho. Por isso Ravenloft me levou tão rapidamente a Caverna do Dragão e, de lá, de volta à IS. Há algo que une esses três momentos, apesar de todas as diferenças entre eles: aquela vontade muito simples de entrar em um mundo que não existe, sentar com outras pessoas e, por algumas horas, torná-lo absolutamente real. E pensar que continuamos fazendo isso quase 30 anos depois é, por si só, uma aventura e tanto.
Não mexe na minha estante!
Terminei de ler o “Análise” da psicanalista Vera Iaconelli e é simplesmente e densamente incrível! Bem escrito, sensível e dá uns tapas na cara rsrs Vale cada página. A autora, por meio de uma autobiografia, dialoga com as questões que permeiam o cotidiano, mas indo muito além…
"Comecei minha primeira análise porque meu irmão havia morrido quatro anos antes, meu pai era alcoólatra, minha mãe era submissa a ele e havíamos sido despejados. Não. Comecei porque precisava conversar com algum adulto que fosse confiável, nem que precisasse pagar para isso. Não. (...) Comecei minha análise porque eram treze horas do dia 20 de novembro de 1982 e eu havia marcado uma entrevista com uma analista." Assim Vera Iaconelli dá início à Análise, livro no qual perpassa os acontecimentos e as emoções que a levaram ao divã, sua experiência como analisanda, a formação como psicanalista e a necessidade da escrita.
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