O Alienista
Por: Cristian Abreu de Quevedo
Eu voto em Lula, mas isso não significa que eu considere Lula a resposta para todos os problemas brasileiros, muito menos que concorde com tudo o que seu governo ou o PT fizeram e fazem. Meu voto não exige devoção, e penso que nenhuma escolha política deveria exigir. Lula é hoje candidato à Presidência para um quarto mandato não consecutivo, numa eleição em que enfrenta, entre outros nomes, Flávio Bolsonaro, cuja candidatura foi oficialmente registrada e validada pelo TSE.
Quando digo que voto em Lula, portanto, não estou dizendo que encontrei um candidato perfeito, mas fazendo uma escolha diante das alternativas políticas concretas que existem em 2026. Para mim, há algo anterior às diferenças que tenho com Lula e com o próprio PT: quero continuar vivendo em um país no qual eu possa fazer essas críticas, discordar de um governo, organizar oposição, escrever contra quem ocupa a Presidência e, quatro anos depois, participar novamente de uma eleição na qual o resultado das urnas seja reconhecido. É nesse ponto que minha escolha deixa de depender exclusivamente daquilo que penso sobre Lula e passa pelaquilo que aconteceu no Brasil depois da eleição de 2022. Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF, em 2025, por crimes relacionados à tentativa de permanecer no poder depois da derrota eleitoral, incluindo tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Bolsonaro negou ter liderado uma tentativa de golpe durante o processo.
É também por isso que uso a palavra fascismo com cuidado. Fascismo é uma tradição política autoritária e ultranacionalista que rejeita o pluralismo, cultiva a ideia de uma liderança forte, um mito, transforma adversários políticos em inimigos da nação e subordina instituições e direitos à manutenção de um determinado projeto de poder. Há debates acadêmicos importantes sobre até onde o conceito histórico de fascismo pode ser aplicado aos movimentos contemporâneos, inclusive ao bolsonarismo e ao trumpismo, e não quero apagar essas diferenças chamando tudo simplesmente pelo mesmo nome. O que me preocupa são características autoritárias concretas: a deslegitimação de eleições, a disposição para romper regras constitucionais quando o resultado não interessa, a transformação permanente do adversário em inimigo e a ideia de que apenas a vitória de um determinado grupo seria legítima.
E Donald Trump entra nessa história porque seu apoio ao campo bolsonarista não ficou restrito à afinidade ideológica: seu governo adotou medidas contra o Brasil e autoridades brasileiras relacionadas ao processo contra Jair Bolsonaro, ao mesmo tempo em que aliados de Bolsonaro buscaram apoio nos Estados Unidos. Na campanha de 2026, Lula tem denunciado publicamente tentativas de interferência estrangeira e defendido a soberania do processo eleitoral brasileiro. É diante desse cenário que meu voto em Lula ganha sentido para mim: não porque eu acredite que ele resolva todas as contradições da democracia brasileira, mas porque considero fundamental preservar o terreno democrático no qual eu possa continuar criticando inclusive o próprio Lula.
E então chegamos a Nossa Senhora Aparecida, justamente porque essa história me obriga a aplicar ao meu próprio campo político aquilo que estou exigindo do outro. Circulou nas redes a afirmação de que existiria atualmente uma iniciativa ligada a Flávio Bolsonaro para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Essa informação, até onde sabemos publicamente, é falsa.
Existiu uma proposta semelhante apresentada em 2007, mas ela foi arquivada em 2008; não se trata de uma proposta atual de Flávio Bolsonaro. E isso importa muito para mim. Se estou dizendo que a democracia depende de instituições, de eleições reconhecidas e também de um espaço público no qual possamos discutir a realidade compartilhando minimamente alguns fatos, eu não posso combater a desinformação da extrema direita reproduzindo uma mentira simplesmente porque ela favorece eleitoralmente o candidato em quem pretendo votar. Não preciso inventar uma ameaça a Nossa Senhora Aparecida para explicar minhas razões. Posso olhar para aquilo que efetivamente aconteceu, para os processos, para as condenações, para os discursos, para as alianças políticas e para os projetos em disputa e fazer minha escolha a partir daí.
É justamente por isso que Nossa Senhora Aparecida termina esta edição: porque a democracia que digo querer defender também exige de mim o compromisso de não transformar uma mentira conveniente em verdade política.
Não mexe na minha estante!
Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva, de Silvia Federici. Quero indicar este livro especialmente nesta edição porque Federici propõe uma leitura histórica da formação do capitalismo na qual a perseguição às mulheres, o controle sobre seus corpos, a reprodução e a divisão sexual do trabalho não aparecem como questões secundárias, mas como parte da própria constituição dessa ordem econômica e social. E isso também oferece elementos para pensar uma eleição sem reduzir a participação das mulheres a uma categoria abstrata chamada “voto feminino”: nas eleições brasileiras de 2026, elas representam 52,84% do eleitorado, mais de 83 milhões de eleitoras. Ler Federici neste momento pode ajudar a formular perguntas políticas mais amplas sobre quais projetos de sociedade incidem sobre a autonomia das mulheres, seus corpos, seu trabalho, sua participação na vida pública e seus direitos. Mais do que indicar em quem mulheres deveriam votar, Calibã e a bruxa ajuda a compreender por que as condições concretas de liberdade das mulheres também são uma questão política e eleitoral.
Quem avisa…?
Pipoca na manteiga #51 — Terra da Máfia, relacionamentos amorosos e o poder
Terra da Máfia (MobLand) começa como uma história sobre duas famílias criminosas londrinas, os Harrigan e os Stevenson, entrando em uma guerra capaz de destruir seus negócios e suas próprias vidas. No centro está Harry Da Souza, interpretado por Tom Hardy, uma espécie de solucionador de problemas dos Harrigan, enquanto Conrad e Maeve Harrigan, vividos por Pierce Brosnan e Helen Mirren, comandam uma família na qual poder, dinheiro, violência e parentesco praticamente não podem ser separados. Mas, enquanto assistia, percebi que comecei a prestar atenção em outra coisa. Por trás dos assassinatos, das ameaças e das disputas pelo controle daquele império, eu via casamentos, filhos, amantes, desejos, ressentimentos e relações construídas durante anos. A série me interessou para além da história sobre o crime organizado. Em algum momento, comecei a prestar menos atenção em quem controlaria os negócios da família e passei a me perguntar:
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