Varalzinho de quinta #19
Passou o bloco e eu pulei dentro. Atrasos carnavalescos são perdoáveis?
Eu sei que estou atrasado, okay? Não vou pedir desculpas, estava sendo feliz em um bloco carnavalesco, perdi a hora de voltar para casa, esqueci a rua onde moro, meu nome pouco importou, houve poemas que não escrevi, algumas bocas que beijei e preciso de mais uns dias descansando para recuperar a bateria social. Brilha o glitter colado ao meu corpo quando a luz do sol encosta a pele, minha audição não é mais a mesma depois dessas festas, mas tudo isso faz parte desse lindo caos, o carnaval.
Há quem não curta toda essa festa, e uma das minhas outras personalidades poderia argumentar que é inconcebível festejar durante tanto tempo, dançando, cantando a plenos pulmões e canalizando as forças para beber a cerveja mais gelada possível. Só que, ainda assim, estaria completamente enganado. Faça chuva, ou faça sol, é carnaval no Brasil, podem me esquecer.
Bem, como já disse antes, não preparei poema algum para nosso varalzinho, mas também não voltei das ruas com as mãos vazias, tá bom? Andei tocando algumas poesias antigas, ideias para um livro que estava escrevendo, e por isso surgiram alguns outros poemas frutos dessa revisão:
Sem título
Não se acostume com o frio
cobrindo as pétalas da manhã
observe o caminho por onde
abelhas dançam com as flores
crescemos em direção ao rio
ouvimos repetidas vezes
água caindo como caíram
os pecados sobre a terra
pisam os homens
sobretudo no que possuem
estanho, bronze, prata
outros minérios latentes
îagûara
sob olhar felino
transpasso encruzilhada
onde se tornam dignos os guerreiros
cobertos os corpos inteiros de lama
navegando pele a pele o espírito
sou a presa em tua mandíbula
ansiando a mordida, maduro e sedento
fruto furtado do cacho divino
árvore das raízes impossíveis
desejo saciado
onça-pintada a beira rio
tuas presas afiadas
lançam razão aos delírios
das pulsões instintivas
pela morte em teus lábios
como dançam os animais
dessa cidade sagrada
somos dois mitos
leviatã e behemot
como dançam os animais
cobertos pelo sangue
somos dois amantes
destinados ao encontro
por fim há um poema escrito por Hanna Arendt que Cristian compartilhou comigo, e quero incluir ele em nosso varalzinho atrasado.
Müdigkeit
Tarde caindo —
um suave lamento
soa nos pios dos pássaros
que convoquei.
Muros cinzentos
desmoronam.
Minhas próprias mãos
encontram-se novamente.
O que amei
não posso manter.
O que me cerca
não posso deixar.
Tudo declina
enquanto cresce a escuridão.
Nada me domina —
deve ser o curso da vida
Espero que tenham gostado dessa edição, lembrem que estamos esperando a sua participação aqui também, todes serão bem recebidos em nosso varal e podem ser incluídos como autores, caso queiram compartilhar um poema de algum autor já conhecido também podem indicar nos comentários ou falar comigo enviando uma mensagem.
Publicamos alguns poemas em nosso Instagram também, acompanha nosso trabalho por lá também.
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