Varalzinho de quinta #21
Textos antigos vão se acumulando. Gosto por organização.
Recentemente estava vasculhando os meus arquivos pessoais no computador motivado pela necessidade de organizar os meus pensamentos, é um procedimento que me leva a passar algumas horas entrando em cada pasta, drive e e-mail que tenho para verificar se não há nada ali que eu possa ter perdido. Embora, na maioria das vezes, não tenha nada específico na minha busca, mas estranhamente é algo que me conforta sempre que faço.
Durante essas aventuras olhando slides antigos de trabalho, apresentações em PowerPoint feitas em 2014, fotos constrangedoras tiradas na minha câmera antiga, encontro um apanhado de poemas antigos que escrevi em outro momento da minha vida. Sempre que os encontro sou preenchido por um sentimento muito singular, não sei como explicar, mas é algo como sentar na praia a noite descalço sentindo a areia fria em seus pés, seu coração bate ao ritmo das ondas quebrando, e contemplando aquele céu escuro pintado a mão sentimos uma calmaria conveniente da solidão após uma tempestade intensa.
Não sei o motivo de sempre fazer esse ritual, mas sei que ajuda a me localizar no tempo e lembrar que preciso organizar meus poemas.
devaneios de Dedálo
Às dez da noite, estou de volta
sento na beirada do murinho
entre o vão e a pista
arde o fogo primal
na brasa esmaecida
ladra o cão escorraçado
lambendo as próprias feridas
dispensa lágrimas, não vale a pena
correr o risco de cair no vão
pelo calor em tua mão
retornando para casa
espalho as cinzas no caminho
receio nunca encontrar
amor tão discriminante
despido em tal olhar
esqueço os dentes nos bolsos
não sorrio, não vale a pena
correr o risco de cair na pista
pensei um pensamento sozinho
que pensei que houvesse pensado
junto comigo
pensamos coisas demais
quando estamos bêbados
não há nenhum pecado nisso
mas nenhum pensamento coube
onde um mais outro não soma
dois ficam presos ao labirinto
Sem título
O corpo treme
em excesso
tanto tempo
acordado.
Já não sei a diferença
entre as ausências.
Cresce em mim
barba aparente
sorrisos aliviados
ansiedade.
Bico um café requentado
de dois dias atrás
apreciando como um whisky envelhecido
são os velhos hábitos na superfície.
Quase desistir de tudo
voltar ao passado
nesses termos
onde a noção que me resta
é só aparente.
Sinto a pele queimar
em cada estalo da língua
os heróis de marfim
banhados no sangue de uma maldição.
A raiva se dissipa no ar
enquanto Deus é perdão
não poderei ser.
Quando acabar
espero sangrar
cada pecado
pelo tempo perdido
em suas tiranias.
Quem sabe
retomar o controle
estar vivo
nesse país
basta
para ser uma ameaça.
Eu teria medo de esquecer
não esquecer a panela de arroz
na cozinha, era isso que precisava
após um longo dia de promessas
resolvemos deixar tudo se resolver com o tempo
imagina queimar por tanto tempo
sem ninguém para notar a fumaça
esgueirando-se pela casa, mal cheiro
nenhum sinal de visita
nenhuma carta para avisar,
dores que aprisionam,
lágrimas secando no varal,
mas não lembrou da maldita panela
preparando o almoço para o dia seguinte
antes de se despedir, procurando na rotina
algum sentido em deixar ir embora
quando mais sentira vontade de estar presente
não fora algo planejado no calendário,
era um dia qualquer da semana,
foi-se deixando palavras soltas no cenário
até se dar conta da fumaça na casa
como aprendemos a odiar despedidas,
quando o pai vai ao trabalho,
as promessas de retorno,
nenhuma intenção de serem cumpridas
não esquecer, não ser esquecido
olhar no espelho para ter certeza
que tudo ainda está estampado
cada cicatriz, cada incerteza
e a solidão de mil noites sem sono,
esperando a chance de nascer
feito um broto no jardim do éden,
onde tudo floresce sem esforço
acho que o descaso amolece
as decisões feitas por impulsividade,
foram amontoados de e se
quase dava para ver o tempo se fragmentar
cogitei cancelar o almoço de última hora,
dizer que o gás acabou e o dinheiro da pensão
não caiu, também não sabia se iria aguentar
olhar a merda do arroz indo para o lixo
pensei, “no fim das contas ninguém que ser esquecido”
desci o prédio para por o lixo fora de casa
sentei ao lado da lixeira esperando
duas da manhã o caminhão passava
Gostaram da edição dessa semana? Tenho pensado em separar alguns poemas para uma nova coletânea, mas esse processo demanda tempo e paciência, ainda vou precisar de uns meses para organizar tudo que tenho escrito ao longo desses anos.
Lembrando que o nosso varalzinho continua aceitando participações, e estou muito feliz de anunciar que vamos ter alguns dos nossos poetas que estão participando presencialmente das atividades publicados aqui na semana que vem, aos poucos estou organizando como vão ser os horários das atividades, mas por ora o encontro será semanalmente na quinta-feira no período da tarde, com duração aproximada de duas horas.
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