Varalzinho de quinta #23
Auta de Souza, a maior poetisa mística do Brasil.
Poeta romântica, nascida em Macaíba, terra potiguar vizinha a Natal, no ano de 1876, escreveu versos sofrentes com distinta beleza. Chamada Auta Henriqueta de Souza, seu primeiro nome deriva do latim “aucta”, que significa “aumentada (em virtudes)”, e ao conhecer um pouco da sua história a partir de um folhetim comprado na última bienal de Alagoas, fiquei interessado em conhecer melhor sua obra. Deparei-me com a profecia de grande virtude na esperança carregada por esta mulher negra tão importante na história da literatura brasileira.
Auta acabou ficando órfã muito cedo, seus pais morreram de tuberculose antes mesmo dela completar seus 5 anos de idade, e passou a viver com a sua avó Silvina Maria da Conceição de Paula Rodrigues, conhecida como Dindinha, em sua chácara no Recife, onde foi alfabetizada por professores particulares. Estudou literatura desde muito cedo, brasileira, inglesa e francesa, começou a ler e escrever versos ainda cedo, influenciada por obras de Victor Hugo e Chateaubriand.
Lendo alguns de seus poemas, pude notar uma melancolia marcante. Seus versos carregam muitos simbolismos, alusão a elementos da natureza, referências a figuras religiosas, sendo uma mulher de grande fé católica, a representa com orgulho em seus poemas. O poema abaixo é um exemplo disto.
Fio Partido, escrito em Janeiro de 1901
I
Fugir à mágoa terrena
E ao sonho, que faz sofrer,
Deixar o mundo sem pena
Será morrer?
Fugir neste anseio infindo
À treva do anoitecer,
Buscar a aurora sorrindo
Será morrer?
E ao grito que a dor arranca
E o coração faz tremer,
Voar uma pomba branca
Será morrer?
II
Lá vai a pomba voando
Livre, através dos espaços…
Sacode as asas cantando:
”Quebrei meus laços!”
Aqui na amplidão liberta,
Quem pode deter-me os passos?
Deixei a prisão deserta,
Quebrei meus laços!
Jesus, este voo infindo
Há de amparar-me nos braços
Enquanto eu direi sorrindo:
Quebrei meus laços!
A sua vida foi marcada por muitas tragédias, como a dos seus pais, viu seu irmão mais novo Irineu ser morto por uma explosão causada por um candeeiro, e aos catorze anos recebeu o diagnóstico de tuberculose, doença que a impediu de estudar no colégio religioso, porém, ela não permitiu que isso a impedisse de continuar seus estudos de forma autodidata. Também perdeu um grande amor, João Leopoldo da Silva Loureiro, mais uma vítima de tuberculose.
Seu caminho no mercado literário começou aos dezoito anos, quando passou a colaborar com a revista Oásis e para A República, jornal de maior circulação que a fez alcançar outras regiões do Brasil. Teve poemas publicados no Rio de Janeiro, escreveu para o jornal A Tribuna, de Natal, publicando versos junto a outros escritores do Nordeste, assinando alguns usando os pseudônimos de Ida Salúcio e Hilário das Neves. Seu único livro, Horto, foi publicado em 1900 e teve seu prefácio escrito por Olavo Bilac.
Versos Ligeiros, escrito em 1897, Macaíba
Eu acho tão feiticeira
A Noemita da esquina,
Com o seu recato de freira,
Muito morena e franzina;
Que fico toda encantada
Quando na Igreja a contemplo,
Pois cuido ver uma fada
Ajoelhada no Templo.
Doce nuvem cor de rosa
Parece que a Deus se eleva.
D’aquela boca mimosa,
D’aquele olhar cor de treva.
É sua prece que voa,
Indefinida e tão mansa,
Como um hino que ressoa,
Como uma voz de criança
A trança de seu cabelo,
(Como ela é negra, Jesus!)
Semelha um lindo novelo
Tão preto que já reluz.
Tem a boquinha vermelha
Como uma rosa entreabrindo...
É um favo de mel de abelha
Aquela boca sorrindo!
Minh’alma nunca se cansa
De vê-la assim, tão divina,
Sempre formosa e criança
Com seu perfil de menina.
Às vezes, eu olho-a tanto,
Com tanta veneração,
Que fico muda de espanto,
Depois da contemplação.
É verdade que não faz
Mal nenhum fitá-la assim...
Meu Deus! se eu fosse rapaz
O que diriam de mim?!
Auta faleceu com apenas 24 anos no dia 7 de fevereiro de 1901, infelizmente levada embora fatalmente pela doença tuberculosa, mas nos deixou um legado rico de poesia, representatividade, deixando em seus versos sua dor, angústia, fé e esperança. Uma mulher negra que se destacou em tão pouco tempo, levando a ser conhecido mesmo entre círculos literários dominados por homens. Em 1936, foi homenageada pela Academia Norte-Riograndense de Letras, que dedicou-lhe a cadeira de nº 20.
Auta, virtude sacra
Quem fez teu brilho
cantou versos ao divino,
n’outro vento nativo
moveu-se as histórias;
Bendita, és mulher de glórias,
ainda que flores murchem na aurora,
dominou humildade e sabedoria
da literatura à poesia;
Foste gentil ao ardente caminho
desta vida que brota no sofrer
com tanta brutalidade.
Auta, querida menina,
ouvi teu canto donde vim
quero cantar também a ti
para que sejas lembrada;
Quando noite triste chegar
restar a treva do anoitecer
esperarei as alvas espumas do mar
limparem os caminhos do sofrer.
Que teu brilho ilumine o céu
tua história faz caminho pela terra
e o sonho perdura no coração.
Ofereço estes versos como homenagem a essa alma que agora descansa. Obrigado pela leitura até aqui, espero que tenham gostado de conhecer a história de Auta de Souza, deixarei as referências que usei para escrever caso se interessem por saber mais sobre ela. Recomendo o livro Horto, dá até para conseguir ler online gratuitamente, são versos incríveis.
O que estão achando desse formato novo que tenho escrito para o Varalzinho? Sei que o texto tem ficado um pouco mais longo, mas estou me divertindo bastante com as pesquisas e os encontros presenciais. Até semana que vem!
Referências:
MST.org
Templo Cultural Delfos
ArtPoesia Revista Cultural Nº 136
Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos
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