Varalzinho de quinta #27
Notas sobre poesia. Começos e términos, recomeços.
O poema desfruta das palavras como se fosse intérprete da sua natureza, mas nunca será capaz de atender à máxima material dela própria. Explico, quando somos expostos à sua literalidade, nos deparamos, por exemplo, com o fogo, e ao sentir calor podemos nos aquecer, ou quem sabe temer a destruição que pode ser causada por um incêndio. Dizem por aí que quem brinca com fogo costuma se queimar, e o poeta é tanto o fogo quanto a palavra, é o oráculo do passado que tanto observa quanto vive.
A poesia então trata de evocar, utilizando imagens, sons e significados, aquilo que o autor interpreta da palavra. Por isso, pode ser desafiador para o leitor quando se depara com palavras de outro, é como tentar explicar para você o significado de “coisa”. A coisa é muita coisa, e para mim, que também sou coisa, vai ser diferente da coisa que é você. São significados que, ao contrário do limite das palavras, expandem além da sua literalidade natural. Por isso, o fogo também pode ser frio quando palavra.
Quanto mais nos aproximamos da linguagem, mais nos deparamos com a complexidade do dizer. Então vos convido a leitura da poesia nesse universo de significados, nenhum deles perfeito ou singular, são as diversas formas de contar o mundo que está diante de nós. Fiquem com um poema de Reiner Maria Rilke, traduzido por Manuel Bandeira.
Torso Arcaico de Apollo
Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta
e brilha. Se não fosse assim, a curva rara
do peito não deslumbraria, nem achar
caminho poderia um sorriso e baixar
da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.
Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
pedra, um desfigurado mármore, e nem já
resplandecera mais como pele de fera.
Seus limites não transporia desmedida
como uma estrela; pois ali ponto não há
que não te mire. Força é mudares de vida.
Um dos meus primeiros contatos poéticos foi por meio dos livros infantis, principalmente com Cecília Meireles, mas também com Graciliano Ramos e Ana Maria Machado. Lembro de estar sentado sozinho na biblioteca do SESC, ficava procurando livros cuja capa me chamava atenção: Menina Bonita do Laço de Fita, Ou Isto ou Aquilo, A Terra dos Meninos Pelados, assim permanecia mais quietinho.
Apesar de ser um garoto doidinho — assim diziam as professoras dado as minhas brincadeiras de correr e pular contra a parede, evidentemente as deixando preocupadas. Uma das poucas atividades que me faziam dedicar atenção era a leitura. Não sei se tão quieto assim, pois também lia os livros de cabeça para baixo ou balançando na rede. Antes que eu pudesse conhecer a poesia, já havia me interessado pela leitura.
Agora, algumas poesias que escrevi quando tinha 12 anos e começava a tentar escrever:
Como se sentiria, se pudesse ter seu coração em mãos?
Iria polir com todo carinho,
ou talvez chorar, ao ver o quão remendado ele está.
Abriria suas portas,
ou trancaria a sete chaves.
Isso só você decide.
Ao seu coração jovem, o que deve fazer?
Se aqueles pássaros falassem,
me contariam o que fazes as tardes.
Se aqueles pássaros falassem,
me contariam histórias de suas viagens.
Se aqueles pássaros falassem,
contariam ao meu amor, o que sinto por ela.
Se aqueles pássaros falassem,
me perguntariam o porque de eu recitar minha poesia para eles.
Volto ao início para pôr um fim, não sei se faz sentido para você, mas tem para mim. Tenho que ir embora, não é um adeus, nem um até logo e se te fiz uma promessa é provável ser mentira. Que pesadelo é a promessa! O projeto do Varalzinho de Quinta será descontinuado do Substack, e encerro ele com esse convite poético para que você prossiga fazendo leituras, leia mais autores brasileiros, incentive e se demore nos poetas. Vá! Busque o que te eriça!
Continuem nos acompanhando por aqui, teremos novidades em breve sobre a nossa nova publicação de quinta-feira.
O meu livro de poesia Amores, Vícios e Obsessões foi publicado em 2024 pela editora IS, você pode encontrá-lo a venda na UmLivro ou pela Amazon.
Um universo vivo reside dentro das páginas desse livro. Augusto Flores é uma ficção poética tão honesta quanto as minhas paixões, é o sonho e a realidade se encontrando através das palavras. São experiências coletivas e individuais que tornaram a ser sentido na minha vida, tenho muito a agradecer por cada um que compartilhou sua vida comigo e só sinto amor por saber que pude ser alcançado por essas pessoas e cada universo particular.
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