Só sei que foi assim #34 — Escrevi este livro porque o pensamento adoeceu e o problema não é a política, é o que você passou a aceitar como normal
No Brasil de hoje, votar é revelar o que toleramos: preconceito, violência ou democracia. Não está claro que o discurso bolsonarista é anti-democrático, submisso aos EUA e sustentado pelo preconceito?
Por: Cristian Abreu de Quevedo
O Alienista
“A pluralidade é a lei da terra”, escreveu Hannah Arendt. E é em nome dessa diversidade, dessa condição fundamental de coexistência entre diferentes, que eu olho a política no Brasil e no mundo. Porque qualquer discurso que vise eliminar a diferença não é apenas equivocado, é um absurdo ético e político. E o mais inquietante é que, muitas vezes, esse discurso não vem de figuras distantes, mas de pessoas próximas, de pessoas que amamos, com quem convivemos, com quem partilhamos a vida. Arendt foi precisa ao nomear esse ponto: “O problema, o problema pessoal, não era o que os nossos inimigos faziam, mas o que os nossos amigos faziam”.
É justamente aí que o desconforto começa. Porque não estamos falando apenas de divergência política, mas de algo mais profundo: da normalização do inaceitável. Quando falas racistas, misóginas, homofóbicas, violentas e anti-democráticas passam a ser relativizadas, justificadas ou até defendidas, não estamos mais no campo da opinião. Estamos no campo da erosão do pensamento. E o que mais me assusta não são apenas as falas em si, amplamente registradas ao longo dos anos, mas a facilidade com que elas são absorvidas, repetidas e, pior, protegidas por aqueles que se dizem democráticos.
Arendt, ao refletir sobre o nazismo, não se surpreendeu apenas com a brutalidade do regime, mas com a adesão voluntária de pessoas comuns, de intelectuais, de amigos. O processo de “alinhamento” não se deu apenas pela força, mas por uma espécie de acomodação moral. E talvez seja isso que mais nos diga respeito hoje. Não é só sobre quem fala. É sobre quem escuta e consente. Sobre quem, diante do absurdo, escolhe o silêncio ou a justificativa.
Então sim: quem faz parte do meu círculo de amizades e tem o meu amor e é bolsonarista já não é uma pessoa a qual eu posso dizer que confio plenamente, muito pelo contrário.
Mas para contextualizar tudo o que eu quero falar, vamos relembrar as falas de Jair Bolsonaro:
1. Racismo e homofobia no mesmo episódio:
Em 2011, durante programa de TV, Bolsonaro foi questionado sobre como reagiria se tivesse um filho gay. Respondeu que isso não aconteceria, pois seus filhos receberam “boa educação”. Na mesma edição, a cantora Preta Gil perguntou como ele reagiria caso um de seus filhos se apaixonasse por uma mulher negra. A resposta foi: “Eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o seu”. Naquele mesmo contexto, também afirmou que não viajaria em avião pilotado por um cotista.
2. “Jamais ia estuprar você, você não merece”
Em 2014, em meio a bate-boca no plenário, disse à deputada Maria do Rosário (PT-RS) que não a estupraria porque ela “não merecia”. Depois, em entrevista ao Zero Hora, reafirmou: “Ela não merece porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar, porque não merece”. Em 2017, a Terceira Turma do STJ confirmou a condenação por danos morais, e o STF manteve a decisão, obrigando Bolsonaro a pagar R$ 10 mil à deputada.
3. “Fraquejada”
Durante palestra no Clube Hebraica do Rio de Janeiro, em 2017, fez uma fala sobre sua própria família. “Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, aí no quinto eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”. O comentário misógino foi rebatido por movimentos feministas e organizações sociais.
4. Turismo sexual
Bolsonaro também declarou que o Brasil não poderia ser um país de turismo gay, mas que “quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher fique à vontade”. Entidades feministas reagiram. À época da declaração, em 2019, Cleone dos Santos, da Marcha Mundial de Mulheres, avaliou: “Temos uma luta histórica contra o turismo sexual e hoje temos um presidente da República desconstruindo isso. É o maior retrocesso que já vivemos”.
5. “Dar o furo”
Em 2020, comentou o depoimento de Hans River, na CPMI das Fake News, insinuando que a jornalista Patrícia Campos Mello havia oferecido sexo em troca de informações: “Ela queria um furo. Ela queria dar um furo a qualquer preço contra mim”. Foi condenado a pagar R$ 20 mil por danos morais.
6. “Pintou um clima” com meninas venezuelanas
Em 2021, relatou que viu adolescentes venezuelanas “se arrumando para ganhar a vida” e usou a expressão ‘pintou um clima’. “Três, quatro, meninas bonitas, de 14, 15 anos, arrumadinhas, num sábado, em uma comunidade (…) Pintou um clima, voltei. (…) Meninas bonitinhas de 14, 15 anos, se arrumando no sábado para quê? Ganhar a vida”. A fala foi interpretada como apologia à exploração sexual infantil, e Bolsonaro precisou se retratar em rede nacional.
7. Transfobia
Em 2022, rejeitou debates sobre identidade de gênero ao afirmar: “Joãozinho tem que ser Joãozinho a vida toda”. A fala foi interpretada como negação da existência de pessoas trans no país.
8. “O Brasil não deve nada aos negros”
Ainda em 2017, afirmou que “o Brasil não deve nada aos negros”. Além de negar a história do país com seus mais de 300 anos de escravidão, Bolsonaro ainda irnonizou a população negra. “Fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem pra procriador serve mais”. A declaração foi denunciada à Procuradoria-Geral da República (PGR) e gerou condenação em primeira instância por racismo, revertida posteriormente em segunda instância.
Mais: Vale lembrar ainda que durante o governo, Bolsonaro reduziu a atuação da Secretaria de Políticas para as Mulheres, desmontou conselhos voltados à população LGBTQIA+ e enfraqueceu políticas de igualdade racial. Especialistas apontam que a estratégia ampliou a vulnerabilidade de grupos historicamente discriminados. (Link da reportagem acima aqui).
9. “Brasil e Estados Unidos acima de tudo”
Ao longo da história, a trajetória de Jair Bolsonaro foi marcada por atitudes que vão na contramão de seus próprios lemas. Clímax dessa discrepância entre o que fala e o que faz, seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), está, atualmente, situado em solo estadunidense incentivando o governo de Donald Trump a aplicar sanções contra o Brasil, o que seria uma tentativa de prejudicar a economia do próprio país em um ato de oposição ao governo brasileiro e ao judiciário, por levar o ex-presidente a julgamento.
Atos golpistas: acusação principal ao ex-presidente, os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e toda trama relacionada, além de usar o Estado em benefício próprio, Bolsonaro feriu a democracia e afrontou a soberania popular. Os atos antidemocráticos o colocam como ameaça à própria soberania do país. A definição de patriota, segundo os dicionários, é a do cidadão que se esforça para ser útil ao seu país e age em defesa dos interesses coletivos. O ex-presidente não cumpriu esse papel.
Continência à bandeira dos Estados Unidos: em maio de 2019, num evento da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, em Dallas, no Texas, o então presidente, fez uma continência prestada por Bolsonaro à bandeira americana e o bordão de governo refeito: “Brasil e Estados Unidos acima de tudo” (Link da reportagem acima aqui).
Quando um líder político afirma que não estupraria uma mulher porque ela “não merece”, quando associa negritude à incapacidade, quando trata a existência de pessoas LGBTI+ como erro, quando sexualiza adolescentes, quando despreza a história da escravidão, quando flerta com práticas autoritárias e com a ruptura democrática, não estamos diante de “polêmicas”. Estamos diante de um padrão. E quando esse padrão é sustentado por uma base que o relativiza ou o transforma em estilo, o problema deixa de ser individual. Ele se torna estrutural.
Foi a partir desse incômodo, desse mal-estar que não cessa, que escrevi O colapso do pensamento: Hannah Arendt, a banalidade do ódio e o Brasil no bolsonarismo (Adquira o livro clicando aqui!). Não como resposta definitiva, mas como tentativa de compreender o que acontece quando deixamos de pensar. Porque o que Arendt nos ensina é que o mal, muitas vezes, não se apresenta como exceção monstruosa, mas como rotina. Como repetição. Como discurso que se infiltra e se torna aceitável.
E talvez a pergunta mais difícil não seja sobre eles. Mas sobre nós. Sobre o quanto ainda conseguimos sustentar a pluralidade quando ela nos confronta. Sobre o quanto ainda somos capazes de pensar antes de repetir. Porque, no fim, o colapso do pensamento não começa nas grandes estruturas. Ele começa quando paramos de estranhar aquilo que deveria nos chocar.
Não mexe na minha estante!
É um livro sobre política, linguagem, pandemia, bolsonarismo, misoginia, machismo, racismo, incels, autoritarismo e democracia. Sobre como o preconceito deixa de ser algo privado e passa a ser autorizado a aparecer na cena pública. Sobre como a extrema-direita se alimenta do automatismo, da irreflexão e da recusa em julgar.
Quem avisa…?
Só sei que foi assim #34 - Corpos que ainda precisam de permissão para existir
Por: Caroline Gonçalves Pinheiro
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