Só sei que foi assim #41— Entre se entender e se divertir
Um mês de atropelos, descobertas difíceis na terapia e uma retratação sincera: às vezes, encarar a si mesmo pesa muito, mas uma boa aventura colorida ainda pode aliviar o mundo por algumas horas.
O Alienista
Por: Welyson Pereira de Almeida
Que mês inacreditável eu acabei atravessando.
Muita coisa aconteceu desde a última vez em que escrevi para o Só Sei Que Foi Assim. E, embora boa parte disso seja profundamente pessoal, é difícil não sentir que este mês passou por cima de mim. Não apenas passou: me atropelou. Algumas questões continuam sem uma resolução definitiva, outras finalmente começaram a andar, e há nisso uma mistura estranha de alívio, cansaço, medo e até uma certa esperança.
Fico feliz por algumas coisas que foram trabalhadas. Por alguns pequenos sucessos, mesmo que eles não pareçam tão pequenos quando penso no esforço que exigiram de mim. Mas também é impossível ignorar o impacto de algumas falhas, de certos fracassos, de encerramentos e acontecimentos que ainda são difíceis demais de abrir para o público geral.
Um episódio muito triste acabou acontecendo. Triste de um jeito próprio, com seus aspectos, suas consequências e seus impactos diferentes. Mas, bola para frente. Precisamos trabalhar, produzir, resolver, existir. Mesmo quando, por dentro, ainda estamos tentando entender exatamente o que aconteceu.
Antes de qualquer coisa, também gostaria de agradecer a todos os comentários que recebi depois da última edição do Só Sei Que Foi Assim. Não sei se foi assim para todo mundo, mas, para mim, é necessária muita coragem para se abrir. Principalmente quando eu sei que a minha psicanalista muito provavelmente está lendo este texto. Ainda assim, existe também uma necessidade estranha, quase inevitável, de expor aquilo que está sendo pensado. Talvez porque escrever seja uma forma de organizar o que, dentro da cabeça, parece apenas ruído.
É bastante assustador perceber certas coisas sobre si mesmo. Entender que algumas questões que nos afligem não estão apenas ali, paradas, esperando serem resolvidas. Elas cobram. E, neste mês, algumas delas cobraram um preço muito grande.
A negligência comigo mesmo me cobrou um preço que, claramente, não foi terminal — e ainda bem por isso —, mas foi inesperado. Muito inesperado. Principalmente pelo que ela parece exigir de mim agora para ser solucionada.
E talvez essa seja a parte mais difícil: perceber que algo que eu não consegui resolver em décadas precisa, de alguma forma, começar a melhorar. Claro, isso está sendo trabalhado em terapia. Está sendo observado, conversado, desmontado aos poucos. Mas existe uma distância enorme entre entender algo numa sessão e conseguir aplicar isso na vida.
Como usar aquilo que descubro sobre mim? Como transformar em prática aquilo que me é revelado, debatido, conversado e, muitas vezes, arrancado com dificuldade dentro da psicanálise? Como pegar uma percepção nova, às vezes dolorosa, às vezes libertadora, e fazer com que ela realmente mude alguma coisa no dia a dia?
É uma das perguntas que mais tem vindo à minha cabeça.
Depois de algumas sessões, existe quase sempre aquele momento estranho de silêncio interno. Aquele instante em que você entende algo importante, talvez até fundamental, e logo em seguida pensa: “Tá, e o que eu faço com isso agora?”
É engraçado perceber o quanto é difícil se transformar o cotidiano, os impulsos e repetições que você faz quase sem perceber. Nas defesas que criou há tanto tempo, já confundiu com personalidade. É ainda mais difícil quando certas percepções são inéditas para você. Quando algo que nunca passou pela sua cabeça aparece de repente, mas talvez seja justamente isso que permita melhorar aquilo que me abala.
Não mexe na minha estante!
No “Não Mexe na Minha Estante” de hoje, eu não venho apenas fazer uma recomendação. Venho também fazer uma pequena retratação.
Na segunda edição do Depois da Sessão, quando falei sobre Os Mestres do Universo, a nova adaptação de He-Man para as telas do cinema, boa parte da minha impressão vinha daquilo que eu tinha lido por cima — muito por cima — da crítica profissional. Também vinha, é claro, daquilo que eu tinha visto nos trailers.
Então, aqui vai a minha retratação: Os Mestres do Universo é muito divertido. E, mais do que isso, é muito bom.
Não como os críticos parecem esperar, que todo filme seja uma espécie de obra shakespeariana, uma grande reflexão sobre a condição humana ou um novo Cidadão Kane. É bom porque diverte. Porque entende o público que cresceu amando He-Man. Porque respeita essa memória sem parecer envergonhado dela.
O filme não parece preocupado em provar que tem o maior roteiro do mundo, a direção mais sofisticada ou a arte mais reflexiva da década. Ele parece muito mais interessado em entender o próprio tom. E, nesse sentido, acerta muito. A Mattel está novamente de parabéns.
Depois de Barbie, que é um filme sensacional, é muito bom ver que eles também conseguiram encontrar uma linguagem própria para outra de suas grandes linhas de brinquedos. Aqui, a homenagem não parece vazia. Ela passa pelo desenho animado, pelos brinquedos, pela memória afetiva de quem teve algum contato com aquele universo e até pelo filme dos anos 80 — que eu, inclusive, não assisti, então nem posso dizer se é bom ou ruim.
O que posso dizer é que essa nova adaptação consegue trazer algo muito difícil: uma lembrança infantil atualizada. Existe ali um tipo de diversão meio exagerada, meio constrangedora, meio boba no melhor sentido possível. Aquela coisa que talvez só funcione quando a obra aceita o próprio absurdo e, em vez de pedir desculpas por ele, abraça tudo com força.
E é justamente aí que o filme funciona tão bem.
Ele não tenta fugir do que He-Man é. Não tenta transformar a aventura em algo sério demais, sombrio demais ou adulto demais apenas para parecer mais respeitável. Ele entende que existe valor na fantasia colorida, na frase de efeito, na pose heroica, na gargalhada inesperada e naquela sensação de estar assistindo a algo que, no fundo, quer apenas nos tirar um pouco do peso do mundo.
Fica aqui, então, a minha retratação e a minha recomendação.
Quem avisa…?
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Certamente uma das publicações mais densas, profundas e verdadeiras que já li escritas por você, Welyson. Que texto poderoso! Obs: He-mannnnnnn