Só sei que foi assim #46 O que fazemos com as nossas roupas? Ou com aquilo que deixa de nos servir?
Fiquei impactado ao assistir a um documentário sobre o destino das roupas que descartamos. Aquilo que chamamos de doação é apenas uma forma elegante de não enxergar o nosso próprio lixo.
O Alienista
por Cristian Abreu de Quevedo
“Nenhum homem é uma ilha, completo em si mesmo”, John Donne.
Eu sempre gostei da ideia de doar roupas (mas não livros rsrsrs). Há algo de bonito em imaginar que aquilo que já não faz mais sentido para mim pode encontrar uma nova história no corpo de outra pessoa. Durante muito tempo, pensei que esse fosse o destino natural das roupas: elas apenas mudavam de dono.
Foi por isso que fiquei tão impactado ao assistir a uma reportagem da BBC sobre Gana, na África Ocidental.
Todas as semanas, mais de quinze milhões de peças de roupas usadas chegam ao país. Muitas vêm da Europa, dos Estados Unidos e da China. São vendidas como doações, reaproveitamento ou economia circular. A promessa parece bonita. Na prática, porém, boa parte dessas roupas nunca encontrará alguém disposto a usá-las.
Elas são fruto de um modelo de consumo que produz rápido, vende barato e descarta mais rápido ainda.
As roupas chegam rasgadas, manchadas, desgastadas ou simplesmente feitas para durar tão pouco que já nascem próximas do fim. Os comerciantes locais compram grandes lotes sem saber exatamente o que há dentro deles. Descobrem apenas depois que boa parte do conteúdo é praticamente inútil. O resultado é previsível: montanhas de tecido se acumulam em lixões, praias, rios e terrenos baldios.
Enquanto assistia à reportagem, pensei que talvez exista uma diferença importante entre doar e transferir um problema.
Nem tudo aquilo que sai da nossa casa encontra automaticamente um novo sentido apenas porque foi colocado dentro de uma sacola de doação.
Às vezes, apenas mudamos o endereço do descarte.
E isso me fez pensar que talvez essa lógica não esteja presente apenas nas roupas.
Vivemos uma época em que tudo parece descartável. Objetos, relações, empregos, amizades e até pessoas são frequentemente substituídos pela próxima novidade. Consumimos muito mais do que precisamos porque fomos convencidos de que desejar é o mesmo que comprar. Quando o entusiasmo passa, basta trocar por outro.
Mas o lixo nunca desaparece.
Ele apenas deixa de estar diante dos nossos olhos.
Esse é o grande incômodo provocado pela reportagem. Ela nos obriga a olhar para aquilo que normalmente preferimos não ver. O nosso consumo não termina quando fechamos o armário ou quando entregamos uma sacola de roupas em um ponto de coleta. Ele continua existindo, agora na vida de outras pessoas e, muitas vezes, em países que sequer participaram dos benefícios desse consumo desenfreado.
Na psicanálise, existe uma pergunta que atravessa toda a nossa relação com os objetos: o que buscamos quando acumulamos tantas coisas? Muitas vezes, não compramos apenas porque precisamos. Compramos para preencher uma falta, para sustentar uma imagem de nós mesmos ou para responder ao olhar do outro. O problema é que nenhum objeto consegue cumprir essa promessa por muito tempo. Logo surge um novo desejo, uma nova compra e um novo descarte.
As roupas acabam se tornando um retrato silencioso dessa engrenagem.
Perguntar menos “o que está na moda?” e mais “por que precisamos de tanta coisa?”. Não para abandonar o consumo, mas para recuperar alguma responsabilidade sobre ele. Porque responsabilidade também é perguntar para onde vão as consequências das nossas escolhas.
A imagem que mais tenha permanecido comigo depois da reportagem: uma montanha de roupas descartadas por pessoas que jamais verão aquele lugar.
O lixo também conta uma história. Pode falar muito mais sobre quem o produziu do que sobre quem foi obrigado a recebê-lo.
Termino com algumas recomendações.
Cinema: O Preço da Moda (The True Cost, 2015), documentário que revela os impactos humanos, sociais e ambientais da indústria da moda e ajuda a compreender como o consumo acelerado transforma roupas em resíduos.
Literatura: A Sociedade de Consumo, de Jean Baudrillard, uma leitura provocadora sobre a maneira como os objetos deixam de responder às necessidades para organizar nossa identidade e nosso modo de viver.
Psicanálise: Introdução ao Narcisismo, de Sigmund Freud. Um texto clássico que permite pensar como nossa relação com os objetos também participa da construção da imagem que fazemos de nós mesmos e da busca incessante por reconhecimento.
Não mexe na minha estante!
Essa semana eu não li absolutamente nada. Tá osso. O que você me recomenda? O que você tá lendo?
Quem avisa…?
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Essa lógica me lembrou demais o mangá Gachiakuta. Na história, a sociedade prefere simplesmente "jogar fora" o que não quer mais em vez de encarar as consequências do próprio consumo. É aquele clássico: varrer o lixo para debaixo do tapete e fingir que ele sumiu. O problema é que isso não vale só para objetos, mas para pessoas consideradas "sem valor". Elas são descartadas e a sociedade vive na ilusão de que resolveu a questão. Só que o mangá escancara que tudo o que a gente joga fora continua existindo e pesando sobre alguém.
O mais forte em Gachiakuta é como ele questiona a própria ideia de valor: quem afinal decide o que merece existir, o que dá pra reaproveitar e quem vira resto? Isso bate direto com o que você escreveu. Virou um hábito de época: roupas, coisas, empregos, relacionamentos e até pessoas parecem descartáveis. O descarte deixou de ser só consumo e virou nossa forma de ver o mundo.
Citei o mangá porque a conexão foi imediata, mas tem muita obra por aí falando disso. A gente tá vivendo uma era onde tudo dura pouco, tudo tem prazo de validade e o foco virou pura aparência.
Como diria o João Carvalho:
"O capitalismo falhou, falha e falhará em cada uma das sociedades aonde ele colocar os seus tentáculos..."
Minha sugestão de leitura pra ti é uma obra de um pesquisador que me baseio muito para meus artigos e também autor central da minha tese de TCC. Irei deixar o nome do livro e a sinopse dele!
João Paulo Baliscei
Não se nasce azul ou rosa, torna-se.
Se algo é pra menino, o azul é usado; se é pra menina, o rosa. E se ele usa azul e ela, rosa, sem questionar esse uso, é interpretado em um equívoco – porém que soa como um alívio – que ambos serão heterossexuais. Semelhantemente ocorre com sujeitos adultos: azul para homem, rosa para mulher. Assim, essas cores, diferentes das demais, desempenham espécies de feitiços masculinizante e feminilizante e operam para a manutenção do heteroterrorismo. Em Não se nasce azul ou rosa, torna-se: Cultura Visual, gênero e infâncias demonstro que a associações entre azul e masculinidade e rosa e feminilidade não são espontâneas e que, inclusive, são relativamente contemporâneas – tendo sido potencializadas, sobretudo, a partir do século XX. É, portanto, uma discussão que interessa pesquisadores/as, professores/as, estudantes, artistas, pais e mães e demais sujeitos que se incomodam com os modos pelos quais os gêneros e as infâncias de meninos e meninas têm sido visualmente controlados.
Em um planeta quase esférico, argumento não válido aos terraplanistas, não existe canto ou pra baixo do tapete. É necessário uma conscientização sobre o consumo excessivo e o lixo que ele gera. O filme WALL-E da Pixar é um soco no estômago que escancara uma sociedade robotizada enquanto a empatia é desenvolvida entre os robôs.