Só sei que foi assim #50
A inutilidade da arte, poíesis e o encantamento.
O Alienista
por Gabriel Bernardo
A poesia é um tópico frequente no meu cotidiano, mesmo quando não é o foco principal da minha atenção existe uma espécie de encantamento que exercito enquanto percorro as atividades rotineiras; desde o lavar pratos até a caminhada para o trabalho, algo nesse trajeto pode causar o efeito poético da pausa, esse instante em que se repara um detalhe e somos fisgado por um sentimento, memória, som ou imagem, às vezes tudo de uma só vez.
Isso não quer dizer que vivo numa fantasia encantada em que vejo em tudo poesia. Há dias em que olho pedra, vejo pedra mesmo e faz parte. Só quero trazer atenção para isso, pegando o gancho para dialogar com a nossa última edição publicada na semana passada pelo Cristian, em que ele trouxe logo de cara a frase: Eu tenho dificuldade em ler poesia.
Essa frase para mim carrega um pouco da estranheza que o poeta pode causar em seu poema. O entroncamento que a palavra pode produzir quando se coloca nas mãos de alguém hábil o suficiente para tirar-lhe o véu do signo e refazê-lo. A palavra poesia, em sua etimologia, (pegando emprestado o ofício do nosso querido linguista Carlos Nascimento, que também poderá me corrigir caso observe algum equívoco) tem suas raízes no latim com poesis, mas já na grego se originava em poíesis, que indica a ideia de criar ou fazer.
O fazer é uma ação continuada, trabalho que a linguagem faz muito bem ao longo da história humana, e quando o poeta se propõe a trabalhar a palavra escrita, também lança ao leitor a responsabilidade de trabalhar a leitura. Isto não significa, de maneira alguma, torná-la difícil. Porém, é preciso o exercício para se afeiçoar aos significados produzidos a partir de um poema, ou soneto, ou qualquer outra forma que ele tome. Isso faz do poeta alguém que só se entende quando se lê várias vezes? Ora, não. O poeta talvez seja quem lhe propõe uma outra leitura, e por isso nos coloca contra a parede (in)comum.
3 de maio
Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi.
Nestes versos de Oswald de Andrade, que de pequeno tem apenas o tamanho, observo como ele nos lança ao prazer da descoberta através da poesia. É como aprender a ler uma segunda vez, e não por isso lhe excluir das capacidades de entender, mas que lhe aponte, convide, excite, toque, cheire, provoque. O provocar para lhe por em ação, mas sem a mesma obrigação que lhe causaria o estudo alienado, pelo contrário, tear no seu ser o desejo latente; que recorrentemente nos é roubado pela lógica da produtividade, ora a poesia pode ser inútil como são inúteis todas as coisas que não servem para a bater uma meta ou fechar mais um freela.
Gosto de um trecho em que Leminski faz uma reflexão sobre a utilidade da arte em A arte e Outros Inutensílios: A ditadura da utilidade.
“A burguesia criou um universo onde todo gesto tem que ser útil. Tudo tem que ter um para quê, desde que os mercadores, com a Revolução Mercantil, Francesa e Industrial, substituíram no poder aquela nobreza cultivadora de inúteis heráldicas, pompas não rentábeis e ostentosas cerimônias intransitivas. Parecia coisa de índio. Ou de negro. O pragmatismo de empresários, vendedores e compradores, mete preço em cima de tudo. Porque tudo tem que dar lucro. Há trezentos anos, pelo menos, a ditadura da utilidade é unha e carne com o lucrocentrismo de toda essa nossa civilização. E o princípio da utilidade corrompe todos os setores da vida, nos fazendo crer que a própria vida tem que dar lucro. Vida é o dom dos deuses, para ser saboreada intensamente até que a Bomba de Nêutrons ou o vazamento da usina nuclear nos separe deste pedaço de carne pulsante, único bem de que temos certeza.”
O que me traz a máxima que continua a mover as minhas orelhas, causa olheiras e faz da minha vida ser o que ela é:
Poesia é reparar.
Poesia é construir um castelo de areia.
Poesia é o princípio do prazer inscrito na linguagem.
Poesia é gritar gol antes de ver o impedimento.
Poesia é uma coisa inútil.
Poesia é dizer coisas que nunca existiram, e que agora escritas, existem.
O que é, para você, a poesia?
Não mexe na minha estante!
A última reflexão se construiu a partir das minhas últimas leituras em aula com o poeta e professor Bruno Ribeiro, que tem tornado as minhas noites de segunda mais especiais, agradeço imensamente a turma que tem participado desse laboratório poético comigo. Assim como, também tenho bebido da excelente leitura do texto de Marília Garcia em Pensar com as mãos, livro que recomendo a leitura.
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"Que a poesia é a descoberta Das coisas que eu nunca vi." Você me pegou justamente aí. E pegou muito E somando a questão da burguesia também penso que eu perdi muitas vezes a capacidade de apreciar o inútil. Assim como a arte que é, parafraseando Hannah Arendt, essencialmente inútil, talvez eu tenha que me voltar cada vez mais para as coisas mais ordinárias da vida sem ficar envolto na necessidade insana do dia a dia. Obrigado por esse texto!