Só sei que foi assim #49 — Por que desaprendemos a ler poesia? Ou porque não nos ensinam?
Penso que a dificuldade não esteja no poema. São anos aprendendo que toda palavra precisa explicar alguma coisa, justamente quando a poesia começa onde a explicação já não basta.
O Alienista
Por: Cristian Abreu de Quevedo
Eu tenho dificuldade em ler poesia. E dizer isso pode parecer estranho para alguém que passou boa parte da vida entre livros, estudou Letras, Filosofia, percorreu caminhos pela Psicologia e chegou à Psicanálise. Leio romances enormes, atravesso textos teóricos difíceis, posso passar horas diante de Freud ou Lacan tentando compreender uma formulação, mas um poema de dez versos às vezes consegue me deixar completamente desamparado.
Durante muito tempo pensei que isso fosse uma deficiência minha, uma espécie de incapacidade particular para a poesia. Hoje penso também na maneira como aprendemos a lê-la. No ensino fundamental e médio, muitas vezes o poema chega acompanhado de uma obrigação: encontre a metáfora, identifique a figura de linguagem, diga o que o autor quis dizer, descubra a escola literária, conte as sílabas, localize a rima. Não estou dizendo que essas coisas sejam inúteis.
O problema aparece quando elas se tornam a própria experiência da poesia. Aprendemos a desmontar o poema antes de aprender a escutá-lo. Muita gente cresce acreditando que poesia é uma espécie de enigma sofisticado, reservado às pessoas que possuem uma chave que nós não recebemos. Diante de um romance, aceitamos acompanhar uma história durante trezentas páginas sem compreender imediatamente onde ela nos levará. Diante de um poema de quinze versos, entretanto, parece que precisamos saber imediatamente o que ele significa. Eu mesmo ainda preciso lutar contra essa ansiedade.
Foi a Psicanálise que começou a me oferecer outra maneira de pensar essa dificuldade, porque Freud, mesmo sem construir uma teoria sistemática da poesia, nunca tratou poetas e escritores como simples objetos a serem explicados pela Psicanálise. Há algo muito mais interessante em sua relação com a literatura: inúmeras vezes, são os escritores que parecem ter chegado antes a alguma coisa que a teoria posteriormente tenta formular. Em Escritores criativos e devaneio, Freud aproxima a criação literária do brincar e da fantasia, mostrando que aquilo que fazemos com a imaginação não é uma atividade menor ou ornamental da vida psíquica. E desde A Interpretação dos Sonhos, sua atenção está voltada para uma linguagem que não funciona como a comunicação ordinária: condensações, deslocamentos, imagens, ambiguidades, palavras que carregam mais de uma coisa ao mesmo tempo. Meu problema com a poesia começa a diminuir quando deixo de perguntar tão rapidamente “o que este poema quer dizer?” e começo a perguntar “o que estas palavras estão fazendo comigo?”. Um verso pode me incomodar sem que eu saiba explicar por quê. Uma palavra pode permanecer durante dias. Uma imagem aparentemente absurda pode tocar alguma coisa que uma explicação perfeitamente racional não alcançaria. Nesse sentido, a experiência do poema se aproxima da experiência do inconsciente: alguma coisa se diz sem que o eu seja senhor absoluto daquilo que foi dito.
Com Lacan essa proximidade se torna ainda mais radical. Não por acaso, ao longo de seu ensino, ele retorna tantas vezes à literatura, à poesia, aos jogos de palavras, aos equívocos e à materialidade do significante.
Quanto mais avanço em Lacan, mais difícil fica sustentar a ideia de que a linguagem serve apenas para transmitir significados previamente organizados dentro de nossa cabeça. Uma palavra carrega sons, associações, ambiguidades e cortes; pode significar uma coisa e fazer surgir outra completamente diferente. É justamente aí que a poesia parece saber alguma coisa que a linguagem cotidiana frequentemente tenta apagar.
O poema não precisa fechar o sentido. Pode abri-lo. Pode produzir um buraco onde eu esperava encontrar uma resposta. Pode fazer duas palavras se encontrarem de uma maneira que nenhum dicionário teria previsto. Por isso me interessa tanto a aproximação que Lacan estabelece, especialmente em seu ensino tardio, entre a interpretação e uma operação sobre a própria linguagem. Na análise, não se trata simplesmente de explicar ao sujeito aquilo que suas palavras “realmente significam”, como se existisse um significado definitivo escondido atrás delas, mas de escutar seus equívocos, suas repetições, seus cortes e os efeitos produzidos pelo significante. Essa perspectiva também modifica minha relação com o poema. Se me aproximo dele exigindo uma mensagem clara, provavelmente vou me frustrar.
Quando aceito que uma palavra possa produzir efeitos antes de oferecer explicações, começo a lê-lo de outra maneira.
Estou, portanto, aprendendo a ler poesia de outro modo, e isso já não me incomoda. Na verdade, há alguma coisa bonita nessa descoberta. Depois de tantos anos aprendendo a interpretar, conceituar, argumentar, justificar e procurar sentidos, a poesia começa a me ensinar justamente a suportar um pouco mais aquilo que não compreendo.
Quero conseguir ler um poema sem imediatamente submetê-lo a um interrogatório. Quero reler um verso porque gostei do som que ele produz, mesmo sem saber ainda o que fazer com ele. Quero permitir que uma palavra permaneça estranha. Quero fechar um livro sem ter uma conclusão sobre aquilo que acabei de ler. Precisamos reaprender algo que a escola, apesar de todas as boas intenções, muitas vezes não conseguiu nos ensinar: poesia não é uma prova de interpretação de texto.
Não preciso vencê-la, decifrá-la ou encontrar a resposta correta escondida no último verso. Ler poesia também pode significar permanecer durante algum tempo diante das palavras sem obrigá-las a dizer aquilo que eu quero ouvir. E, pensando em Freud e Lacan, começo a compreender que a dificuldade que sinto diante de um poema não precisa ser tomada como um obstáculo à leitura.
Em certos momentos, é justamente nesse desconcerto, quando as palavras deixam de significar imediatamente aquilo que eu esperava delas, que a poesia começa.
Não mexe na minha estante!
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