A Alienista
Por: Caroline Gonçalves Pinheiro
Começo a escrever estas linhas com um sentimento de profunda tristeza ao perceber que mais da metade da população parece não enxergar o óbvio. Estamos mergulhados em uma espécie de cegueira coletiva, cobertos por um profundo egoísmo.
O que mais entristece é perceber que estamos diante de uma sociedade completamente doente. É difícil compreender como um governo, seja do pai ou do filho Bolsonaro, que prega tantos tipos de preconceito e discriminação pode ser eleito e, principalmente, como discursos que deveriam nos causar indignação conseguem encontrar espaço e apoio. Eleito no passado e agora no primeiro turno novamente.
O cenário que está sendo pintado diante dos nossos olhos nada tem de social. É, cada vez mais, um olhar voltado para o próprio umbigo, sustentado pela ideia de que, se eu estou bem, o outro que se lasque. E é exatamente aí que percebemos uma completa inversão de valores.
Fala-se tanto em “Deus, Pátria e Família”, mas, ao mesmo tempo, muitos daqueles que levantam essas bandeiras são os primeiros a aparecer envolvidos em escândalos fiscais, denúncias e situações que contradizem os próprios valores que dizem defender.
Talvez o que mais assuste não seja apenas a existência dessas contradições, mas a forma como nos acostumamos a elas. Como se a indignação tivesse se tornado seletiva. Como se os nossos princípios dependessem de quem está sendo acusado.
E talvez seja justamente essa a doença da nossa sociedade: não conseguimos mais olhar para aquilo que é certo ou errado sem antes perguntar de que lado está quem fez.
Estamos perdendo a capacidade de pensar coletivamente. De olhar para além de nós mesmos. De compreender que uma sociedade só é verdadeiramente forte quando ninguém precisa ser colocado para baixo para que outro possa se sentir superior.
E, diante de tudo isso, fica uma pergunta que talvez seja ainda mais incômoda: Em que momento deixamos de nos importar uns com os outros
Não tenho respostas para tudo. Não acredito que Lula seja a solução para todos os problemas do Brasil, assim como não acredito em políticos perfeitos. Mas acredito que algumas escolhas dizem muito sobre o tipo de sociedade que queremos construir.
Mas existe uma diferença entre reconhecer os erros de um governo e fechar os olhos para aquilo que está em jogo quando a extrema-direita cresce e discursos autoritários, preconceituosos e intolerantes passam a ser tratados como algo normal dentro da política.
E é por isso que não consigo olhar para a possibilidade de Flávio Bolsonaro chegar à Presidência da República sem sentir uma profunda preocupação.
Para mim, isso não é simplesmente uma disputa entre candidatos.
É uma disputa sobre qual projeto de sociedade queremos construir para nós e para novas gerações
Durante séculos, a escravidão foi defendida como necessária. Pessoas negras foram sequestradas, comercializadas, violentadas e tratadas como propriedade. Existiam interesses econômicos enormes sustentando aquele sistema e pessoas dispostas a defendê-lo. Mas o fato de aquela estrutura ter sido aceita por tantos não a tornou justa.
O Holocausto também não começou com os campos de extermínio. Começou com a construção de uma ideia: a de que determinados seres humanos eram inferiores, perigosos, indesejáveis. Começou com a desumanização.
Democracia não pode significar simplesmente a maioria fazendo o que quiser.
Democracia significa também proteger direitos fundamentais, inclusive daqueles que não pertencem à maioria.
É exatamente isso que esteja faltando em nossa sociedade: a capacidade de compreender que o direito do outro não diminui o nosso.
Mas estamos vivendo uma época em que o individualismo parece ter vencido a solidariedade.
Mas porque, entre os caminhos que estão diante de nós, ainda acredito que a democracia, os direitos humanos e a inclusão devem pesar mais do que a promessa de uma sociedade construída sobre o medo e a exclusão. Essa é uma posição política e eu não tenho vergonha de assumi-la.
Aliás, talvez esse seja o problema de nossa época: temos medo de assumir aquilo em que acreditamos, enquanto pessoas que defendem abertamente discursos de ódio encontram cada vez menos vergonha em fazê-lo.
Significa que ainda me importo e enquanto eu me importar, continuarei dizendo aquilo em que acredito. Porque uma sociedade verdadeiramente forte não é aquela em que cada um consegue salvar a si mesmo.
É aquela em que ninguém precisa ser abandonado para que alguns possam dizer que venceram.
Não mexe na minha estante!
O livro nasceu de uma pesquisa iniciada há mais de vinte anos e foi completamente reescrito à luz dos acontecimentos recentes da política brasileira. Nesta primeira conversa, compartilho as motivações que me levaram a escrever a obra, o contexto em que ela foi produzida e por que acredito que pensar continua sendo uma das formas mais importantes de resistência política, ética e humana. Adquira o livro clicando aqui!
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E a vergonha, a tragédia, o absurdo do que aconteceu nessas eleições, com a maioria esmagadora da extrema direita vencendo, só podem se resumir a duas perguntas: o que você está fazendo de concreto para combater o fascismo? E será que eu fiquei tão frouxo na vida que tenho medo de me posicionar de forma radical, sendo que radical, aqui, é lutar contra o preconceito, as fake news e a mentira?
Como muito bem disse Marcia Tiburi: “É exatamente assim que funciona o fascismo. Mobilizam os piores afetos. Convencem pessoas ressentidas a expressar seu ódio de modo fanático. Nada nos surpreende.”
E, sinceramente, acho que é esse o ponto. Eu preciso revisitar o que estou fazendo e me perguntar: o quanto posso intensificar a minha postura de forma mais combativa? Preciso ser menos frouxo. Parece que eu arrefeci. Preciso contar meus amigos e amigas.
Poucas vezes eu me senti com tanto medo na minha vida, um pânico que aperta o meu coração e gela a minha alma. É difícil acreditar na disparidade da realidade percebida, que a morte de 700 mil pessoas não é suficiente para acordar as pessoas e que, assim como o meu colega disse, o que eu estou fazendo? O que eu posso fazer agora para lutar contra isso? Como eu tenho que mudar para combater isso?
É difícil encontrar mais palavras e é ainda mais difícil não conter a raiva crescente com as pessoas que eu conheço que votaram na extrema-direita, com a lavagem do antipetismo e com os mais de 30 milhões de abstenções, que devem estar morando na lua para largar não só a presidência, mas o Senado e os governos estaduais na mão daqueles que ameaçam os nossos direitos. Mas o que mais precisamos fazer agora: mover céus, mares e montanhas para que os ausentes acordem e nos ajudem a lutar contra essa catástrofe.