O Alienista
por Gabriel Bernardo
Guardo uma súplica secreta, tão discreta que ocorre de eu esquecê-la. Quando isso acontece os meus olhos esbarram nos cílios ao sair pela manhã, troco as mãos pelos pés e minha língua se enrola como um novelo de lã que não consegue mais encontrar a sua forma. Não há solução coerente para esses dias onde a escassez é também de palavras.
Tudo se move, e ao mesmo tempo, nada se move. A mecânica do trabalho não tem serventia se não a de um ópio esquisito. “Fomos feito para isso, será?”, pode ser que a virtude da ignorância tenha escapado pela fresta da janela entreaberta noite passada, ainda ouço os sussurros de meu antigo benfeitor. O seu trabalho deve ser feito com o mesmo prazer com que Deus fez ao te conceber, detalhado, feliz e cheio de graça. A gratidão será a sua maior arma contra a exaustão, pois o pão que Jesus repartiu também abençoa a sua mesa.
Por isso, meu corpo se ergue em função do labor, não conheci outro prazer. Serrei os dentes da fome com uma das lixas ásperas que usamos nas paredes de gesso, banhava o corpo em suor dentro do transporte público e sentia a amálgama dos outros se latanhando disciplinadamente a cada parada. Suspirando em cadência, ouvindo o barulho dos motores, buzinas, sirenes, martelos, telefonemas, massacres e brigas. Não percebi até chegar aos trinta que o querosene para o incêndio sempre esteve disponível na seca dos nossos olhos. Homens e mulheres se digladiando, canibais. Pois tenho para mim que o destino dos homens é devorar as mulheres como que para fazê-las voltarem a fazer parte faltante do ser que Deus um dia separou, ou pelo menos é assim que se comportam.
A cada ano exercendo a mesma função cresce em mim esta súplica.
O que observo do mundo tem se tornado cada vez mais opaco, a cidade e os cidadãos esmorecem aos poucos a medida em que nasce o sol. Cada prédio parece se afiar resvalando-se nos raios de sol escaldante, eles se encostam nas arestas e forma-se um traçado de lâminas esbranquiçadas no asfalto. Vê-se ao norte um paredão de terra avermelhada entumecer, quando os meus olhos o atingem sempre penso estar vendo um dos círculos do inferno de Dante. Será este o destino das almas que se ausentam da responsabilidade?
Antes, quando era um pequeno garoto nascido nos ermos da capital, queria alcançar o topo de um prédio e descobrir se ali estaria mais próximo do céu. A minha avô quando jovem, vinda do interior, rezou para que o meu pai conseguisse sobreviver uma febre que durava dois dias inteiros, complicações dado a pneumonia desenvolvida após um quadro de malária. O meu pai não pode ver o meu nascimento, pois estava voltando de um trabalho no interior, conta que na estrada havia recebido a mensagem de um anjo contando sobre a minha vinda, por isso deu a mim o nome desse anjo.
Esta súplica deve ter nascido comigo das entranhas da minha mãe. A mulher cujo grito amparou a dor que a vida lhe causou, e que seu sonoro eco gutural despertou em mim o primeiro medo, por isso sempre lhe resguardei o violento silêncio. Descobri que pesava-lhe a barriga o meu crescimento, mas que ao nascer uma criatura tão pequena e silenciosa logo reconheceu que seria mesmo o seu único filho.
Ele parece sentir fome.
Foram as suas primeiras palavras, assim contadas pela minha avó. Um animal faminto. Desejando, não, exigindo que lhe fosse saciado com pressa o seu primeiro sentimento terreno. Desde então não me lembro de outra coisa se não está súplica.
Não mexe na minha estante!
Pedro Páramo é um romance publicado em 1955, escrito pelo mexicano Juan Rulfo, considerado um dos precursores do que hoje é reconhecido como realismo mágico, gênero marcado pela narrativa sobrenatural enraizada com naturalidade pelo contexto dos seus universos, sejam figuras folclóricas, particularidades temporais ou mesmo os misticismos contados por sua avó. Uma particularidade do autor nesta obra que me chamou bastante a atenção é a forma como ele deixa explícita esse nevoeiro imaterial das lembranças, mas em contrapartida torna tão palatável os sentimentos evocados por cada uma delas.
“— Não deixe de ir visitá-lo” recomendou ela. "O nome dele é assim e assado. Tenho certeza que ele vai gostar de conhecer você."
O romance inicia com Juan Preciado, nosso primeiro personagem, ouvindo as últimas palavras de sua mãe e lhe fazendo uma promessa, sem saber exatamente a qual destino será entregue. Quem será Pedro Páramo? Homem cuja lembrança é tão importante que a faz suplicar pedidos impossíveis ao seu filho, figura incompatível com o presente, pois nunca pertenceu a vida de Juan até aquele momento de final lembrança. Uma imagem sem feições, somente um nome.
A primeira etapa da sua jornada está em retornar a Comala, cidade natal de sua falecida mãe, onde buscará: “O que ele tinha de ter me dado e não me deu nunca…O esquecimento em que nos deixou, filho, você deve cobrar caro.”
O caminho até lá está repleto de memórias estrangeiras, cenários de uma cidade cuja ausência dos seus habitantes é tão marcante quanto a presença, e o limiar entre o que é real e memória se estremece. A própria narrativa pode nos causar confusão em sua temporalidade, mas Juan está ali como um narrador e “guia” no universo de Comala.
O caminho para a descoberta é uma provação absurda, recomendo este livro para aqueles que desejam se envolver com a história emocionante da cidade de Comala, pois nunca é apenas sobre Pedro Páramo e Juan Preciado. Juan Rulfo nos envolve em símbolos, mistérios, poesia, pecado e tantos sinais de que o esquecimento pode não ser o nosso fim, ou talvez, ele seja a melhor saída.
Quem avisa…?
Pipoca na manteiga #52 — Quem escreve pode se dar ao luxo de ignorar a política?
Há quem acredite que literatura e política não devem se misturar, que eleições não interferem na liberdade de escrever e que governos passam enquanto os livros permanecem. Será?
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