O Alienista
por Cristian Abreu de Quevedo
Estou lendo, com 25 anos de atraso, Por Amor ao Mundo, uma biografia sobre a filósofa Hannah Arendt. Tenho buscado, nos últimos dias, me preparar para o que vem por aí. E isso independe da vitória da democracia, da vitória do Lula nas eleições. Teremos um Senado e uma Câmara de extrema-direita. Isso é o suficiente para que qualquer pessoa com um mínimo de apreço democrático, visto o casamento entre política e religião (Flávio e seu vice), se preocupe com seus direitos e sua liberdade. Ou, ainda, caso você seja extremamente rico e intocável pelo capitalismo, se preocupe com as minorias.
“Traidor da Constituição é traidor da pátria”
E acreditarei que é justamente com as pessoas que têm apreço democrático que estou falando aqui nesta news. Não que o restante das pessoas não me importe. Claro que me importam. Afinal, convivemos em uma pluralidade. E é justamente essa mesma pluralidade que pode ter a sua opinião confundida com preconceito. E, quando um preconceito, seja ele qual for, chega ao poder, como, por exemplo, um presidente fascista, o medo e a violência irrompem no mundo comum que partilhamos.
Mas hoje, nas ruas aqui em Curitiba, eu estava ao lado do meu noivo e de amigos e amigas. As ruas, até mesmo com torcidas organizadas carregando lindamente bandeiras pela democracia, estavam ali ao alcance dos nossos olhos e das nossas mãos. Eu me emocionei.
E, como disse acima, independentemente do resultado das urnas na próxima semana, teremos uma luta árdua contra o fascismo, e é nisso que concentrarei minhas energias.
“Temos ódio e nojo à ditadura”
A biografia percorre a trajetória pessoal, intelectual e política de uma das filósofas mais importantes do século XX, atravessada pela perseguição nazista, pelo exílio e pela reflexão sobre o totalitarismo, a liberdade e a responsabilidade política. Tenho buscado, nos últimos dias, me preparar para o que vem por aí, e talvez seja justamente por isso que essa leitura tenha chegado a mim neste momento. Arendt pensou a política a partir das experiências de seu próprio tempo, procurando compreender como a violência, o autoritarismo e a destruição do espaço público afetam a possibilidade de vivermos juntos em um mundo comum.
Ao ler essa biografia, procuro também encontrar ferramentas para pensar o nosso presente. Não se trata de acreditar que a história se repete exatamente da mesma maneira, mas de reconhecer que precisamos estar atentos às condições que tornam possíveis a intolerância, a perseguição e o enfraquecimento da democracia. É por isso que, independentemente do resultado das urnas na próxima semana, acredito que teremos uma luta árdua pela frente. Quero compreender melhor esse mundo que compartilhamos, as responsabilidades que temos nele e as formas de resistir quando a liberdade e os direitos de algumas pessoas passam a ser tratados como obstáculos. Talvez seja esse um dos sentidos mais importantes do título da obra:
pensar e agir por amor ao mundo, não porque ele esteja livre de contradições, mas porque ainda é nele que podemos construir, juntos, outras possibilidades de existência.
O discurso de Ulysses, citado acima, passaria a ser considerado um dos mais marcantes da história recente brasileira, com uma forte defesa da Constituição que acabava de nascer e um forte rechaço da ditadura da qual o país se despedia. Vale ouvir cada palavra dele!
Não mexe na minha estante!
Recomendo muito o documentário Vida ativa: o espírito de Hannah Arendt, dirigido por Ada Ushpiz. Com imagens de arquivo, cartas e registros históricos, o filme nos aproxima não só da filósofa, mas também da mulher por trás das ideias: seus amores, suas contradições, suas dores e as polêmicas que enfrentou. O documentário ajuda a entender por que Arendt continua tão atual. Afinal, como pensar o autoritarismo, a responsabilidade individual e a nossa capacidade de conviver com as diferenças sem encarar as perguntas que ela nos deixou? Para quem, como eu, está tentando compreender melhor o mundo em que vivemos, vale muito a pena assistir!
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