O vento apagaria em poucas horas as marcas deixadas na areia.
Restariam apenas as carroças avançando lentamente, os feridos escondendo a dor sob os tecidos e o silêncio desconfortável daqueles que começavam a perceber que sobreviver à estrada não seria suficiente. Havia um destino adiante, uma missão que não podia ser abandonada e um jantar para o qual todos pareciam precisar chegar vivos — embora ninguém ainda soubesse exatamente o que seria servido à mesa.
Muito longe dali, cartas cruzavam continentes cercados. Kalien escrevia como escrevem aqueles que nunca aprenderam a distinguir paciência de certeza. Exigia respostas, falava de rendição e aguardava o momento em que o mundo reconheceria, por vontade ou cansaço, o lugar que ele acreditava já lhe pertencer.
Outros escreviam despedidas sem colocá-las no papel.
Mestres confiavam aprendizes a mãos que talvez sobrevivessem. Planos eram discutidos como se alguns dos seus arquitetos já não esperassem estar presentes quando chegasse a hora de executá-los. Exércitos começavam a abandonar os quartéis, embarcações seguiam para costas distantes e, em algum ponto ainda indefinido do mapa, preparava-se uma mesa para receber o inimigo.
Nas terras élficas, as águas se ergueram.
Tomaram por um instante a forma de algo antigo, imenso e quase esquecido. O passado não veio pedir reparação, mas entregar aquilo que ainda podia ser salvo. Houve memórias de batalhas que já não pertenciam inteiramente ao mundo atual, promessas feitas diante da morte e a silenciosa transferência de um legado que não poderia atravessar sozinho a guerra que se aproximava.
Mas nem todas as fronteiras estavam sobre a terra.
No lugar para onde vão as almas que não encontraram luz, nomes dados como encerrados continuavam a ser pronunciados. Mortos ainda alcançavam os vivos, antigas pragas procuravam frestas e homens santos passaram a discutir não como derrotar aqueles que habitavam as trevas, mas como fechar as portas antes que algo mais conseguisse atravessá-las.
Quando a noite caiu, nenhum dos caminhos parecia mais separado.
A caravana continuava avançando. As tropas já marchavam. Um dragão havia confiado o que lhe restava. Os mortos voltavam a falar. E, em algum lugar entre o deserto, os salões da Aliança e os limites do mundo, preparava-se um encontro que talvez não fosse apenas uma armadilha.
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