Por: Welyson Pereira de Almeida
O Alienista
Quero voltar a um assunto sobre o qual já discorri em edições anteriores: como aprendemos sobre política, como aprendemos a votar e, principalmente, como escolhemos os nossos candidatos.
Recentemente, acabei entrando numa discussão com um amigo. Não vou entrar no mérito de quem é — até porque eu sei que essa pessoa vai ler este texto —, mas, em determinado momento da conversa, ele me disse que eu deveria ler mais e aprender mais sobre política. Segundo ele, parte do meu conhecimento estava ultrapassada.
Na hora, eu fiquei realmente indignado. O que é engraçado, pensando agora, porque eu nunca disse que entendia profundamente de política. Nunca me coloquei como especialista no assunto. Ainda assim, por algum motivo, ouvir aquilo me ofendeu.
Passada a irritação, porém, precisei admitir: havia alguma razão naquela fala. Principalmente porque ela esbarrava exatamente em uma questão sobre a qual eu mesmo já havia escrito aqui: como nós aprendemos política?
Porque política é uma dessas coisas sobre as quais quase todo mundo tem alguma opinião, mas que, a menos que exista um interesse particular pelo assunto, dificilmente paramos para estudar de maneira realmente aprofundada.
Nós acompanhamos notícias, ouvimos comentaristas, conversamos com amigos, vemos vídeos, lemos algumas coisas, estudamos determinados períodos da história e, com tudo isso, vamos formando a nossa visão de mundo. E não estou dizendo que isso não seja conhecimento. É. Mas existe uma diferença entre acompanhar política e estudar determinadas estruturas políticas com profundidade.
Se não existe esse esforço deliberado, alguns critérios simplesmente não se desenvolvem. Por causa daquela discussão, comecei a ler Como as Democracias Morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Curiosamente, o livro me foi indicado pelo mesmo amigo.
Ainda não terminei a leitura e, por isso, também não pretendo escrever aqui como se tivesse chegado a grandes conclusões a partir dele. Mas, até onde li, aconteceu algo interessante: em alguns pontos, o livro reforçou percepções que eu já tinha; em outros, me obrigou a reorganizar algumas ideias.
Principalmente sobre o papel dos partidos políticos, sobre os mecanismos pelos quais determinados candidatos chegam até uma eleição e sobre a responsabilidade que essas organizações possuem dentro de uma democracia.
E é claro que um livro não vai explicar todo o cenário político. Muito menos oferecer algum tipo de verdade definitiva sobre a sociedade. É uma obra escrita por autores norte-americanos, olhando em grande parte para instituições, processos históricos e experiências políticas daquele contexto. Isso inevitavelmente impõe limites quando tentamos transportar algumas de suas análises diretamente para uma realidade como a brasileira. Ainda assim, esses limites não diminuem o valor da obra nem o trabalho dos autores. Apenas significam que ela é uma lente — não a única lente.
Talvez tenha sido justamente isso que mais ficou na minha cabeça durante a leitura. O quanto falhamos em educar e o quanto, muitas vezes, falhamos em buscar essa educação por conta própria.
E aqui eu entro em um ponto no qual provavelmente vou ser um pouco mais polêmico: o desserviço que, na minha opinião, pode surgir quando religião e política partidária passam a se misturar.
Não é algo exclusivo desta ou daquela eleição. Repetidamente vemos figuras políticas buscando apoio de grupos religiosos e lideranças religiosas utilizando sua influência para defender determinados candidatos. E, particularmente, eu não acredito que esse deva ser o papel da religião.
Eu poderia ir muito mais longe nesse assunto.
Poderia falar sobre influência, construção de opinião, controle de informação, comportamento de massas e sobre o poder que determinadas instituições possuem sobre a maneira como seus membros interpretam o mundo. Mas talvez essas sejam opiniões que, por enquanto, eu prefira guardar para conversas mais íntimas — até porque tenho plena consciência de que algumas pessoas provavelmente pirariam lendo o que eu realmente penso sobre isso.
Ainda assim, tudo isso me trouxe de volta a uma preocupação muito maior.
Especialmente quando olhamos para episódios recentes envolvendo o Supremo Tribunal Federal e para discussões públicas sobre a atuação das nossas instituições, fica difícil não pensar sobre o quanto interesses políticos, institucionais e pessoais podem acabar se confundindo.
E talvez seja isso que mais me assuste. Não necessariamente descobrir que existem falhas. Instituições são feitas por pessoas e, portanto, falham. O que me assusta é perceber como podemos nos acostumar com essas falhas. Como podemos começar a justificá-las quando elas favorecem o nosso lado. Como aquilo que consideramos absurdo quando praticado por alguém de quem discordamos pode, de repente, parecer aceitável quando beneficia aquilo em que acreditamos.
E talvez seja justamente aí que estudar política deixe de ser apenas uma questão de saber em quem votar.
Talvez seja, antes de tudo, aprender a reconhecer os nossos próprios critérios — e descobrir se eles continuam existindo quando é o nosso lado que está sendo colocado à prova.
Não mexe na minha estante!
Acho que não existe muito mistério sobre qual seria a recomendação desta edição do Não Mexe na Minha Estante.
Já que passei boa parte do texto anterior falando sobre ele, minha recomendação é Como as Democracias Morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt.
E talvez seja importante começar dizendo uma coisa: eu ainda não terminei o livro.
Então isso aqui não é exatamente uma resenha. É mais uma recomendação feita no meio do caminho, porque estou gostando bastante da leitura e porque ela tem me provocado justamente nas questões sobre as quais venho pensando nas últimas semanas.
Não sei se diria que Como as Democracias Morrem deveria necessariamente ser a primeira porta de entrada para alguém que queira começar a estudar política. Provavelmente existem outras leituras que cumpram melhor esse papel. Mas acho que ele pode ser uma porta muito interessante para entender algumas discussões que estão acontecendo ao nosso redor.
Principalmente quando palavras como “fascismo”, “autoritarismo”, “extrema-direita” e “ameaça à democracia” aparecem tantas vezes no debate público que, às vezes, começam até a perder o significado.
O livro parte bastante da experiência norte-americana e da ascensão de Donald Trump, mas não fica restrito aos Estados Unidos. Levitsky e Ziblatt recorrem a diferentes momentos históricos — incluindo experiências europeias e latino-americanas — para discutir como democracias podem ser enfraquecidas não apenas por golpes tradicionais, mas também gradualmente, por dentro de suas próprias instituições.
E talvez seja justamente por isso que a leitura tenha me parecido tão atual.
Enquanto escrevo esta edição, vemos a extrema-direita conquistando novos espaços eleitorais na Alemanha, com o avanço da AfD, ao mesmo tempo em que, no Brasil, continuamos discutindo as consequências políticas e jurídicas dos acontecimentos de 8 de janeiro e propostas de anistia relacionadas aos condenados por aqueles atos.
É difícil ler sobre os mecanismos descritos pelo livro sem, vez ou outra, parar e pensar sobre aquilo que está acontecendo ao nosso redor.
E pronto. Aqui é justamente o momento em que percebo que estou começando a transformar a recomendação em outro texto de política. Então vou me controlar.
Até onde cheguei, Como as Democracias Morrem tem sido uma leitura muito boa. Não necessariamente porque esteja mudando completamente aquilo que penso, mas porque está me dando conceitos, exemplos históricos e maneiras diferentes de olhar para questões sobre as quais eu já pensava sem necessariamente saber como organizar.
Quando terminar, provavelmente vou atrás de outros trabalhos dos autores — inclusive porque descobri que os dois escreveram posteriormente Como Salvar a Democracia — e talvez essa leitura acabe abrindo uma nova estante de assuntos para mim.
Por enquanto, fica a recomendação.
E, aparentemente, meu amigo conseguiu o que queria: me fez estudar mais sobre política….
Quem avisa…?
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